Cirurgia inédita para doença do coração que atinge 206 mil no ES
Marcus Taveira, que tem um problema que causa arritmia grave, recebeu marcapasso sem fio mesmo já tendo cardiodesfibrilador
Pela primeira vez no Espírito Santo, um paciente com arritmia — condição que atinge cerca de 206 mil pessoas no ES, segundo estimativas — recebeu o implante de um marcapasso sem fio (leadless) mesmo já sendo portador de um cardiodesfibrilador subcutâneo.
O procedimento inédito em território capixaba marca um avanço ao reunir, em um único paciente, dois dispositivos cardíacos de alta tecnologia.
O cardiodesfibrilador subcutâneo (que monitora o ritmo do coração e aplica choques elétricos automáticos em casos de arritmias aceleradas potencialmente fatais) e o marcapasso sem fio (usado para tratar a bradicardia, em que o ritmo do coração fica irregular e lento) foram implantados no bancário Marcus Jesus Taveira, de 63 anos.
Ele tem cardiomiopatia hipertrófica em estágio avançado, condição associada a alto risco de arritmias graves e morte súbita. Por conta da doença, Marcus desenvolveu tanto a arritmia que deixa o coração acelerado quanto a que faz o coração bater mais lento, necessitando de diferentes tratamentos.
A cirurgia foi realizada no último sábado, no Hospital Vitória Apart, na Serra.
O cardiologista e eletrofisiologista Ricardo Kuniyoshi, responsável pelo procedimento, explicou que uma a cada 500 pessoas tem a cardiomiopatia hipertrófica, doença hereditária que pode permanecer silenciosa por anos e se manifestar apenas na vida adulta. Porém, um percentual pequeno evolui de forma mais grave.
“A doença ocasiona uma hipertrofia anormal do músculo do coração e também faz com que a fibra muscular se torne fibrosada. Essa fibrose tanto predispõe à arritmia muito acelerada, que pode causar morte súbita, quanto acomete o sistema elétrico do coração, fazendo-o parar não por aceleração, mas por parada”.
O paciente já havia usado um dispositivo convencional com fios por cerca de cinco anos e desenvolveu uma infecção grave, que se iniciou na perna, levando a bactéria a se alojar no marcapasso.
Por isso, foi indicado o uso de tecnologias sem fio.
O marcapasso sem fio — um dispositivo de apenas 2,5 centímetros e cerca de 2 gramas, implantado por cateter, pela virilha - foi associado ao cardiodesfibrilador subcutâneo, que fica implantado sob a pele, mas fora do coração. “São duas tecnologias que, hoje, possibilitam tratar pacientes que raramente a gente encontra, mas quando encontrávamos não tínhamos solução”.
“Agora quero ter uma nova vida”
Foi aos 19 anos que o bancário Marcus Jesus Taveira, 63 anos, descobriu ser portador cardiomiopatia hipertrófica. Mas, há cinco anos, ele passou a sentir de forma intensa o impacto da doença em sua vida.
No final de 2024, por conta de uma infecção generalizada grave, ele precisou retirar o aparelho anterior – com função dupla de marcapasso e cardiodesfibrilador – que tinha implantado. No fim de janeiro deste ano recebeu um novo dispositivo de alta tecnologia sem fio, já que o modelo antigo tinha alto risco de infecção.
A Tribuna — Como descobriu ser portador da cardiomiopatia hipertrófica?
Marcus Jesus — Por volta dos 19 anos. Estava no trabalho, senti um mal-estar, desmaiei, fui levado para o hospital, que constatou a doença. Não dei muita importância na época, até que ela foi se agravando. Sempre fui muito ativo, gostava de jogar futebol, vôlei, andar de bicicleta, mas quando coloquei o aparelho no peito, reduzi bastante as atividades.
Qual foi o problema que ocasionou a necessidade de novos aparelhos?
Eu tive uma infecção generalizada, no final de 2024, em que precisei ficar 30 dias no CTI. O aparelho que eu tinha precisou ser removido e recolocar o modelo antigo tinha um risco muito grande de infecção. Esses novos modelos, sem fio, são os mais recomendados pois evitam novo risco de infecção.
O cardiodesfibrilador subcutâneo coloquei em setembro de 2025 e o marcapasso sem fio em janeiro deste ano.
Como está sendo sua vida agora, depois dessa tecnologia?
No início, antes de fazer a cirurgia, estava receoso por ser algo inédito no Estado, mas me surpreendeu. A recuperação foi incrível, não senti nada. Estou muito bem! Não precisei passar por adaptações. Agora quero ter uma nova vida para curtir meus filhos e meus netos.
Saiba Mais
Cardiomiopatia hipertrófica
É uma doença cardíaca genética em que o músculo do coração fica mais espesso que o normal, sem outra causa aparente.
Pode não causar sintomas por anos, mas, em outros casos, pode provocar falta de ar, cansaço, dor no peito, desmaios, arritmias, insuficiência cardíaca e risco de morte súbita. A doença pode se manifestar em qualquer fase da vida.
Arritmias
Arritmia é o chamado transtorno do ritmo cardíaco. Podendo ter as chamadas taquiarritmias (coração acelera de forma anormal) e as bradiarritmias (coração desacelera também fora do normal).
Podem ser causadas por alguma falha no funcionamento elétrico, envelhecimento e também por doenças cardíacas adquiridas ao longo da vida ou as hereditárias.
As arritmias complexas estão presentes em 1,5% a 5% da população geral, segundo dados médicos. Levando em conta 5% do total da população capixaba, 4.126.854 indivíduos, segundo Estimativas da População 2025 do IBGE, 206 mil pessoas no Espírito Santo têm arritmia.
Cirurgia
As arritmias em que o coração bate de forma muito lenta ou chega a parar são tratadas com marcapasso, enquanto as arritmias aceleradas, potencialmente fatais, exigem a atuação de um cardiodesfibrilador, capaz de aplicar choques elétricos automáticos.
Na cirurgia inédita do Espírito Santo, o paciente já utilizava um cardiodesfibrilador subcutâneo e, no último fim de semana, recebeu o menor marcapasso do mundo.
Com apenas 2,5 centímetros de comprimento e 2 gramas, o marcapasso leadless é 93% menor que os modelos convencionais e não utiliza eletrodos (fios). O dispositivo é implantado diretamente no coração por meio de um cateter, em um procedimento minimamente invasivo, sem cortes cirúrgicos e com alta hospitalar no dia seguinte.
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