Canabidiol mostra potencial para reverter danos do Alzheimer em estudo experimental
Em animais geneticamente modificados para desenvolver a doença, o CBD reduziu a inflamação cerebral
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Um estudo experimental feito em camundongos sugere que o canabidiol (CBD), composto não psicoativo extraído da maconha, pode ajudar a reverter parte dos danos causados pelo Alzheimer no cérebro. Publicada em março na revista científica Molecular Psychiatry, a pesquisa aponta um possível caminho para terapias futuras em humanos, embora ainda dependa de validação em novos estudos.
Em animais geneticamente modificados para desenvolver a doença, o CBD reduziu a inflamação cerebral, diminuiu o acúmulo de proteínas tóxicas e protegeu a estrutura dos neurônios -três processos centrais do Alzheimer.
Os pesquisadores identificaram ainda o possível mecanismo por trás desses efeitos. Em camundongos, o canabidiol interagiu com a proteína FRS2, que atua como intermediária na comunicação entre as células. Ao se ligar a ela, o CBD ativa o receptor TrkB, associado à sobrevivência e ao crescimento dos neurônios, mesmo sem a presença de BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro), proteína que normalmente desempenha esse papel e que fica reduzida em pacientes com Alzheimer.
Para Diogo Haddad, neurologista do Hospital Nove de Julho e coordenador do Núcleo de Memória do Alta Diagnósticos, um dos principais méritos do estudo é ir além da simples observação de melhora nos animais.
"Os pesquisadores não só mostraram que houve melhora como também investigaram por que isso acontece, identificando vias biológicas e um possível alvo molecular direto para a ação do CBD", afirma. "Isso fortalece a evidência do ponto de vista biológico."
Alexandre Kaup, neurologista do Einstein Hospital Israelita, também vê avanços no trabalho. "Até agora, não se tinha a evidência do FRS2 como alvo do CBD", diz.
Ele ressalta, contudo, que novos estudos são necessários para consolidar esse tipo de descoberta. "O achado é importante, mas é uma pista, não temos o mistério desvendado. Pode levar a outras descobertas e, eventualmente, ao uso do CBD como ferramenta no tratamento do Alzheimer, mas, por si só, não significa que encontramos o caminho", afirma.
Kaup explica que esse tipo de estudo se insere na chamada ciência translacional, que busca transformar descobertas básicas em aplicações clínicas. "Para isso, é preciso confirmar os resultados, validar em outros modelos, entender se o mesmo mecanismo ocorre em humanos e, só então, avançar para estudos clínicos. É um caminho longo."
Embora promissores, os resultados ainda se restringem a modelos experimentais. Como destaca Haddad, estudos em animais são fundamentais para entender mecanismos da doença, mas nem sempre se traduzem diretamente em benefícios para pacientes. Isso porque os modelos não reproduzem toda a complexidade do Alzheimer humano, incluindo fatores como envelhecimento cerebral, comorbidades e a diversidade de manifestações clínicas.
Além disso, a literatura científica sobre o tema ainda é limitada, especialmente em relação a mecanismos específicos de ação do CBD no Alzheimer. Embora já existam estudos pré-clínicos sugerindo efeitos neuroprotetores do CBD, como ação anti-inflamatória e modulação de proteínas associadas ao Alzheimer, este é um dos primeiros trabalhos a propor a ativação direta do receptor TrkB pelo composto, afirma Kaup.
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