Após agressão em Piedade, mulher diz ter sido desestimulada ao denunciar caso
Vítima levou uma garrafada no rosto após rejeitar investidas de um desconhecido e diz ter ouvido de policiais que o caso “não ia dar em nada”
Com colaboração de Luciana Queiroz/JT1
Uma mulher de 30 anos denunciou ter sido desestimulada por policiais ao procurar a delegacia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, após ser assediada e violentamente agredida por um homem que ela não conhecia. Ferida no rosto por uma garrafada, com suspeita de fratura no nariz e hematomas visíveis, a vítima afirma que ouviu, ainda abalada, que a agressão não teria consequências legais porque o agressor não era seu companheiro, parente ou alguém com quem mantivesse relação íntima.
O episódio ocorreu após a cambista Nielma Vitória da Silva sair de uma casa de shows no bairro de Piedade, onde participava de um pagode com uma amiga. Ao recusar repetidas investidas do agressor, ela acabou atacada do lado de fora do estabelecimento. O golpe, segundo relata, veio acompanhado de uma frase que resume a lógica da violência: ela teria sido atingida por ser “braba” — como se o ataque fosse uma punição por não se submeter.
Assédio, recusa e agressão
De acordo com o relato, o homem passou a noite se insinuando, elogiando e insistindo, mesmo sem receber qualquer resposta positiva. A vítima afirma que não interagiu com ele dentro da casa de shows e que estava no local apenas para se divertir e acompanhar a apresentação musical.
A situação se agravou já na rua, quando ela ajudava a amiga, que estava tinha bebido, enquanto aguardavam um carro por aplicativo. O agressor se aproximou, questionou se a mulher estaria “drogando” a amiga e chegou a afirmar ser policial. Minutos depois, enquanto a vítima olhava o celular, foi atingida no rosto por uma garrafa de vidro. “Você é muito braba”, disse, antes de fugir de bicicleta, sem prestar socorro.
A denúncia foi divulgada no Jornal da Tribuna 1ª Edição nesta quarta-feira (31).
Ferimentos e medo
A garrafa quebrou com o impacto. Nielma precisou ser socorrida, passou por uma unidade de pronto atendimento e foi transferida para o Hospital Getúlio Vargas. Além dos cortes e do inchaço no rosto, há suspeita de fratura no nariz, que ainda será reavaliada.
Mais do que as lesões físicas, ela relata o medo de voltar a sair para momentos de lazer. Diz temer novos episódios de violência e afirma que o agressor aparentava morar nas proximidades do local do crime.
“Não vai dar em nada”, ouviu na delegacia
Após receber atendimento médico, a mulher procurou a delegacia responsável pela área do ocorrido para registrar o boletim de ocorrência. Segundo ela, foi nesse momento que enfrentou uma segunda violência: o descrédito. "Não vai dar em nada", contou, relatando o que ouviu dos policiais.
De acordo com o relato dela, policiais teriam afirmado que o caso não resultaria em punição porque o agressor era um desconhecido, sem vínculo afetivo ou familiar com a vítima. A fala, na avaliação dela, reforçou a sensação de abandono e a ideia de que mulheres só devem ser levadas a sério quando a violência ocorre dentro de relações formais.
O que diz a Polícia Civil
Procurada pelo Tribuna Online PE após a denúncia, a Polícia Civil de Pernambuco informou que a ocorrência foi registrada no último dia 28 como lesão corporal, na 19ª Delegacia de Prazeres. Segundo a nota, a vítima foi socorrida para uma unidade hospitalar e o autor, um homem de 61 anos, chegou a ser agredido por populares, recebeu atendimento médico e foi encaminhado à delegacia, onde acabou autuado por lesão corporal.
Apesar da resposta oficial, o caso levanta questionamentos sobre a postura adotada no primeiro atendimento à vítima e sobre como mulheres em situação de violência são acolhidas — ou desencorajadas — ao buscar o Estado.
Violência que começa no “não”
O ataque expõe um padrão recorrente: a agressão como resposta à recusa. Para a vítima, a mensagem foi clara — a garrafada funcionou como um “toma aí”, uma tentativa de silenciamento pela força. Um castigo por não falar “manso”, por não aceitar a investida, por exercer o direito básico de dizer não.
Ela afirma que só espera justiça. Não apenas por si, mas para que outras mulheres não passem pelo mesmo. “Eu poderia ter perdido a visão. Poderia ter sido pior”, resume. A violência, nesse caso, não terminou com o impacto da garrafa. Ela continuou, institucionalmente, quando a vítima ouviu que sua dor talvez não fosse suficiente para gerar consequência. A vítima não recebeu qualquer informação sobre o agressor, se era realmente policial ou não.
Veja nota da Polícia Civil na íntegra
"A Polícia Civil de Pernambuco, através da 19ª Delegacia de Prazeres, informa que registrou no dia 28, a ocorrência de lesão corporal, ocorrida no bairro de Piedade e que teve como vítima, uma mulher de 30 anos, socorrida para uma unidade hospitalar. O autor, um homem de 61 anos, que foi agredido por populares, após atendimento médico, foi encaminhado para a delegacia, onde foi autuado".
Comentários