Vida de parteira que ajudou 300 nascimentos no ES vira filme
Maria Laurinda Adão, a dona Maria, tem 82 anos, mora em Cachoeiro e tem uma trajetória marcada pelo cuidado com o próximo
A vida de uma parteira que ajudou mais de 300 crianças a nascer virou filme no Sul do Espírito Santo. Maria Laurinda Adão, conhecida como dona Maria, tem 82 anos, mora no interior de Cachoeiro de Itapemirim e é reconhecida por uma trajetória marcada pela fé, pela resistência e pelo cuidado com o próximo.
Também coveira em um cemitério histórico fundado em 1865, no quilombo de Monte Alegre, onde vive até hoje, dona Maria é mãe de santo e uma das mais antigas mestras do caxambu Santa Cruz.
Sua história foi transformada em arte no curta-metragem “Laurinda”, disponível no YouTube. A produção retrata a vida da quilombola em uma narrativa sensível, repleta de memórias e reflexões sobre a terra, a fé e o ciclo da vida.
Entre lembranças e ensinamentos, dona Maria resume a experiência que carrega há décadas: “Cada parto é um milagre. Quando a criança chora pela primeira vez, parece que a vida renasce junto com ela”, diz.
Ao se ver retratada nas telas, emociona-se: “Nunca pensei que minha história virasse filme. Quando me vi lá, chorei. É bonito saber que minha vida pode ensinar alguma coisa aos outros”, completa.
O curta-metragem, dirigido por Beatriz Lindenberg e com fotografia de Gustavo Louzada, apresenta momentos marcantes da trajetória de dona Maria, o trabalho como parteira, os serviços de coveira, o retorno à sala de aula, a viagem à África, a relação com a terra e com a fé e sua compreensão sobre o ciclo da vida.
A finalização do filme foi viabilizada por meio do edital nº 14/2022 de Seleção de Projetos de Produção Audiovisual no Espírito Santo (Finalização da Produção de Obras Cinematográficas).
A realização é do Instituto Marlin Azul, com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).
Para o diretor de fotografia Gustavo Louzada, registrar dona Maria foi uma experiência transformadora. “Filmar 'Laurinda' foi mais do que documentar uma história. Foi entrar em contato com uma sabedoria ancestral, com uma mulher que representa a força e a espiritualidade de um povo”.
“Cada imagem carrega o tempo, o afeto e a fé dessa trajetória. Dona Maria tem uma presença que vai além das palavras. Ela ensina pelo olhar, pela calma”, destaca.
Primeira Filha
“Eu já não sabia o que fazer”
A aposentada Cecília Pereira é moradora de Cachoeiro de Itapemirim e conta que teve a primeira filha, Carmem, pelas mãos de dona Maria no final dos anos 70.
“Eu já não sabia o que fazer. A dor aumentava e eu só chorava. De repente, bateram na porta. Quando abri, era dona Maria, toda molhada de chuva, mas firme. Ela me olhou e disse que eu não estava sozinha. Aquilo me deu coragem”, contou Cecília.
Dona Maria também atua como coveira há mais de 50 anos
Filha de trabalhadores rurais, Maria Laurinda Adão conta que começou a trabalhar cedo, ainda menina, quando o pai adoeceu e ela precisou ajudar no sustento da casa. Foi a avó quem lhe ensinou as rezas, as ervas e o dom de ajudar mulheres a dar à luz, saberes que aprendeu na roça e levou para toda a comunidade.
Com o mesmo respeito com que recebia vidas, Laurinda também acompanha as partidas. Ela trabalha há mais de 50 anos como coveira no cemitério histórico do quilombo de Monte Alegre.
É ela quem prepara o local, ajuda nas cerimônias e conforta as famílias. “Enterrar alguém também é um ato de amor. Assim como o nascimento, a morte precisa de cuidado e respeito. Tudo faz parte do mesmo ciclo”, reflete.
Mas dona Maria se tornou presença constante em partos pelo interior de Cachoeiro de Itapemirim e nas comunidades vizinhas, onde sempre foi chamada quando uma nova vida estava para chegar. “Cada criança que nasce é uma bênção que a gente ajuda a chegar”, diz.
Ela lembra que, muitas vezes, ia a cavalo ou a pé, enfrentando chuva ou noite escura, apenas com uma lamparina na mão.
“Eu não tinha medo. Quando a mulher gritava, eu já sabia que era hora. A gente fazia tudo com fé, com as mãos e com Deus por perto”, conta.
Mãe de santo e uma das mais antigas mestras do caxambu Santa Cruz, dona Maria é reconhecida como guardiã da memória quilombola do Sul do Estado.
Espaço de fé e acolhimento
No centro espírita de Maria Laurinda, dedicado à umbanda, o silêncio é raro. As orações se misturam ao som dos tambores do caxambu, manifestação cultural e espiritual de origem africana que ecoa há gerações entre os quilombolas de Monte Alegre.
Além de parteira e coveira, a idosa também é mãe de santo e sua casa se tornou um espaço de acolhimento, fé e memória.
Ali, o terreiro funciona como um centro de convivência da comunidade: gente chega para pedir uma bênção, buscar um conselho ou simplesmente tomar um café e ouvir as histórias da mestra.
“Minha casa está sempre aberta. Aqui ninguém sai sem uma palavra boa ou uma reza”, diz, ajeitando o lenço colorido na cabeça.
As paredes guardam retratos de família, santos, guias e tambores. No fundo do quintal, um pé de mamona e outro de arruda lembram a origem dos remédios e das bênçãos que ela distribui há décadas.
Dona Maria fala com carinho do ofício de mãe de santo, que aprendeu com as mais velhas e mantém com devoção. “Tudo que eu faço, faço com fé. A reza cura, o tambor fortalece e a palavra consola. É assim que a gente vai seguindo, com a força de Deus e dos ancestrais”.
Em dias de festa, o local ganha vida. As roupas brancas e coloridas se misturam e o som do caxambu toma conta do lugar.
Dona Maria sempre está no centro da roda, batendo palmas, cantando e dançando com energia surpreendente para quem já passou dos 80 anos.
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