“Temos de nos perguntar: o que fazer para viver mais?”
Reflexão é do oncologista Carlos Barrios, referência em câncer de mama. Ele conta como lidar com os riscos de doenças
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O que podemos fazer para viver mais tempo?
É com essa pergunta que o médico oncologista e pesquisador Carlos Barrios, referência em tratamento e estudos sobre câncer de mama no País, provoca uma reflexão sobre como lidar com os riscos de doenças como o câncer e as cardiopatias.
“Temos de nos perguntar: o que fazer para viver mais? Então vamos identificar as causas mais importantes que eu consigo prevenir. Não ser obeso, fazer exercícios físicos, se alimentar bem e evitar fatores de risco”, citou.
A reportagem de A Tribuna participou no fim do mês passado, a convite da Novartis, da 16ª Edição do Câncer de Mama Gramado, e conversou com o especialista sobre saúde e o cenário da doença no País.
A Tribuna - Qual a importância da mudança do estilo de vida e de hábitos para a saúde ?
Carlos Barrios - Do que você acha que você vai morrer? De doença cardiovascular, que é a primeira causa de mortes hoje no mundo, ou da segunda causa que é o câncer?
Metade das pessoas no mundo morre dessas causas. Então a pergunta é: o que podemos fazer para viver mais tempo?
Temos, então, de identificar as causas mais importantes que eu consigo prevenir. São elas: não ser obeso, fazer exercícios, se alimentar bem e evitar fatores de risco.
Não podemos mudar nossa genética. Homem, por exemplo, tem mais infarto que mulher.
Temos de nos concentrar no que podemos mudar, identificar fatores de risco e, neste cenário, tomar atitudes, decisões e mudar hábitos que eventualmente levem a um possível resultado.
Do ponto de vista prático, é um exercício de autoanálise.
A maior parte das pessoas lida com isso com negação. Pensam: “Isso não vai acontecer comigo, não vou me preocupar”. Lida com o risco como se ele não fosse acontecer.
É algo complexo e que exige diagnóstico, para lidar com esse cenário e usar estratégias para mudar o comportamento da população.
> O mês de conscientização sobre o câncer de mama, o Outubro Rosa, está se aproximando e hoje este é o câncer que mais mata. Considerando que o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura, a partir de qual idade o senhor recomenda fazer exames como a mamografia?
É fundamental reconhecer duas dimensões. Uma delas é a recomendação feita para toda a sociedade, todo o País, mas que às vezes não se aplica a todos.
Essa tende a ser feita independentemente de características pessoais e individuais, que em alguns casos mudam a regra.
Toda mulher com mais de 40 anos tem de fazer mamografia a cada dois anos. Depois dos 50 anos, oriento a cada ano. São recomendações internacionais com dados da literatura.
Estenderia a recomendação de se fazer a mamografia até os 80, e não 70 como é hoje, porque as pessoas estão vivendo mais. Isso com certeza ajudaria a diminuir a mortalidade do câncer de mama.
O outro cenário é: se eu tenho uma mulher com a irmã ou a mãe com histórico de câncer, essa primeira dimensão não se aplica. Para essas, eu indico a partir dos 30 anos.
A ecografia é recomendada nesse tipo de caso, pois a mamografia nesta faixa de idade é mais difícil de ser interpretada.
Quando existe uma história familiar é recomendado começar pelo menos 10 anos antes da idade do membro da família que teve o câncer ou no máximo depois dos 40. São questões individualizadas.
> O senhor recomenda o teste genético para identificar risco de câncer? Começando a testar por quem?
A recomendação inicial é testar as pacientes com maior chance de serem positivas. Então vamos testar as que já tiveram o câncer de mama.
É importante porque muda o tratamento desse tumor e também mostra o que essas pacientes podem esperar de um outro câncer. E eventualmente muda o comportamento do resto da família.
A cada paciente diagnosticada, encontram-se quatro membros positivos na família que ainda não tiveram câncer.
A alternativa seria testar todas as outras, mas o teste é muito caro. Se custasse o valor de uma aspirina, eu indicaria tranquilamente que todas as mulheres deveriam fazer.
Existem desafios sociais neste sentido. Uma sociedade tem reação diferente da outra, de como lidar com o “saber das chances”.
Mas temos de avaliar também as consequências de ter o diagnóstico da predisposição ao câncer, que não é ter a doença.
Nos casos positivos, há um risco significativo e não a doença em si. Mulheres com essa predisposição tem um risco de, aos 50 anos, 50% de chances de diagnóstico, e aos 70 anos, 70%.
Temos então que 30% das pacientes com predisposição indicada pelo exame genético não vão ter câncer.
O teste não está disponível no SUS, nos planos deveriam estar.
Outro ponto é a qualidade do teste, que é um problema, porque pode gerar uma falsa tranquilidade no caso de resultado negativo. Mas o exame teve todo o gene explorado? Ou só partes?
> Até 2030 o câncer será a principal causa de mortes no Brasil, segundo estudos. O que devemos esperar do cenário da doença?
Temos muitos pacientes com câncer que se curam, se diagnosticados cedo. O que precisamos agora é identificar fatores de risco e lidar com essa realidade. Essa é a problemática dos próximos 30 anos.
Depois disso já vamos viver, até os 95 anos, em média, e o problema vai ser o Alzheimer.
Há 20 anos eram as doenças do coração. Agora, a mortalidade em decorrência de problemas no coração está caindo e a de câncer subindo cada vez mais.
Antes ainda a problemática eram as infecções. As pessoas morriam aos 40 anos porque não tinham antibióticos. E assim vai...
Temos de reconhecer que não tem como fugir. Temos de enfrentar e lidar.
> Os novos tratamentos ajudam neste contexto?
Ajudam muito! Vou dar um exemplo. No ano 2000, o Imatinibe foi o primeiro remédio dirigido para um alvo molecular específico e curou a Leucemia Mieloide Crônica.
Eu tinha um paciente com a doença. Ele era ativo, profissional de educação física e fez tratamento ao longo de 5 anos. Mas a doença começou a evoluir.
Em seis meses o remédio apareceu no Brasil, não aprovado, mas dentro de uma pesquisa, e ele teve acesso ao tratamento e ficou curado.
O que quero mostrar é que os avanços estão acontecendo e alguns deles causam um impacto muito grande.
QUEM É?
> Carlos Barrios é médico oncologista com atuação voltada ao câncer de mama e pesquisa clínica.
> Diretor e pesquisador principal do Centro de Pesquisa em Oncologia Hospital São Lucas da PUC-RS.
> Diretor do Grupo Latino Americano de Investigação Clínica em Oncologia (LACOG).
> Médico e coordenador de Pesquisa Clínica do Grupo Oncoclínicas.
> Já participou de mais de 300 projetos de Pesquisa Clínica nacionais e internacionais.
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