Ciência avança na cura do câncer e do Alzheimer. Veja as pesquisas promissoras
Assim como no estudo da polilaminina, cientistas do País têm conduzido pesquisas promissoras no combate a doenças complexas e ainda sem cura
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A repercussão recente do estudo da polilaminina — proteína extraída da placenta e voltada para o tratamento de lesões medulares — reacendeu os holofotes sobre a ciência brasileira, que acumula pesquisas promissoras no combate a doenças complexas e ainda sem cura, como câncer, Alzheimer e enfermidades raras.
Entre esses destaques está a terapia CAR-T, que foi desenvolvida, produzida e aplicada integralmente em território nacional no final do ano passado. O estudo foi conduzido pelo Einstein Hospital Israelita e contou com apoio do Ministério da Saúde.
Com um custo que pode chegar a mais de R$ 3 milhões, a terapia CAR-T usa células de defesa do próprio paciente, modificadas em laboratório, para identificar e atacar o tumor, mostrando resultados promissores em cânceres do sangue avançados. Com produção no Brasil, esse custo pode ser reduzido, além do tempo de tratamento.
O oncologista Glaucio Bertollo, coordenador do Centro de Pesquisa Clínica do Hospital Santa Rita, explica que grande parte das pesquisas em relação à oncologia, atualmente, tem foco em tratamentos personalizados e na imunoterapia.
“São estratégias em que os tratamentos ensinam o sistema imunológico a reconhecer as células do câncer como estranhas ao organismo, e com isso destruí-las”.
Outra descoberta de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, que pode mudar os rumos do tratamento do câncer de mama triplo-negativo — um dos subtipos mais agressivos da doença —, está no fungo de uma planta, a cefalocromina.
Segundo o professor João Agostinho Machado Neto, do Departamento de Farmacologia do ICB e supervisor da pesquisa, a molécula é capaz de atingir preferencialmente células malignas, preservando células saudáveis.
“Embora ainda seja prematuro afirmar que se trata de uma nova geração de terapias mais seguras, esse perfil inicial é encorajador, pois aponta para a possibilidade de estratégias terapêuticas mais direcionadas e menos agressivas”.
Já no Instituto Butantan, pesquisadores testam tratamento contra Alzheimer que utiliza proteína do peixe merluza.
“Instituições brasileiras têm investido no desenvolvimento de compostos capazes de modular enzimas envolvidas na formação da beta-amiloide, como a BACE-1, bem como em moléculas que favoreçam a degradação dessas proteínas já depositadas no tecido cerebral. Essas abordagens estão alinhadas com pesquisas mundiais, que buscam tratamentos que atuem na fisiopatologia e não apenas nos sintomas”, destacou a neurologista e preceptora do curso de Medicina da Ufes, Mariana Grenfell.
Pesquisas promissoras
1. Polilaminina
Há quase 30 anos, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolvem a polilaminina, proteína produzida em laboratório que pode ajudar na regeneração da medula espinhal.
Aplicada durante cirurgia no local da lesão, a substância cria uma “malha” que orienta os neurônios a se reconectarem, favorecendo a recuperação de movimentos. O tratamento, feito preferencialmente até 72 horas após o trauma, já apresentou resultados iniciais promissores em humanos.
No Espírito Santo, cinco pacientes receberam a substância por decisão judicial, e o Estado demonstrou interesse em sediar pesquisas, com o Hospital Estadual de Urgência e Emergência “São Lucas”. A previsão é que a fase 2 do estudo possa ter participação do Estado.
O estudo clínico de fase 1 foi autorizado pela Anvisa, em janeiro, e tem como objetivo avaliar a segurança do uso em pacientes.
2. Terapia CAR-T brasileira
O Brasil alcançou um marco na oncologia ao desenvolver e aplicar, pela primeira vez no País, uma terapia celular CAR-T totalmente nacional. O estudo CARTHIAE, conduzido pelo Hospital Israelita Albert Einstein, com apoio do Ministério da Saúde, mostrou resultados expressivos: 81% de resposta e 72% de remissão completa em pacientes com cânceres hematológicos avançados e sem alternativas terapêuticas.
A CAR-T, que é aprovada pela Anvisa, é uma imunoterapia personalizada que modifica geneticamente as células de defesa do próprio paciente para atacar o tumor. No ensaio clínico fase I, 11 pessoas — entre 9 e 69 anos — com linfomas e leucemias receberam o tratamento, produzido no próprio hospital, com taxa de fabricação de 100% e tempo médio de 22 dias entre coleta e infusão.
Além da eficácia, a produção nacional reduz custos e tempo de espera, superando barreiras que limitavam o acesso à tecnologia, antes dependente de importação e com valores que podiam chegar a R$ 3 milhões. O estudo foi publicado na revista Blood, no final do ano passado. Novas fases da pesquisa devem ser divulgadas neste ano ou no ano que vem.
3. Probiótico para TEA
A médica psiquiatra capixaba Sarha Queiroz ganhou destaque internacional ao publicar, na BMC Pediatrics e com indexação na PubMed, um estudo sobre probióticos no autismo.
A pesquisa, duplo-cego e controlada por placebo, acompanhou 182 crianças, entre 3 e 11 anos, com TEA por 90 dias para avaliar os efeitos de uma mistura probiótica derivada de kefir, por meio de nanotecnologia, no eixo intestino-cérebro.
Os resultados indicaram melhora na comunicação, maior autonomia e redução de irritabilidade, ansiedade e isolamento nas crianças que receberam probióticos, além de redução de marcadores inflamatórios e melhora metabólica. Agora a pesquisadora quer realizar estudos maiores, multicêntricos e de maior duração.
4. Imunoterapia contra tumores sólidos
Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP estudam uma nova imunoterapia com células T modificadas para tratar tumores sólidos.
Tumores sólidos são massas de células cancerosas que se formam em órgãos ou tecidos — diferente dos cânceres do sangue —, como melanoma, sarcomas, câncer de mama, pulmão e próstata.
No estudo, as células foram programadas para reconhecer a proteína NY-ESO-1, conseguindo destruir células tumorais e controlar o crescimento em modelos experimentais, indicando potencial para terapias mais personalizadas no futuro.
5. Peixe contra Alzheimer
Uma molécula modificada a partir de uma proteína encontrada no peixe merluza foi capaz de inibir a enzima BACE-1, responsável pela formação das placas beta-amiloides associadas ao Alzheimer.
Cientistas do Instituto Butantan, em parceria com a Universidade São Francisco (USF), estão desenvolvendo o peptídeo com potencial para tratamento da doença.
Em testes laboratoriais e em animais, o composto reduziu proteínas tóxicas, alcançou o cérebro, mostrou boa estabilidade e não apresentou sinais relevantes de toxicidade.
Os estudos indicaram que a substância circula pelo organismo e é eliminada sem causar danos aos órgãos. Por ser um inibidor reversível, pode oferecer ação mais segura que outras abordagens.
Embora ainda distante do uso clínico, o peptídeo surge como candidato promissor em um cenário em que os tratamentos atuais apenas aliviam sintomas e não curam a doença.
6. Fungo contra câncer
Um composto natural brasileiro, a cefalocromina, isolado de fungos que vivem em folhas de árvores, mostrou potencial promissor contra o câncer de mama triplo-negativo, um dos subtipos mais agressivos da doença. O estudo é feito por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.
A substância atua modulando a survivina (BIRC5), proteína que ajuda células tumorais a sobreviver e se multiplicar. Ao interferir nesse mecanismo, a molécula favorece a morte das células cancerígenas e dificulta a progressão do tumor, conforme explicou o professor João Agostinho Machado Neto, do ICB e supervisor da pesquisa.
Nos testes, a cefalocromina também potencializou a ação de quimioterápicos como paclitaxel e doxorrubicina, aumentando a destruição das células tumorais e abrindo a possibilidade de usar doses menores, o que pode reduzir efeitos colaterais.
Outro achado relevante foi a baixa toxicidade em células saudáveis, indicando seletividade inicial.
Ainda em fase pré-clínica, a pesquisa precisa avançar para testes em animais e, depois, em humanos, mediante autorização da Anvisa. Se confirmados, os resultados podem contribuir para terapias mais eficazes e menos agressivas no futuro.
7. Vacina contra vício em crack e cocaína
Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desenvolvem a Calixcoca, uma vacina contra a dependência de cocaína e crack, que pode se tornar a primeira do mundo com essa finalidade.
O imunizante estimula o organismo a produzir anticorpos que se ligam à droga na corrente sanguínea, impedindo que ela chegue ao cérebro e bloqueando seus efeitos.
Iniciado em 2015, o projeto já demonstrou segurança e eficácia em testes pré-clínicos, e agora se prepara para a fase 1 em humanos, que avaliará possíveis efeitos colaterais.
A expectativa é que a vacina ajude a reduzir recaídas e funcione como ferramenta complementar no tratamento.
Nos últimos dias, surgiram notícias dizendo que o teste em humanos iria começar, mas, por nota, a universidade informou que “todos os próximos passos serão amplamente divulgados, mantendo total transparência com a sociedade e a comunidade científica”.
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