Acordo entre Mercosul e União Europeia vai gerar mais negócios no ES
Tratado aprovado após décadas deve baratear produtos e ampliar exportações e investimentos para a economia capixaba nos próximos anos
Negociado há mais de 25 anos, o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul foi aprovado ontem e tende a baratear uma série de produtos consumidos pelos brasileiros nos próximos anos. No Estado, o novo tratado vai reduzir preços e criar novos negócios.
Para o presidente do Sindicato do Comércio de Importação e Exportação do Espírito Santo (Sindiex), Sidemar Acosta, o acordo representa uma oportunidade histórica para o Brasil e o Estado, ao abrir acesso preferencial ao mercado europeu e eliminar tarifas sobre diversos bens entre os blocos.
Isso, diz ele, aumenta a competitividade de produtos brasileiros que já têm demanda na Europa, como café, frutas e açúcar, além de criar espaço para novos nichos e atrair investimentos estrangeiros.
“Para o Espírito Santo, exportador tradicional de produtos como café, minerais e bens agrícolas, o acordo pode impulsionar as vendas externas, diversificar destinos e tornar mais competitiva a importação de insumos industriais, máquinas e tecnologias europeias, com redução de custos”, afirmou, por meio de nota.
Para ele, a maior previsibilidade nas regras comerciais também facilita o planejamento das empresas associadas ao Sindiex e fortalece cadeias produtivas locais, especialmente em um estado com forte vocação logística e portuária.
No entanto, ele salienta que há desafios. “A concorrência com produtos europeus em setores industriais e de maior valor agregado tende a se intensificar, exigindo investimentos em modernização tecnológica, eficiência produtiva e inovação. Além disso, normas ambientais e sanitárias rigorosas da União Europeia, muitas vezes associadas ao chamado protecionismo verde, podem se tornar barreiras não tarifárias caso os produtos capixabas não atendam plenamente a esses padrões”.
O secretário de Estado do Desenvolvimento, Rogério Salume, também reforça que, para o Espírito Santo, o acordo pode criar novas oportunidades de exportação, especialmente nos setores agrícola e industrial, além de atrair investimentos e reduzir custos produtivos.
O acordo, por exemplo, pode baratear os vinhos europeus e ampliar a variedade de rótulos disponíveis no Brasil no longo prazo. “O vinho não é o fim; é o meio. Para o Estado, o acordo não cria vinhedos, mas cria negócios, serviços, circulação de riqueza e empregos, devido à nossa rede portuária”, disse o advogado Estenil Casagrande Pereira.
Acordo entre blocos é o maior do mundo, diz vice-presidente
O vice-presidente Geraldo Alckmin, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, celebrou o aval dos países europeus para o acordo Mercosul-União Europeia.
Segundo Alckmin, 30% dos exportadores brasileiros vendem produtos para países da União Europeia, cerca de 9 mil empresas.
“Esse acordo fortalece o multilateralismo, o comércio entre os dois blocos, comércio com regras, promove investimentos — devemos ter mais investimentos europeus no Mercosul. Fortalece a sustentabilidade, porque Brasil assume compromisso de combate às mudanças climáticas. É ganha-ganha. Produtos mais baratos e de melhor qualidade”, disse Alckmin.
Segundo ele, o acordo deve ser assinado nos próximos dias no Paraguai e começar a valer em 2026.
Sobre a oposição ao acordo de alguns países, como a França, Alckmin disse que é “difícil ter a unanimidade”. O vice-presidente disse ainda que, embora a aprovação não tenha relação direta com o tarifaço promovido pelos Estados Unidos, o acordo pode ajudar na revisão de tarifas pelos norte-americanos.
Mais cedo, os países da União Europeia confirmaram aprovação do acordo comercial com o Mercosul, maior zona de livre comércio do mundo.
Segundo o governo brasileiro, trata-se do maior acordo comercial negociado pelo Mercosul e um dos maiores dentre aqueles pactuados pela União Europeia com parceiros comerciais.
O acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e Produto Interno Bruto (PIB) de mais de US$ 22 trilhões de dólares.
Saiba mais
O acordo UE-Mercosul
Redução de tarifas
O acordo prevê a redução gradual de tarifas, regras comuns para comércio de produtos industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios.
O tratado criará uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, ligando os dois blocos em um mercado de mais de 700 milhões de pessoas.
Divisões internas na União Europeia
Apesar do potencial econômico, as negociações dividiram a União Europeia. Países como Alemanha e Espanha apoiam o tratado por enxergarem oportunidades de ampliar exportações, reduzir a dependência da China e garantir acesso a minerais estratégicos.
Já a França — que garantiu apoio de alguns países, como Polônia, Irlanda e Áustria — se opõe, principalmente por temer prejuízos ao setor agrícola diante da concorrência de produtos sul-americanos mais baratos. Agricultores e ambientalistas também criticam o acordo.
O texto final tenta equilibrar esses interesses, com salvaguardas para a agricultura europeia e exigências ambientais mais rígidas.
O papel do brasil
Para o Mercosul, o Brasil tem papel central: precisa comprovar avanços em sustentabilidade e controle ambiental para facilitar a ratificação e ampliar o acesso ao mercado europeu.
Quando será assinado?
O Ministério das Relações Exteriores da Argentina informou ontem que o acordo entre União Europeia e Mercosul será assinado na próxima sexta-feira, dia 17, no Paraguai.
O tratado ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu para entrar em vigor, mas a decisão já abre caminho para a assinatura do texto entre os blocos.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, espera que o acordo entre Mercosul e União Europeia comece a valer já neste ano.
E no Estado?
A aprovação provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul reposiciona o Espírito Santo no debate sobre abertura econômica e competitividade, de acordo com Estenil Casagrande Pereira, advogado e presidente da Comissão de Direito Internacional e Relações Internacionais da 20ª Subseção da OAB/ES (Domingos Martins e Marechal Floriano).
Segundo ele, com forte vocação logística e perfil exportador consolidado, o Espírito Santo tende a colher benefícios relevantes, mas também enfrenta desafios que não podem ser subestimados.
De um lado, a ampliação do comércio com a Europa fortalece os portos capixabas, estimula o agronegócio — com destaque para o café conilon — e amplia oportunidades para setores industriais voltados à exportação. De outro, a entrada de produtos europeus mais competitivos e as exigências ambientais rigorosas impõem pressão sobre a indústria local e pequenos produtores.
Pontos Positivos
- Fortalecimento dos portos e da logística
- Aumento das exportações ao mercado europeu
- Ganhos para o agronegócio capixaba
- Atração de investimentos estrangeiros
- Criação de empregos e renda
Pontos negativos
- Concorrência de produtos industriais europeus
- Pressão sobre indústrias menos tecnológicas
- Dificuldade de adaptação de pequenos produtores
- Custos ambientais e sanitários elevados
- Risco de dependência de commodities
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários