Cresceu mesmo?
Explore as riquezas e os desafios do crescimento econômico no Brasil, analisando a influência de fatores internos e externos na economia.
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O Brasil é um país abençoado. Chega a ser difícil imaginar uma riqueza que não tenhamos em abundância. E elas nos foram dadas sobre um solo praticamente livre dos desastres naturais que infernizam a vida de outros países. Mas nossa riqueza não é apenas material – é também humana. Temos um dos bons povos do planeta, reconhecidamente criativo, esforçado, afável e solidário.
Foi graças à combinação de todos esses fatores que nossos ancestrais conseguiram contornar as ameaças mais sérias, no mais das vezes fruto da cobiça de povos estrangeiros, entregando às gerações contemporâneas um país digno de orgulho, com capacidade inimaginável de crescimento.
Foi quando, em nossa era, iniciamos um processo de degradação lento, quase que imperceptível, mas progressivo e constante, do potencial de crescimento da tão bela Pátria que recebemos.
Nossos contemporâneos iniciaram esse processo quando, ao longo de diversos governos, optaram pelo transporte rodoviário em um país de dimensões continentais – a propósito, desconheço no mundo um país com extensão similar à nossa que tenha optado por rodovias em detrimento de ferrovias ou portos. Para piorar, essa matriz é fornecida por empresas estrangeiras.
Mas a bondade das gerações atuais para com o capitalismo estrangeiro não parou aí. Seguiu firme, promovendo uma segunda “abertura dos portos” – esta última, porém, de resultados calamitosos para um país que pretende se desenvolver.
Em verdade, o processo de desnacionalização da economia que se promoveu no nosso País, até onde pesquisei, não encontra paralelo no planeta! Nas últimas décadas, incríveis 60% das empresas brasileiras negociadas foram parar nas mãos de estrangeiros.
Da indústria alimentícia à mineração, da comunicação à siderurgia, dos transportes à energia, o que o Brasil possuía de melhor foi vendido a grupos estrangeiros. Seguiu-se, então, um brutal processo de desindustrialização. Um país não pode se desenvolver verdadeiramente sob tais condições.
Em verdade, vejo sustentando nossa aparente pujança o remeter para fora, a preços aviltantes, riquezas as mais preciosas que temos, a maioria delas de natureza não-renovável. A conta dessa cegueira já começará a ser paga pela próxima geração – no ritmo atual de extrativismo, que só aumenta a cada dia, daqui a 82 anos não teremos mais minério de ferro para exportar. Nosso níquel só durará mais 116 anos, o chumbo 96, o nióbio apenas mais 35 anos, o estanho 80, os diamantes 123 e o ouro míseros 43. Sim, o Brasil da Serra Pelada será importador de ouro daqui a mínimos 43 anos!
Dizem alguns que o Brasil cresceu nas últimas décadas. Fico a me perguntar, e vai aí uma grande pergunta, quem tem crescido verdadeiramente – se o Brasil, exportador cada vez maior de riquezas em sua maioria não-renováveis, ou se empresas aqui instaladas, com alguns poucos e tímidos reflexos positivos no nosso dia a dia e nas contas nacionais. Confesso não ter encontrado, ainda, resposta a esta pergunta...
PEDRO VALLS FEU ROSA é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo
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