45% dos casos de demência podem ser evitados, diz ciência
Diretrizes da OMS recomendam controlar hipertensão, diabetes e colesterol, além de reduzir a exposição à poluição e ao tabaco
A demência, por muito tempo vista como consequência inevitável do envelhecimento, pode ser evitada em uma parcela significativa dos casos. Novas diretrizes divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que até 45% dos diagnósticos estão relacionados a fatores de risco modificáveis, como sedentarismo, tabagismo, hipertensão, diabetes e obesidade.
O documento – que atualiza as recomendações publicadas em 2019 com base nas evidências científicas mais recentes – reforça que mudanças no estilo de vida são a principal estratégia para proteger a saúde do cérebro.
As diretrizes de 2019 já consideravam a relação entre demência e condições como obesidade, diabetes, hipertensão, depressão, colesterol alto, perda auditiva, e alterações do sono. Na atualização de 2026, outros fatores foram incluídos, entre os quais a poluição do ar – que aparece pela primeira vez.
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A médica neurologista Ana Claudia Andrade afirmou que a principal mudança nas últimas duas décadas foi a compreensão de que a demência não é um evento inevitável do envelhecimento, mas uma doença multifatorial, cujo risco pode ser significativamente modificado ao longo da vida.
“A recomendação é que as pessoas busquem um cuidado integral, corrigindo o baixo estímulo cognitivo, a perda auditiva não tratada, a hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, depressão, isolamento social, traumatismo craniano, alterações visuais não corrigidas e níveis elevados de colesterol.”
A neurologista Raquel Favalessa de Aquino ressaltou que o envelhecimento é o principal fator de risco para a demência, mas não é a única causa. “A atividade física é uma das medidas com maior evidência científica para proteger o cérebro. A recomendação é praticar mais de 150 minutos por semana”.
A médica neurologista especialista em cognição Marina Fim Tanure salientou que quanto mais cedo as intervenções são iniciadas, maior o potencial de reduzir o risco de demência. “Estudos mostram, ainda, que mudanças no estilo de vida trazem benefícios mesmo após os 60 ou 70 anos”.
Movimento
“Agora não consigo ficar parada”
A aposentada Maria das Graças Pereira, de 78 anos, é um exemplo de como a movimentação pode auxiliar na saúde mental.
Após orientação médica, ela passou a praticar pilates e hidroginástica. “O médico falou que se eu quisesse ficar sem cadeira de rodas, era para eu me movimentar. Eu só ficava sentada lendo, costurando e bordando”, contou.
Ela afirma que os exercícios trouxeram benefícios não apenas físicos, mas também emocionais. “Tudo na minha vida mudou. Eu perdi um filho e fiquei sem vontade de nada. Agora não consigo ficar parada”.
Hoje, Maria mantém uma rotina ativa e acredita que o movimento foi essencial para recuperar a disposição e a qualidade de vida.
Exercícios Físicos
Nova rotina
Aos 62 anos, a aposentada Silvana Alves decidiu, por conta própria, mudar a rotina e investir na prática de exercícios físicos. Há dois anos, ela faz hidroginástica e também frequenta a academia.
Segundo Silvana, a iniciativa trouxe benefícios que vão muito além do condicionamento físico. “Eu me revigoro a cada dia”, afirma.
Alegria de viver no que antes era monotonia
As amigas aposentadas Lourdes Bravim, 75, e Iumar Machado, 84, encontraram na atividade física uma aliada para manter a mente saudável.
Frequentadoras das aulas de funcional, dizem que a prática trouxe mais disposição e bem-estar. “Antes era uma monotonia. Agora que comecei a fazer, melhorou 100%. A vida, a alegria, o humor, a cabeça, tudo ”, diz Iumar.
O que elas dizem
Multifatorial
“A principal mudança nas últimas duas décadas foi a compreensão de que a demência não é um evento inevitável do envelhecimento, mas uma doença multifatorial cujo risco pode ser significativamente modificado ao longo da vida. O envelhecimento continua sendo o maior fator de risco para demência, porém, envelhecer não significa desenvolver demência.”
Independência
“É esperado que, com o envelhecimento, a pessoa demore um pouco mais para lembrar um nome ou onde deixou um objeto, mas consiga se lembrar depois e mantenha sua independência. O sinal de alerta é quando os esquecimentos se tornam frequentes, progressivos e começam a interferir nas atividades do dia a dia.”
Primeiros sintomas
“A prevenção da demência deve começar muito antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Hoje sabemos que a saúde cerebral é construída ao longo de toda a vida. Fatores como escolaridade influenciam desde a infância, enquanto o controle da hipertensão, do diabetes, colesterol, obesidade e sedentarismo tornam-se mais importantes a partir da meia-idade.”
Entenda
Diretrizes
- A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou na quarta-feira (15) novas diretrizes para redução do risco de declínio cognitivo e demência.
- O documento atualiza as recomendações com base nas evidências científicas mais recentes.
- Segundo a OMS, 57 milhões de pessoas vivem com demência no mundo e até 45% dos casos estão associados a fatores de risco modificáveis, como hábitos de vida e condições de saúde que podem ser tratadas.
O que foi incluído
- As diretrizes de 2019 já consideravam a relação entre demência e condições como: obesidade; diabetes; hipertensão; colesterol elevado; perda auditiva; depressão; alterações relacionadas ao sono.
- Na atualização de 2026, passaram a constar: infecção pelo HIV; acidente vascular cerebral (AVC); traumatismo craniano; poluição do ar; deficiência visual.
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