Cirurgias sem cortes mudam tratamento de doenças graves
Técnica usa agulhas e cateteres orientados por imagens para tratar condições benignas, miomas e até tumores no fígado e pulmões
Em menos de um ano, o aposentado Izaías Vieira de Souza enfrentou dois diagnósticos de câncer. Depois de passar por uma cirurgia no estômago, ainda precisava tratar um tumor no rim direito.
Aos 63 anos, retirar o órgão ou enfrentar uma cirurgia convencional poderia comprometer sua função renal e levá-lo à hemodiálise. O que mudou sua história foi uma cirurgia sem cortes, realizada por meio de um pequeno furo na pele, com uso de cateter. Guiados por exames de imagem, os médicos congelaram o tumor sem abrir o abdômen nem remover o rim.
O aposentado, que passou pelo procedimento em 2015, tornou-se o primeiro paciente do Espírito Santo a ser submetido à crioablação renal, procedimento minimamente invasivo realizado por radiologia intervencionista.
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Na época, a técnica ainda não era coberta pelo plano de saúde do aposentado. Foi preciso recorrer à Justiça para garantir o tratamento no Hospital Santa Rita, em Vitória.
Hoje, aos 75 anos, ele resume o resultado em poucas palavras: “Saí do hospital apenas com um band-aid. Estou mil por cento”.
Em vez de cortes profundos e cirurgias abertas, a radiologia intervencionista utiliza agulhas e cateteres com orientação precisa por imagens, por meio de uma única punção, permitindo tratar desde condições benignas até tumores no fígado, rins, tireoide e pulmões, além de miomas uterinos e próstatas aumentadas.
Segundo o médico radiologista intervencionista Luiz Sérgio Pereira Grillo Júnior, diretor do Departamento de Intervenção Percutânea da Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular (Sobrice), entre as principais vantagens da técnica está a alta rápida do paciente, além de ele sair andando no mesmo dia, sem as semanas de recuperação que a cirurgia tradicional exige.
“É uma especialidade relativamente jovem no Brasil, com cerca de 29 anos”, destaca Luiz Sérgio, que também é supervisor médico do Serviço de Apoio Diagnóstico e Terapêutico (SADT) do Hospital Unimed Vitória e ainda atua nos hospitais Santa Rita, Rede Kora, Vitória Apart Hospital e Hospital Unimed Sul Capixaba.
“Inicialmente, o alto nível de tecnologia empregado — tanto nos aparelhos de imagem quanto no instrumental — trazia um custo elevado para os sistemas de saúde. Porém, hoje vivemos um momento de expansão gradual da especialidade, tanto no SUS quanto na rede privada e de convênios”, completa.
Técnica ajuda a tratar metástases
Além de permitir biópsias e tratar tumores primários, a radiologia intervencionista tem ampliado as possibilidades de tratamento para pacientes com metástases, oferecendo alternativas menos invasivas.
De acordo com o oncologista Lourenço Cezana, do Hospital Santa Rita, um dos exemplos mais frequentes é o paciente com câncer de intestino que desenvolve uma ou duas metástases no fígado ou no pulmão. “Em situações selecionadas, essas lesões podem ser tratadas por técnicas ablativas, sempre após avaliação de uma equipe multidisciplinar”, explica.
A técnica utiliza calor ou frio para destruir o tumor, preservando a maior parte do órgão saudável. “Para alguns pacientes, esses tratamentos oferecem resultados semelhantes aos da cirurgia, com a vantagem de serem menos invasivos e proporcionarem uma recuperação mais rápida”.
O procedimento também auxilia no diagnóstico, segundo o médico, já que muitas vezes, quando é encontrado um nódulo em um órgão, é necessário retirar um pequeno fragmento desse tecido para descobrir exatamente do que se trata.
“Em vez de uma cirurgia, isso pode ser feito com agulhas guiadas por exames de imagem, como a tomografia ou o ultrassom, tornando o procedimento mais seguro e menos invasivo”, destacou.
Saiba mais
Medicina guiada por imagens
A radiologia intervencionista utiliza recursos de imagem como radiografia para diagnosticar e tratar doenças sem grandes incisões. Com a técnica não há necessidade de cortes ou câmeras de videocirurgia.
Utiliza agulhas e cateteres com orientação precisa por imagens, proporciona procedimentos mais seguros, menos dolorosos e com rápida recuperação.
Pode ser usada para tratar condições benignas e malignas em órgãos como fígado, rins, próstata, útero, pâncreas, pulmões, ossos, músculos e tireoide.
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