Como arrancar a verdade
Como as entrevistas são preparadas? Como jornalista, sempre me fascinou o tema
Claudia Matarazzo
Como as entrevistas são preparadas? Como jornalista, sempre me fascinou o tema: de que maneira as perguntas (bem) feitas por um bom entrevistador podem mudar o rumo da resposta – e muitas vezes até do destino de um país.
Aos 23 anos, em meu primeiro emprego na Editora Abril, era colega de mesa do hoje escritor, então principal jornalista, Ruy Castro – encarregado das entrevistas “de peso” das páginas amarelas da revista Playboy.
Eram entrevistas longas, com quatro páginas duplas, que justificavam a compra da revista (que, no mais, até tratava de outros assuntos interessantes, porém completamente sexista). Hoje, uma publicação como essa seria inviável – mas isso é outra história.
Prepare bem o caminho – Super fã, admirava a forma como ele ligava pessoalmente e falava ao telefone (não existiam mensagens nem PCs) com as personalidades mais variadas: de políticos influentes a empresários vips ou cientista de vanguarda, Ruy tratava a todos com o perfeito equilíbrio de familiaridade, admiração e perplexa curiosidade.
E, claro, como a vaidade move o mundo juntamente com o dinheiro, todos concordavam em passar algum tempo com ele para falar ... deles próprios.
On the Road – Em uma inesquecível viagem, onde cabia a mim produzir uma matéria turística na ilha de Marajó, recebi um telefonema da editoria pedindo que, na volta, acompanhasse Ruy em uma entrevista onde também haveria fotos para produzir em Belém.
A entrevista foi na casa do dr. Elsimar Coutinho, médico especialista em novos métodos contraceptivos (eram novíssimos então) e reprodução humana.
Embasbacada, assisti a um Ruy relaxado na rede empunhar o gravador em direção ao doutor e, durante nada menos que três horas, arrancar dele as mais interessantes informações.
Foi revelador. Como ele conseguia aquilo? Desencanei de aprender, pois, na sequência daquela entrevista, começamos um intenso namoro que durou três anos – e até hoje, Ruy é, de longe, o autor cuja leitura me proporciona mais prazer, além de um querido amigo.
Recentemente, em sua coluna na Folha de São Paulo, lembrei-me daquela tarde ao ler seus conselhos para o sucesso de uma entrevista.
E reproduzo aqui pois, tantos anos depois, vejo muitos jovens (e veteranos) jornalistas se atrapalharem por muito pouco e desperdiçarem preciosas oportunidades. Abaixo, algumas dicas do mestre:
1. Cara neutra – O entrevistador não pode (nem deve) mostrar ameaça. Ao contrário...
2. Perguntas curtas e diretas que propiciem respostas igualmente curtas e diretas.
3. Saber escutar e ficar atento ao entrevistado enrolando, interrompê-lo com firmeza e dizer que ele não respondeu à pergunta.
4. Não avise a mudança de pauta, mude e pergunte naturalmente.
5. Uma pergunta por vez – Uma pergunta que se desdobra em várias, ou que tenha outras respostas, facilita a vida do entrevistado e lhe permite escolher qual vai responder.
O que isso tem a ver com comportamento? Tudo. Vale para qualquer conversa social, e fará o interlocutor se apaixonar por você. Ou, pelo menos, entrar na mesma sintonia.
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Claudia Matarazzo,por Claudia Matarazzo