Mulheres têm maior risco genético para depressão
Estudo australiano aponta que o sexo feminino carrega carga genética mais elevada para a doença
Dupla jornada de trabalho, maternidade, oscilações hormonais, pressão social e estética. São diversos os motivos que levam as mulheres a terem uma sobrecarga mental.
Somente no Espírito Santo, 260 mil mulheres têm depressão, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Uma metanálise demonstrou que as mulheres carregam uma carga genética mais elevada para o Transtorno Depressivo Maior (TDM) do que homens.
Um estudo, que analisou as diferenças genéticas da depressão entre os sexos, foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, e publicada em agosto de 2025 na Nature Communications.
O universo analisado incluiu 130.471 casos em mulheres e 64.805 em homens.
A pesquisa reforça ainda que, além da maior prevalência, as mulheres tendem a apresentar sintomas como ganho de peso, aumento do apetite e hipersonia, enquanto os homens mostram mais frequentemente irritabilidade, agressividade, comportamentos de risco e uso de substâncias.
A psiquiatra Letícia Mameri-Trés alerta que em períodos como a adolescência há aumento significativo de casos de depressão. Assim como em períodos de transição, como gravidez, pós-parto e menopausa, que são momentos-chave para triagem.
Para a psiquiatra Mariana Herkenhoff, mulheres com histórico familiar de depressão devem estar atentas aos sinais precoces da doença e buscar tratamento e avaliação.
“No futuro, a identificação de variantes genéticas por sexo pode ajudar no desenvolvimento de estratégias mais personalizadas. Vale ressaltar que o fator genético é apenas um componente. A depressão é uma doença grave de causa multifatorial, que deve ser diagnosticada e tratada”.
Algumas atitudes ajudam bastante na prevenção, de acordo com a psiquiatra Francislainy Dal’Col.
“Cuidar da saúde mental é fundamental: praticar atividade física regularmente, buscar apoio de amigos e familiares, reduzir o estresse, reservar momentos de autocuidado e procurar ajuda profissional, quando necessário”.
Segundo a psiquiatra, técnicas como meditação e mindfulness têm mostrado bons resultados, especialmente em mulheres na menopausa ou em momentos de maior estresse.
“Informação e atenção aos próprios sentimentos também fazem diferença”.
Gatilhos
Tratamento
Aos 21 anos, uma publicitária moradora da Serra, que preferiu não se identificar, começou a apresentar os primeiros sinais de ansiedade. O gatilho para as crises era a faculdade.
“Tinha as dificuldades da faculdade. Outro gatilho era eu ser filha única. Meus pais nunca me ensinaram a andar sozinha. Eles me protegiam muito e isso também me causava ansiedade”.
A jovem, então, buscou ajuda de uma psicóloga, mas precisou de acompanhamento com um psiquiatra. “Depois de um tempo de conversa, a psicóloga percebeu que eu me frustrava e me isolava muito. Ela achou que eu poderia estar com início de depressão, por criar muitas expectativas, me cobrar muito e acabar me frustrando”.
O psiquiatra medicou a jovem, que hoje tem 25 anos e segue em tratamento. “Atualmente me encontro medicada. A terapia eu parei por questões financeiras, mas eu consegui aprender a me conhecer e sei quando vou ter uma crise”, relatou.
Fique por dentro
Diferenças genéticas entre mulheres e homens
Um estudo da Universidade de Queensland, na Austrália, publicado em agosto de 2025 na revista Nature Communications, mostrou que as mulheres carregam uma carga genética maior para o Transtorno Depressivo maior do que os homens.
A metanálise analisou mais de 195 mil casos e identificou 16 variantes genéticas com significância em mulheres, contra oito em homens.
A pesquisa também identificou, pela primeira vez, uma variante genética associada à depressão exclusivamente em homens, localizada no cromossomo X, fornecido pela mulher no momento da concepção.
Apesar da ampla sobreposição genética entre os sexos, os dados indicam maior risco genético feminino, possivelmente relacionado a variantes específicas das mulheres.
Prevalência
A pesquisa reforça que as mulheres têm quase o dobro de probabilidade de desenvolver depressão ao longo da vida, diferença que começa na puberdade e se mantém na idade adulta.
Diferenças nos sintomas
Além da maior prevalência, mulheres costumam apresentar sintomas como ganho de peso, aumento do apetite e hipersonia. Já os homens tendem a manifestar mais irritabilidade, agressividade, comportamentos de risco e maior uso de substâncias.
Fases com maior vulnerabilidade
Existem períodos, segundo a psiquiatra Francislainy Dal’Col, em que o risco de depressão nas mulheres aumenta devido às mudanças hormonais, como na adolescência com a primeira menstruação, na fase pré-menstrual, durante a gravidez, no pós-parto, na perimenopausa e na menopausa.
Mulheres que já tiveram episódios prévios de depressão apresentam risco ainda maior nessas fases, especialmente após o parto e na transição para a menopausa.
Fatores além da genética
Embora a genética tenha papel importante, ela não determina sozinha o desenvolvimento da doença, destaca a psiquiatra Mariana Herkenhoff. Experiências de violência, sobrecarga de trabalho e tarefas, fatores ambientais e condições metabólicas, como obesidade e doenças autoimunes, também aumentam a vulnerabilidade.
Prevenção
A prevenção da depressão envolve, aponta a psiquiatra Letícia Mameri-Trés, cuidar da saúde mental desde cedo, manter redes de apoio, manutenção de um estilo de vida equilibrado com atividade física, boa alimentação e sono adequado, além do manejo do estresse com técnicas como meditação ou terapia.
Envolve ainda o acompanhamento profissional, sobretudo em fases como gravidez, pós-parto e menopausa, para reduzir os riscos.
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