Demora em diagnóstico de dor crônica pode chegar a 10 anos
Especialistas falam sobre dificuldades em diagnósticos e novas opções para tratamentos
Quem sofre com dores crônicas pode passar anos convivendo com o sofrimento sem receber um diagnóstico sobre o que está por trás dos sintomas. Dependendo da doença, a identificação da causa pode levar até 10 anos, segundo especialistas.
“O diagnóstico costuma demorar entre cinco e 10 anos em muitas doenças dolorosas crônicas, podendo ser ainda maior em casos específicos”, ressalta o médico especialista em dor crônica André Félix.
“Estudos populacionais mostram, por exemplo, atraso médio de seis a sete anos para fibromialgia e de seis a 10 anos para endometriose, chegando a 27 anos em casos extremos relatados internacionalmente”, aponta o médico.
Esse atraso, de acordo com André, ocorre por uma combinação de fatores. “Historicamente, a formação médica teve pouca carga horária dedicada especificamente à medicina da dor”.
Outro ponto citado pelo médico é que muitas dessas doenças envolvem alterações funcionais do sistema nervoso que não aparecem em exames tradicionais. “O paciente frequentemente passa por múltiplos especialistas sem uma visão integrada do caso, o que prolonga o processo diagnóstico”.
O neurologista, anestesiologista e especialista em dor crônica Ramon D'Angelo Dias avalia ainda a complexidade na avaliação das dores crônicas.
“Essas dores não aparecem nos exames convencionais, como ressonância, tomografia, raio-X ou ultrassom. Esses exames mostram alterações estruturais, mas não mostram as dores. E isso gera uma frustração para o profissional e, principalmente, para o próprio paciente.”
A dificuldade de identificação, muitas vezes, leva os pacientes a cometerem erros, como procurarem tratamento sem indicação médica. “O uso prolongado de medicamentos, como anti-inflamatórios, podem determinar sangramentos, úlceras gástricas, piora da função renal ou problemas cardiovasculares”, alerta Ramon.
Um outro erro é o repouso excessivo. “Quando o paciente não é tratado ele pode ter uma cinesiofobia, medo do movimento. Ou seja, quando ele negligencia a sua dor, ele começa a ter outros agravantes tanto na intensidade quanto na perpetuação dessas dores”, explica o neurologista.
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Novas opções para tratamentos
Condições antes tratadas apenas com analgésicos hoje contam com recursos mais precisos para controlar a dor e devolver autonomia aos pacientes.
Para quem convive com dores provocadas pela neuralgia do trigêmeo, por exemplo, os avanços no tratamento têm ampliado as possibilidades de alívio.
Segundo o anestesiologista e acupunturiatra Alberto Barbosa, entre as opções estão bloqueios do nervo com anestésicos, técnicas de radiofrequência, que ajudam a modular a condução da dor, e procedimentos mais modernos, como compressão por balão e radiocirurgia. “São alternativas menos invasivas e que podem proporcionar alívio significativo”, destaca.
Outra tecnologia disponível é a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), considerada padrão-ouro para dor neuropática, segundo o neurocirurgião Lúcio Hott. O tratamento utiliza ondas magnéticas para reorganizar a atividade cerebral. Uma das versões mais modernas é o Exomind, que, segundo o médico, faz um mapeamento preciso do cérebro para estimular áreas ligadas à percepção da dor.
Na fibromialgia, o tratamento deixou de ser centrado apenas em medicamentos, explica André Félix, médico especialista em dor crônica. “Os melhores resultados surgem da combinação entre educação em dor, atividade física, reabilitação funcional, melhora do sono, manejo emocional, nutrição e técnicas de neuromodulação”.
O neurologista, anestesiologista e especialista em dor crônica Ramon D'Angelo Dias destaca ainda a medicina regenerativa, com os ortobiológicos, como o plasma rico em plaquetas (PRP) e células-tronco mesenquimais derivadas da punção de medula óssea, com alto poder de regenerar tecidos, sejam eles tendões, articulações ou cartilagens.
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