Tratamento pode reduzir em 83% progressão de câncer raro
Combinação de remédios aprovada pela Anvisa mostrou manter vivos 8 em cada 10 pacientes que têm mieloma múltiplo
Nícia Dalfre, de 67 anos, assistiu este mês a um show de Gilberto Gil. O passeio parecia impensável quando recebeu, em 2019, o diagnóstico de mieloma múltiplo, um câncer raro do sangue. Após sofrer a primeira recaída da doença, ela participou de um estudo clínico que testou uma nova combinação de medicamentos.
O tratamento ao qual Nícia Dalfre foi submetida apresentou um resultado animador: reduziu em 83% o risco de progressão da doença ou morte. No estudo, após três anos, 83,4% dos pacientes permaneciam vivos e sem progressão da doença, contra 29,7% no tratamento padrão.
Os resultados do estudo MajesTEC-3, que está na fase três, embasaram a aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de um tratamento a ser usado na primeira recaída da doença. O Brasil foi o segundo país do mundo a autorizar essa indicação.
Trata-se da combinação dos medicamentos Tecvayli (teclistamabe) com Dalinvi (daratumumabe). Segundo a hematologista Vânia Hungria, referência nacional na doença, os dois remédios ajudam o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células do mieloma.
Enquanto o daratumumabe modifica o ambiente ao redor do tumor, favorecendo a ação das células de defesa, o teclistamabe aproxima essas células do câncer para que ele seja destruído.
“O que significa a disponibilidade dessa terapia para os pacientes? Na primeira recaída, ele terá oportunidade de um tratamento com uma resposta profunda e duradoura. É um tratamento consolidado com resultado já comprovado”, diz.
Mas ela ressalta que o estudo aprovado tem três anos, então, ainda é preciso mais tempo para compreender “o que vai acontecer”.
Embora tenha sido aprovado pela Anvisa, o tratamento ainda não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).
Já nos planos de saúde, ele é obrigatório, explica Damila Trufelli, diretora de Assuntos Médicos e Regulatórios da Johnson & Johnson no Brasil. “Pela lei, qualquer medicamento oncológico que seja preciso de algum tipo de suporte médico ou uso hospitalar é aprovado reembolso obrigatório”.
Nícia já tinha escutado falar de câncer de sangue, mas nunca do mieloma múltiplo. Ela teve uma recaída dois anos depois do primeiro tratamento. Hoje, faz quatro anos que a doença não volta.
A repórter viajou a convite da Johnson & Johnson no Brasil.
Meta é alcançar a “cura funcional” até 2030
Diretora de Assuntos Médicos e Regulatórios da Johnson & Johnson no Brasil, Damila Trufelli explica que a farmacêutica tem o objetivo de curar pelo menos 50% dos pacientes até 2030. Ela explica que se trata de uma cura funcional.
“Quando falamos de cura, geralmente estamos querendo dizer não ter mais a doença de forma detectável e o paciente fora de tratamento”, explica.
Ela destaca que, apesar dos avanços no tratamento, o mieloma múltiplo ainda é considerado uma doença incurável.
“Não podemos dizer que temos hoje a cura. Os pacientes estão vivendo muito mais, mas seguem em tratamento. A cura funcional é independente do tratamento. É o paciente ter a vida normal, apesar da doença”, explica.
Damila considera que a aprovação do tratamento um “grande passo na evolução”. Um dos motivos para isso é o benefício que é trazido aos pacientes, descrito por ela como “nunca visto antes”.
Para Christine Battistini, presidente do International Myeloma Foundation Latin America, as imunoterapias que existem hoje permitem que os pacientes diagnosticados tenham qualidade de vida.
“Antes os pacientes morriam em dois anos. Hoje escuto eles falando de tudo que estão vivendo. É outro mundo”, acrescenta a hematologista Vânia Hungria, que cuida de pacientes há 42 anos.
“Eu tive muito medo de falar para as pessoas e para a família”
A engenheira Mônica Deganello, 58, também participou do estudo da Johnson & Johnson. Ela conta que teve medo de falar com a própria família quando foi diagnosticada com mieloma múltiplo em fevereiro de 2017.
“Eu tive muito medo de falar para as pessoas e para a minha família. Eu ficava pensando 'O que vai ser para a minha filha? E para os meus pais, que já têm certa idade? Para os meus irmãos que são muito próximos?'”, lembra.
Mônica conta que chegou até a questionar ao médico se podia fazer o tratamento sem contar para ninguém. “Ele me informou que não seria possível, que eu precisaria de apoio”.
Ela foi contando aos poucos e teve apoio da família e dos colegas de trabalho para enfrentar o diagnóstico.
Mônica ressalta que desde criança tinha uma anemia “pouco significativa”. De resto, se sentia bem. Foi sua ginecologista quem insistiu que procurasse um hematologista para investigar a causa.
“É um susto muito grande quando você descobre um câncer que não tem cura. Eu estava com 49 anos, a todo vapor na minha carreira e gosto muito de trabalhar. Foi um choque”, relembra.
No mesmo mês já começou a quimioterapia. Em julho, seu médico, considerando a doença agressiva, pediu que fizesse dois transplantes de medula para tentar aumentar o prazo de retorno da doença. “Voltou cerca de cinco anos depois. Em 2022 entrei no estudo e estou há quatro anos em remissão”.
Fique por dentro
Mieloma múltiplo
- É um tipo raro de câncer hematológico que faz com que os plasmócitos (células da medula óssea responsáveis por produzir anticorpos) se multipliquem de forma descontrolada e sem exercer sua função.
- Esse acúmulo prejudica a produção normal das outras células do sangue e compromete o sistema imunológico.
Sintomas
- Entre os mais comuns estão fraqueza, infecções persistentes, dores ou fraturas ósseas e insuficiência renal.
Sem cura
- Até o momento não há cura para o mieloma múltiplo. Mas existem diversos tratamentos que podem garantir uma vida ativa e livre de dores.
- Segundo a American Cancer Society divulgou no relatório anual “Cancer Statistics 2026”, a chance de um paciente estar vivo cinco anos após o diagnóstico subiu de 32% para 62%.
Tratamento
- Leva em conta critérios como idade, condição física e presença de comorbidades. O acompanhamento é contínuo, com exames regulares para ajustar a estratégia conforme a evolução da doença.
- Entre os tratamentos estão quimioterapia, corticoides e transplante autólogo de medula óssea.
- Também são feitos regimes de tratamento que combinam medicamentos com diferentes mecanismos de ação, como imunomoduladores e anticorpos monoclonais, visando maior eficácia.
Pacientes recaídos e refratários
- O mieloma múltiplo tem por característica reaparecer mesmo depois dos primeiros tratamentos.
- A recaída ocorre quando a doença volta após um período de controle ou remissão. Nesse caso, pode ter sintomas ou não, aparecendo a recaída apenas em exames. Já a refratariedade é quando a doença deixa de responder a um tratamento ou piora logo após seu início.
- Anticorpos bioespecíficos são uma opção nessa fase. Eles são projetados para se ligar a dois alvos ao mesmo tempo – uma proteína da célula do mieloma e uma célula T do sistema imunológico. Eles aproximam essas células e ativam a resposta imune contra o tumor, com alta precisão e menor dano às células saudáveis.
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