Olhos no cerimonialista e na cadela Resistência
Cuidei de três posses de governador de estado (tão complicadas quanto as de presidente) e em todas contei com uma equipe de cerimonialistas experiente
Claudia Matarazzo
Desde o momento da eleição do presidente Lula até sua posse, as atenções da mídia, e do País, se concentram nesse momento, que marcará oficialmente a mudança de um governo para outro.
Ora, ao saber que a primeira-dama Janja se encarregaria da posse de Lula, ouriçaram-se prematuramente as críticas e especulações. Calma, gente.
Cuidei de três posses de governador de estado (tão complicadas quanto as de presidente) e em todas contei com uma equipe de cerimonialistas experiente sem a qual, por mais que me esforçasse, o desastre seria certo. Digo isso com muita convicção e para acalmar os ânimos dos que apostam na inexperiência de Janja e agouram catástrofes nessa data.
Ora, assessorando Janja para a dita posse existem em Brasília alguns dos melhores cerimonialistas do Brasil e, para quem não sabe direito o que faz esse profissional, anexo abaixo o texto do professor e cerimonialista Silvio Lobo, que define com precisão e poesia o nosso dia a dia.
“Quem é aquele a quem se curvam majestades, senhores de autoridade, para segredar-lhe ao ouvido? De que força se reveste esse desconhecido, discreto, recostado aos cantos, atendendo sem discussão a um curto aceno? Qual o mistério que envolve esse alguém, que autoridade não é, mas a ela orienta cumprimentos, expressões e procedimentos?
Quem é esse que com perspicácia administra gafes e descontrações, transforma simplicidade em formalidade, sem perder a importância e o respeito, cumpre e faz cumprir a hierarquia e antecipa detalhes para evitar o improviso?
Que extraordinária influência exerce esse profissional sobre os dirigentes do mundo para definir ordem de etiqueta, recepcionar e ser recepcionado, servir e ser servido, atender e ser atendido?
Como pode dominar quem, quando, onde e como convidar? Qual o papel a ser usado para convite, o tipo de letra, a estética, o conteúdo, a diagramação, a relação?
Esse, que tem sempre um sorriso nos lábios, alegria nos olhos, respostas rápidas e soluções precisas é o cerimonialista. Um misto de conselheiro e orientador, planejador e executor, codificador e normatizador, decorador e contrarregra.
Ele, que conhece a precedência e os símbolos do poder, as honrarias e privilégios, gestos e preceitos. Ele, que tem o dom de captar a cultura dos povos, de dignificar reverências e refinamentos, e que assinala sobretudo a convivência entre as pessoas.
Sim. É ele quem planeja, organiza, executa, avalia e, ao final, senta-se na última poltrona, sorrindo para si mesmo, no silêncio do salão, agora deserto, ouvindo o bater do próprio coração e o ressoar dos últimos passos da plateia, para dizer: “Obrigado, meu Deus, por ter-me permitido não falhar.”
Não temam: do ponto de vista do protocolo a posse está segura. Ainda que algumas gracinhas fora do mesmo aconteçam. No entanto, subir a rampa acompanhados da cadelinha Resistência é o tipo da licença que podemos - e devemos - a quem, pela terceira vez, conquista a Presidência pelo voto popular. E viva o cerimonialista!
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Claudia Matarazzo,por Claudia Matarazzo