search
Cookies não suportados!

Você está utilizando um navegador muito antigo ou suas configurações não permitem cookies de terceiros.


Assine agora e tenha acesso ao conteúdo exclusivo do Tribuna Online!

esqueceu a senha? Assinar agora
Cookies não suportados!

Você está utilizando um navegador muito antigo ou suas configurações não permitem cookies de terceiros.

Vida em seu sentido original
Martha Medeiros
Martha Medeiros

Martha Medeiros


Vida em seu sentido original

Não há como não se sentir angustiado assistindo a Você não estava aqui, filme de Ken Loach, o mesmo diretor do multipremiado Eu, Daniel Blake, que tratava sobre o isolamento de idosos que não conseguem se encaixar na sociedade informatizada.

Desta vez, Loach mostra as consequências da informalidade e do trabalho autônomo como única opção. Nada de férias remuneradas, seguro saúde, seguro-desemprego, aposentadoria. É pegar ou largar.

No filme, Ricky, 44 anos, é um ex-empregado da construção civil que passou a ser um faz-tudo depois da crise de 2008. Sem serviço, ele procura uma franquia de entregas, compra uma van com o resto das economias e vira motorista por conta própria, trabalhando seis dias por semana, de manhã à noite, cumprindo uma escala que não lhe dá tempo nem de ir ao banheiro.

Aos poucos percebe que o sonho de ser patrão de si mesmo é um engodo que o deixa cada dia mais miserável, e não só financeiramente.

A família inteira degringola. Sua esposa é uma cuidadora que também passa o dia fora, deslocando-se até seus pacientes sem vale transporte.

A filha de 11 anos chega da escola e, sozinha, prepara o próprio jantar. O filho de 15 mata aula para pichar muros, está cada dia mais calado e prestes a se meter em encrenca.

Como dar atenção às crianças estando ausente, mal conseguindo respirar para pagar as contas?

Através de gravações de áudio, na corrida entre uma tarefa e outra.

O que mais deprime é que o filme não parece ficção, e sim um documentário sobre a atualidade.

Empreender é uma opção quando se tem suporte, reservas, uma boa rede de contatos.

Para quem está sempre começando do zero, é uma ilusão. Você não pode adoecer. Não pode envelhecer. Não pode viver – só trabalhar.

Ao longo dos 100 minutos do filme, há uma única cena descontraída: pais e filhos cantam e dançam juntos, dentro da van, uma música alegre. Brevíssimos segundos em que a vida volta ao seu significado original.

Um pão quente saindo do forno. Flores frescas enfeitando a sala. Um casaco novo para o inverno.

Um encontro com uma amiga para um café e um papo. Tempo para ler um livro.

Um passeio até a beira do lago. Passar um batom para ficar mais bonita. Abrir uma cortina e deixar o sol entrar. Adotar um cão ou um gato.

Entrar numa banheira com água morna. Momentos agradáveis. A vida fluindo. Nada disso acontece quando a única missão é sobreviver.

Não há relaxamento ou prazer. Contam-se os centavos, reza-se por dias melhores e dorme-se.

Sexo? Um raro luxo para os menos exaustos.

Cinema é arte. Civiliza, humaniza e desperta nossas consciências, por isso é tão imprescindível.

Mesmo quando não se vê beleza nem luz entrando pelas frestas.
 

Conteúdo exclusivo para assinantes!

Assine agora e tenha acesso ao conteúdo exclusivo do Tribuna Online!

Matérias exclusivas, infográficos, colunas especiais e muito mais, produzido especialmente pra quem é assinante.

Apenas R$ 9,90/mês
Assinar agora
esqueceu a senha?

últimas dessa coluna


Exclusivo
Martha Medeiros

A terceira pessoa

Escrever ficção é sempre uma aventura pra mim. Acostumada a textos curtos e à prosa acelerada, a tarefa de mergulhar nas águas caudalosas de uma história longa é um desafio que exige tempo, foco e, …


Exclusivo
Martha Medeiros

Os padrões

Ela tem 26 anos, é formada em Direito e trabalha num importante escritório. Namora um engenheiro de 28, os pais de ambos são amigos e a festa de casamento já está sendo planejada pelas duas famílias. …


Exclusivo
Martha Medeiros

Assim como nós perdoamos

Você perdoaria uma traição amorosa? Perdoaria uma demissão injusta? Perdoaria um amigo que te insultou? Foram algumas das perguntas que me fizeram num recente programa que tinha o perdão como o tema. …


Exclusivo
Martha Medeiros

In natura

Fique em casa, fique em casa. Alguém acha que isso não interfere na nossa respiração? Tem muita gente sentindo falta de ar sem ter sido contaminada pela Covid. Eu mesma, outro dia, acordei no meio da …


Exclusivo
Martha Medeiros

Inalterável gerúndio

Saudades do particípio. De quando uma etapa era vencida. Uma crise, superada. A coisa acontecida. Agora é esta estrada que não acaba, este mistério que se alonga. Tudo se arrastando como um rio no …


Exclusivo
Martha Medeiros

Obrigada aos meus dias ruins

Se mordomia fosse mais importante para mim do que liberdade, teria morado na casa dos meus pais até casar. Se depois de 17 anos de casados, eu e meu marido não tivéssemos reavaliado nossa escolha e …


Exclusivo
Martha Medeiros

Sublinhados

Eu não parava de elogiar o livro. Afirmei que havia sido uma de minhas leituras mais desconcertantes, que vários trechos haviam mexido demais comigo, e minha amiga ali, de boca aberta, testemunhando …


Exclusivo
Martha Medeiros

E se não passar?

Estamos há quase quatro meses mergulhados numa pandemia que mudou nossos hábitos, nos impôs restrições, nos distanciou fisicamente e nos colocou frente a frente com nossas fragilidades. Vai ficar por …


Exclusivo
Martha Medeiros

Live

Tecnologia não é meu forte. Além da inaptidão, tem muita preguiça envolvida. Nada sei sobre cabos, operadoras e filtros. Nem mesmo sei de onde vem e quem paga a internet aqui de casa (desconfio que …


Exclusivo
Martha Medeiros

Levemente pirados

Continuamos dentro de nossas casas, vivendo entre quatro paredes – espaço que costuma ser amplo para alguns afortunados, porém exíguo para a maioria dos brasileiros e suas novas rotinas. Os que …


Olá, !

Esse é o seu primeiro acesso por aqui, então recomendamos que você altere o seu nome de usuário e senha, para sua maior segurança.



Manter dados