Filhos de pais divorciados têm 41% mais chance de depressão
Estudo internacional considerou também fatores relacionados ao ambiente familiar, incluindo histórico de doença mental
Um estudo publicado na revista Psychiatry Research voltou a colocar em discussão uma questão delicada para as famílias: filhos de pais divorciados têm 41% mais chance de receber o diagnóstico de depressão. O número, porém, precisa ser interpretado com cuidado, explicam especialistas.
Além do divórcio, a pesquisa considerou fatores relacionados ao ambiente familiar, incluindo histórico de doença mental e uso de substâncias pelos pais. Quando a presença de doença mental dos pais foi considerada na análise, a associação entre o divórcio parental e a depressão na vida adulta foi reduzida em 68%.
A relação também foi atenuada quando outros fatores relacionados a adversidades na infância foram considerados.
Para o psicoterapeuta Bernardo Carielo, os resultados não permitem afirmar que o divórcio seja responsável pelo desenvolvimento da depressão. “A gente encontrou um dado de que, de fato, pessoas que passaram pelo divórcio dos pais apresentam mais depressão. Significa que uma coisa causa a outra? Não significa. É diferente de correlação para causalidade”, explica.
Segundo Carielo, mais importante do que a separação em si é a maneira como a criança vivencia o processo e as relações familiares antes, durante e depois do divórcio. “A maneira como cada pessoa vivencia um divórcio, que é um evento que vai marcar muita coisa na vida, é mais importante do que o evento em si”, afirma.
A médica psiquiatra Sarha Andrade analisa que, quando esse estresse é intenso e prolongado, molda o cérebro em desenvolvimento, sobretudo os sistemas de resposta ao estresse e de regulação emocional.
“Na vida adulta, isso significa maior vulnerabilidade à depressão”, afirma. Segundo ela, as adversidades podem se acumular ao longo da infância. “Muitas vezes a separação é consequência de um lar já adoecido”, explica.
Para o psiquiatra Valber Dias Pinto, é preciso considerar não apenas a separação, mas também o contexto familiar que a antecede e as mudanças provocadas pelo processo.
“Mais do que o divórcio em si, a associação mais importante para a saúde mental dos filhos é o estado de saúde mental dos pais”, afirma. Segundo ele, porém, a separação não determina que a criança terá problemas de saúde mental.
Uma rede de apoio formada por familiares e a redução dos conflitos podem contribuir para uma adaptação mais saudável após o divórcio.
O estudo
Publicado na revista Psychiatry Research, o trabalho foi feito por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos e do Canadá e utilizou dados do levantamento nacional Behavioral Risk Factor Surveillance System (BRFSS), coletados entre 2021 e 2024.
O que foi analisado
Os pesquisadores compararam adultos que tiveram pais divorciados durante a infância com aqueles cujos pais permaneceram casados.
Também foram considerados adultos cujos pais nunca se casaram.
Além da depressão
Filhos adultos de pais divorciados e não casados apresentaram probabilidade significativamente maior de relatar sofrimento mental frequente no último mês (13,6% e 16,3%, respectivamente) em comparação com aqueles cujos pais permaneceram casados (8,5%).
O mesmo ocorreu com o diagnóstico de depressão em algum momento da vida: 19,2% e 18,7%, contra 14,1% do grupo de pais casados.
O ajuste para doença mental parental atenuou a associação entre divórcio dos pais e depressão na vida adulta em 68% e entre pais não casados e depressão na vida adulta em 52%.
Um dado importante
Cerca de um quarto dos participantes havia passado pelo divórcio dos pais antes dos 18 anos.
Pessoas que relataram abuso físico ou sexual na infância foram excluídas da análise.
Conclusão
Os autores apontam que problemas de saúde mental dos pais e outras adversidades da infância ajudam a explicar a associação encontrada. Por isso, os resultados não permitem concluir que o divórcio, isoladamente, seja responsável pela depressão na vida adulta.
Fonte: Especialistas consultados e pesquisa AT.
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