Novo alerta para perigos da harmonização facial
Estudo aponta que preencher o rosto sem orientação médica adequada pode causar danos como perda de pele e até cegueira
O Brasil realizou mais de 176 mil aplicações de ácido hialurônico, apenas em 2024, segundo relatório da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS). O produto é um dos mais utilizados para a realização de harmonização facial.
O procedimento, segundo especialistas, visa melhorar o contorno de nariz, de mandíbula e de lábios, além de suavizar rugas e linhas de expressão. Porém, um estudo alerta que preencher o rosto, sem orientação médica adequada, pode causar danos graves.
Perda de pele e até cegueira podem ser ocasionadas caso o preenchedor cause bloqueio das artérias, segundo apontou o estudo da Universidade de São Paulo (USP).
Os pesquisadores usaram um ultrassom para estudar 100 casos de preenchimento que deram errado. A recomendação dos investigadores é que, antes do procedimento, o médico utilize o ultrassom para avaliar onde o produto deve ser aplicado, evitando complicações.
A dermatologista Karina Mazzini reforça que o preenchimento não é um procedimento “tão simples”, como muita gente pensa.
“O preenchimento, mesmo com o ácido hialurônico, é feito de um material que é um gel, não é líquido. Se a pessoa injetar dentro de uma artéria pode fazer uma oclusão do fluxo sanguíneo. Existem áreas de muito risco, como glabela (entre as sobrancelhas), nariz, olheiras e sulcos nasogenianos (bigode chinês)”, apontou.
Para a dermatologista Oliete Guerra, quem deve realizar esses procedimentos são médicos, dermatologistas e cirurgiões plásticos.
“É preciso entender de pele, das camadas, da anatomia, quando está havendo algum problema e o que fazer se ele ocorrer. Problema só não tem quem não faz, mas, se diagnosticado a tempo, é possível trabalhar bem. É preciso saber em quais áreas fazer e o material usado”.
A médica Renata Melo ressalta que a harmonização não se trata apenas de “colocar um pouco de produto”, já que o procedimento exige conhecimento da anatomia e técnica precisa.
“Segurança vem antes de qualquer resultado estético. Infelizmente, vemos intercorrências todos os dias, algumas graves, e profissionais sem capacitação chegam a tratá-las como normais. Segurança, técnica e transparência devem ser prioridade”.
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Riscos dos preenchimentos
Especialistas vêm alertando que procedimentos de preenchimento no rosto, apesar de populares, podem trazer riscos sérios quando feitos sem planejamento adequado.
Entre as complicações mais preocupantes está a obstrução de artérias, situação que reduz o fluxo de sangue e pode provocar necrose (morte do tecido) e até cegueira.
Embora esses eventos não sejam comuns, médicos enfatizam que seus efeitos podem ser devastadores quando não identificados e tratados rapidamente.
O que revelou o estudo
Um grupo de pesquisadores analisou 100 casos de complicações decorrentes de preenchimentos, usando ultrassonografia para entender como e onde ocorreram as falhas.
O levantamento reuniu pacientes atendidos em centros especializados do Brasil, Colômbia, Chile, Holanda e Estados Unidos, no período de 2022 a 2025.
Em quase metade deles, o exame mostrou ausência de fluxo sanguíneo em pequenos vasos que ligam artérias superficiais às mais profundas do rosto. Em um terço dos casos, as interrupções ocorreram em vasos maiores, indicando risco ainda mais acentuado.
Áreas perigosas
As regiões do nariz, glabela e olheiras foram citadas como as mais delicadas para aplicação de preenchedores. Isso porque os vasos sanguíneos nessas regiões se conectam a estruturas importantes da face. Uma injeção mal posicionada pode comprometer a circulação local e gerar complicações graves, como danos à pele e cegueira.
Ultrassom antes do preenchimento
O estudo reforça a recomendação para que clínicas realizem ultrassonografia antes de iniciar qualquer preenchimento facial.
O exame permite mapear a anatomia vascular individual, ajudando profissionais a identificar as áreas mais seguras para aplicação.
Em caso de complicações, o ultrassom também funciona como guia para o tratamento, direcionando exatamente onde a hialuronidase deve ser aplicada para dissolver o produto e restaurar o fluxo sanguíneo. Sem essa orientação por imagem, o manejo é feito “às cegas”, com maior risco de falhas.
Regulamentação e segurança
Entidades internacionais de cirurgia plástica ressaltam que, apesar do avanço no uso do ultrassom, ele ainda não é obrigatório na rotina das clínicas. Esse cenário reacende discussões sobre a necessidade de regulamentação mais rígida para procedimentos estéticos.
No Reino Unido, por exemplo, o governo planeja restringir procedimentos de maior risco exclusivamente a profissionais de saúde qualificados e exigir licenciamento rigoroso de clínicas que realizam preenchimentos e aplicações de toxina botulínica.
Uma consulta pública sobre as novas regras está prevista para 2026, antes que o Parlamento decida quais medidas serão adotadas.
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