Perigo nos consultórios: Mentiras de pacientes colocam a vida em risco
Uso de anabolizantes e de canetas para emagrecimento estão entre as mais comuns, afirmam especialistas ouvidos por A Tribuna
Medo de levar uma bronca ou vergonha ainda levam muitos pacientes a esconder informações no consultório. O problema é que essas “mentirinhas” podem comprometer diagnósticos e até colocar a vida em risco, alertam médicos ouvidos por A Tribuna. Uso de anabolizantes e canetas para emagrecimento estão entre as mentiras mais comuns.
E mentir para os médicos é mais comum do que se imagina. Segundo estudo do Jama Network Open (2018), entre 60% e 80% dos pacientes já omitiram dados de saúde por receio de julgamento.
Entre os casos mencionados está de uma paciente jovem, atendida pela ginecologista e obstetra Georgia Brito em um pronto-socorro. Segundo a médica, a paciente, aparentemente saudável, foi ao médico por dor abdominal intensa e sangramento uterino anormal.
“Durante a consulta inicial, ela negou uso de medicações contínuas, anticoncepcionais ou hormônios. Após piora do quadro e necessidade de internação, exames mostraram alterações importantes da função hepática e sinais de distúrbio de coagulação”.
Diante da gravidade, a equipe insistiu novamente com a paciente, que revelou o uso recente de anabolizantes, indicados informalmente para ganho de massa muscular, associados a hormônios para “definição corporal”.
“A combinação hormonal havia desencadeado um quadro de distúrbio da coagulação e disfunção hepática, colocando a paciente em risco real de trombose e sangramento grave”.
“Felizmente foi possível evitar uma complicação mais grave. Mas a omissão quase custou a vida dela”, destacou Georgia.
Cirurgia
Já outra paciente, atendida pela ginecologista Thaissa Tinoco, estava na mesa de cirurgia para realizar uma histeroscopia (exame ginecológico com sedação), quando revelou fazer uso de Mounjaro.
“Durante o preparatório para a cirurgia perguntei se ela fazia uso de alguma medicação, assim como na hora da cirurgia, mas ela negou. Mas o anestesista foi enfático e ela revelou. Tivemos de suspender a cirurgia. Com essa medicação, a comida fica mais tempo no estômago, mesmo depois de jejuns prolongados”.
O risco, segundo Thaissa, está na anestesia: restos de alimento no estômago podem refluir e atingir pulmões e vias aéreas, causando broncoaspiração, pneumonia grave, insuficiência respiratória e até morte.
Médicas revelam mentiras
“Negou usar anabolizante”
Casos graves pelo uso de anabolizantes também já foram vistos pela endocrinologista Sabrina França. Segundo a médica, um episódio envolvendo um colega cardiologista chamou a atenção por se tratar do uso dessas substâncias com fins estéticos.
“Um paciente de quase 60 anos, sem perfil 'bombado', foi fazer consulta de rotina. O cardiologista viu uma alteração importante e pediu um ecocardiograma”, contou.
“Na hora do exame, a médica encontrou uma insuficiência cardíaca e questionou se ele já tinha usado a testosterona como anabolizante, mas ele negou. A médica conversou com o cardiologista, que questionou o paciente. O homem confessou que há três meses estava usando o produto para fins estéticos”.
Mesmo sem sintomas, o paciente foi proibido de praticar atividade física e precisou iniciar medicação, devido ao risco de morte súbita.
“Uso errado de remédio”
A pneumopediatra Sabrina Fonseca relata o caso de uma criança com asma, doença crônica que exige uso diário de medicação para controle. Mesmo após ajustes sucessivos, aumento de doses e associação de outros remédios, o paciente seguia sem controle, chegando à indicação de um imunobiológico de alto custo.
Em consulta, em que a médica questionou de forma mais rigorosa sobre o uso regular das medicações, a mãe, vendo o risco ao qual estava expondo o filho, confessou que não administrava corretamente a medicação inalatória, por acreditar que a “bombinha” fazia mais mal do que a doença, mesmo a médica já tendo explicado sobre o medicamento”.
“Escondendo HIV”
A pneumologista e médica do sono Roberta Couto relata o caso de um paciente que atendeu há anos atrás. Ele apresentava pneumonia grave e evolução atípica, que não respondia ao tratamento.
Perguntado se apresentava algum quadro infeccioso, o paciente negou. Após internação em UTI, a esposa revelou que tinha HIV, o marido também suspeitava ter HIV, mas negava a condição e nunca havia feito o teste. Na UTI ele fez o teste. Com o diagnóstico confirmado, o tratamento adequado foi iniciado e o paciente, hoje, se encontra bem e feliz.
“Complicações graves”
Um homem, que iniciou tratamento de quimioterapia, teve uma hepatite medicamentosa por fazer uso de anabolizante. A oncologista Juliana Alvarenga, que acompanhou o caso, relatou que perguntou ao paciente, antes de iniciar o tratamento, se ele havia feito uso de alguma substância, mas ele negou.
Quando percebeu a gravidade da situação, o homem confessou o uso de anabolizante dias antes de começar a quimioterapia. “Se ele tivesse falado, teríamos feito um ajuste de tratamento”, afirmou ela.
A especialista reforça que dizer a verdade é essencial para garantir segurança, eficácia do tratamento e evitar complicações graves.
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