Cardápio ideal para quem usa canetas emagrecedoras
Especialistas apontam que dieta deve ser rica em proteína, fibras e grãos para proteger massa magra e reduzir efeitos colaterais
Mais do que reduzir o apetite, as canetas emagrecedoras exigem mudanças no prato. Um consenso inédito elaborado por especialistas internacionais definiu quais alimentos devem ser priorizados durante o tratamento para aumentar a eficácia dos medicamentos e evitar problemas como perda de massa muscular e deficiência nutricional.
A diretora científica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia regional estadual (SBEM-ES), Rita Cesquim, ressaltou que a alimentação faz toda diferença no uso das medicações.
“As canetas emagrecedoras agem reduzindo o apetite, mas não escolhem o que vai ser perdido, gordura ou músculo. O consenso mostrou que de 24% a 30% do peso perdido com essas medicações é massa muscular, não gordura.”
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Ela ressaltou, ainda, que se a pessoa come pouco e sem proteína suficiente, o corpo passa a usar o músculo como fonte de energia. “A alimentação não é um detalhe. Uma dieta rica em proteína, fibras e grãos integrais protege a massa magra, melhora a saciedade, reduz efeitos colaterais gastrointestinais e sustenta o peso perdido”.
Segundo a gastroenterologista e nutróloga da Unidade do Sistema Digestivo Hucam, Christian Kelly Ponzo, a publicação reforça que não basta comer menos.
“Como a semaglutida e a tirzepatida reduzem o apetite e aumentam a saciedade, algumas pessoas passam a comer volumes muito pequenos. Se essa alimentação não for bem planejada, o paciente pode não atingir suas necessidades de proteínas, vitaminas e minerais e pode perder massa muscular. Precisamos priorizar alimentos de alta qualidade nutricional, cuidar da hidratação e associar exercício físico, principalmente o treinamento de força”.
Na avaliação da nutricionista e PhD em Fisiologia Humana Nathalie Tristão, o principal desafio é que a redução do apetite leva muitas pessoas a consumirem poucas calorias, o que exige mais atenção à qualidade da alimentação.
“Se a pessoa não priorizar alimentos de alta qualidade nutricional, entra em uma rota de colisão, porque o organismo começa a apresentar sinais de deficiência nutricional. É comum observar queda de cabelo, pele ressecada, dificuldade de concentração e outros sintomas.”
Segundo ela, as orientações do consenso reforçam recomendações que nutricionistas já adotavam na prática clínica. “A base continua sendo uma alimentação saudável, priorizando proteínas, fibras, hidratação e alimentos de qualidade nutricional”.
Entenda
Diretrizes europeias
Foi publicada recentemente na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology uma diretriz assinada pela Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, pela Federação Europeia das Associações de Nutricionistas e Coalizão Europeia de Pessoas que Vivem com Obesidade.
o documento faz parte de um consenso entre as entidades, que reúne as melhores evidências disponíveis na literatura científica voltadas ao acompanhamento da rotina alimentar de quem usa os medicamentos injetáveis que imitam hormônios intestinais a base de GLP-1 e GIP (como Mounjaro e Ozempic ).
O que diz o consenso
1. Ingestão de calorias
O documento aponta que a quantidade diária de calorias deve ser definida de forma individualizada.
No entanto, destaca que se a ingestão estiver abaixo de 800 kcal por dia por um período prolongado, é preciso considerar reduzir a dose da medicação ou interrompê-la.
2. Proteínas
A recomendação também varia de paciente para paciente. Mas, em linhas gerais, durante a fase de emagrecimento, a meta é consumir de 1 a 1,5 gramas de proteína por quilo de peso corporal ao dia.
Já na fase de manutenção do peso, a régua desce um pouco: 0,8 a 1 grama por quilo ao dia.
De forma mais geral, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos diz que cerca de 75 gramas diários de proteína de alta qualidade seriam suficientes para evitar que o corpo passe a “digerir” o próprio músculo para sobreviver à restrição calórica.
Em nenhuma hipótese a ingestão diária deve ficar abaixo de 60 gramas. Além disso, o consumo precisa ser distribuído ao longo do dia.
A suplementação proteica (como uso de whey protein) deve ser considerada somente quando a ingestão alimentar for insuficiente.
3. Carboidratos
O consenso não manda cortar os carboidratos, e, sim, escolhê-los.
A recomendação é que se dê preferência a carboidratos complexos e ricos em fibras.
4. Fibras
Para evitar um dos efeitos comuns das medicações, a constipação, é indicado ingerir pelo menos 25 gramas do nutriente por dia. O próprio consenso, porém, reconhece que pode ser difícil alcançar esse número.
O ideal é equilibrar fibras solúveis, como da aveia, leguminosas e nas frutas, e as insolúveis, presentes nos grãos integrais.
5. Ingestão de líquidos
A meta diária é de 2 a 2,5 litros vindos de fontes não calóricas (2,5L para homens e 2L para mulheres).
Água segue como a fonte principal de hidratação, mas chás (de ervas, verde ou preto) e café podem entrar na lista, desde que com moderação.
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