Mosquitos aprendem a “gostar” de repelente. Entenda
Experimento apontou que fêmeas do Aedes aegypti desenvolveram uma preferência pelo sangue de vítimas que usaram o produto
Em um experimento, fêmeas do Aedes aegypti aprenderam a aceitar um repelente químico e desenvolveram uma preferência pelo sangue de vítimas que usaram o produto. O estudo, conduzido por pesquisadores da universidade francesa de Tours e da americana Virginia Tech, saiu no fim do mês passado na revista Journal of Experimental Biology.
No teste, 6 em cada 10 fêmeas treinadas previamente mostraram resposta de tentativa de mordida nas mãos dos pesquisadores cobertas de repelente à base de DEET (N-dimetil-meta-toluamida ou N,N-dietil-3-metilbenzamida). Isso indica um processo de aprendizado que tornou a substância apetitosa, em vez de repulsiva.
O entomólogo Claudio Lazzari, professor da universidade francesa e pesquisador visitante da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de 2013 a 2015, liderou o experimento.
Ele destacou que, do ponto de vista prático, o DEET continua sendo o repelente padrão-ouro. Com isso, os achados não devem ser interpretados como um salvo-conduto para abandonar medidas de proteção individuais, sobretudo em áreas de alta circulação de doenças transmitidas por mosquitos. O Aedes aegypti é transmissor de doenças como febre amarela, dengue e chikungunya.
Além disso, o estudo ocorreu em condições controladas de laboratório e não sugere que mosquitos selvagens estejam adquirindo resistência ao DEET no ambiente real.
Padrão-ouro
O DEET é o principal composto utilizado em repelentes ao redor do mundo. Desenvolvido na década de 1940, é considerado o padrão-ouro de proteção individual contra mosquitos.
Embora seu mecanismo de ação ainda seja debatido, ele atua como um repelente químico. O DEET evapora após um tempo de exposição, produzindo um ar potencialmente tóxico para os pernilongos.
Para testar se o DEET era um composto repelido de maneira inata pelos pernilongos, Lazzari e equipe forneceram a um grupo de fêmeas de Aedes pequenas quantidades de sangue enquanto eram expostas ao composto químico. Outro grupo foi apresentado a uma solução açucarada.
Depois, os animais eram expostos novamente ao repelente, dessa vez na mão de um pesquisador. As fêmeas treinadas anteriormente com o sangue repleto de DEET passaram a preferir a mão humana com o composto — o contrário das fêmeas do mosquito sem treinamento.
Os resultados sugerem que a resposta ao repelente talvez não dependa apenas da interação química entre a molécula e os receptores sensoriais do inseto, mas também da experiência acumulada pelo animal. Ou seja, o significado biológico daquele odor pode mudar.
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