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Quadrilha deixa 1 milhão de prejuízo para idosas

Criminosos, em sua maioria do Rio Grande do Sul, fizeram seis vítimas na Grande Vitória com o golpe do bilhete premiado

Kananda Natielly E Francine Spinassé, Do Jornal A Tribuna | 22/07/2022 14:30 h

Delegados José Arruda, Douglas Vieira e Gianno Trindade mostram falso bilhete de loteria usado por bandidos
Delegados José Arruda, Douglas Vieira e Gianno Trindade mostram falso bilhete de loteria usado por bandidos |  Foto: Fábio Nunes/AT
 

Integrantes de uma quadrilha do Rio Grande do Sul foram presos por aplicar o golpe do bilhete premiado no Estado. Eles se aproveitavam da vulnerabilidade de idosos para cometer crime.  

Ao todo, seis pessoas foram vítimas da organização criminosa e o prejuízo somado chega a R$ 1 milhão. As vítimas são idosas e perderam de R$ 45 mil a R$ 300 mil. 

Três pessoas, sendo dois homens de 32 e 36 anos e uma mulher, de 38, foram presas em flagrante, na última segunda-feira, enquanto estavam em um hotel na Grande Vitória. 

Dois deles eram do Rio Grande do Sul e um criminoso  do Espírito Santo. Além do trio, uma quarta pessoa, do Sul,  foi identificada, mas  não foi presa. 

Para conseguir enganar as idosas, o grupo mantinha uma estrutura organizada, com direito, inclusive, a kit golpe. Dentro de uma bolsa preta, os criminosos colocaram  falsos cartões premiados, cópia de um bilhete premiado falsificado, além de promissórias.

A organização, segundo a Polícia Civil, agia em todo o País. Todos os suspeitos já possuem passagem por estelionato, roubo e furto. A cada crime praticado, o grupo se dividia em cinco pessoas. 

O primeiro golpista fazia o levantamento das informações da possível vítima. Já o segundo era o  olheiro no dia do golpe. 

O terceiro bandido era o que tinha o bilhete premiado, fingia dificuldade e solicitava informações. “O quarto  oferecia um valor a esse terceiro criminoso, fingindo não o conhecer, para induzir a vítima a aceitar a proposta”, explicou o titular da Delegacia Especializada de Falsificações e Defraudações, delegado Douglas Vieira. 

Em seguida, entrava em cena o quinto estelionatário, acionado  por telefone,  pelo terceiro bandido. “Ele se passava por um atendente da Caixa e informava para a vítima  o horário do saque do prêmio. Ainda pediam para que ela não comentasse com ninguém,  porque  poderia ser sequestrada por  ser ganhadora”, disse.

Os golpistas tiveram a prisão em flagrante pelo crime de associação criminosa convertida em preventiva  e estão mantidos em presídios do Estado. 

“Perdi tudo que juntei a vida toda” 

Aposentada de 80 anos foi vítima da quadrilha
Aposentada de 80 anos foi vítima da quadrilha |  Foto: Thais Cardoso
 

Depois de perder cerca de R$ 300 mil em janeiro deste ano, uma aposentada de 80 anos ainda tenta se recuperar do golpe. “Fiquei sem conseguir dormir, comer. Estou indo a psiquiatra, tomando medicação. Perdi tudo o que juntei a vida toda trabalhando muito”.

A Tribuna: Como foi a abordagem dos golpistas?  

Aposentada: Eu estava passando na rua, em um local movimentado que sempre passo, quando uma mulher  malvestida  me parou chorando. Ela começou a contar que não era aqui da Grande Vitória, que  tinha perdido o pai e que a mãe trabalhava na roça. Contou que tinha um dinheiro para receber, mas que a família era Testemunha de Jeová e que não poderia jogar.

Ela ofereceu logo o bilhete? 

Ela falava muito. Chegavam outras pessoas na hora e começavam a falar também. Um homem encostou do lado, na conversa,  e começou a insistir para a gente ajudar aquela mulher.  

E não desconfiou?

Olha, é uma coisa que sempre digo, que parece obra do diabo mesmo, pois eles cegam a gente. Eu sempre fui ligada nessas coisas e sempre me perguntei  como alguém caía em algo assim. Mas quando estive nessa situação, não percebi. Fui sendo levada por toda história. 

E quanto diziam que era o valor do bilhete premiado?

Algo em torno de R$ 3 milhões.  Eu nem precisava de mais dinheiro. Isso que me choca, pois eu trabalhei a vida toda para juntar aquilo que tinha no banco. 

E quando percebeu o golpe?

Eles me levaram até o banco. Eu mostrei para eles a minha conta, o saldo. Só percebi o que tinha acontecido quando o homem parou de me responder. Ele me mandou carinhas rindo por mensagem. 

E sua reação? 

Fiquei desesperada. Quase morri. Eu tirei tudo o que tinha na boca do caixa e o pior é que ninguém do banco parou para me perguntar nada. Depois de 40 anos no mesmo banco e nunca tinha tirado uma quantia alta assim. 

Ficou sabendo da prisão da quadrilha? 

Vi alguma coisa, sim. Espero que eles paguem pelo que fizeram. Não desejo o mal de ninguém, apenas a justiça. O dinheiro que perdi eles não vão me devolver, mas entreguei a Deus tudo isso. Entrei com uma ação na Justiça. Acredito em  Deus que Ele não irá me desamparar.

Discurso religioso para enganar

Para conseguir enganar suas vítimas, os golpistas usavam vários argumentos. Um deles era de cunho religioso. “Ele fala que pertence a uma igreja e que ela não permite que ele recebe valores de jogos de azar, são muito convincentes”,  informou o titular da Delegacia Especializada de Falsificações e Defraudações, delegado Douglas Vieira. 

Para reforçar os argumentos, um outro bandido aparecia no meio da negociação. “Esse seria o quarto elemento que aparece do nada e oferece um valor pelo bilhete, a fim de induzir a idosa a comprar”, disse o delegado. Os estelionatários possuem perfis parecidos. 

“Eles andam bem vestidos. São bem articulados, dissimulados, verdadeiros atores, só que atores do crime”. Segundo ele,  a quadrilha começou a agir desde novembro do ano passado. Eles são acusados de praticar o crime em todo o Espírito Santo.


ENTENDA 

Como agiam

1) O primeiro golpista fazia o levantamento das informações da possível vítima, indo, inclusive, nas portas de bancos para abordar e colher todas as informações necessárias. 

2) Já o segundo era o  olheiro no dia do golpe, que fazia  todo levantamento de área para que o crime fosse praticado sem ser impedido pela polícia. 

3) O terceiro bandido era o que tinha o bilhete premiado, fingia dificuldade e solicitava informações ao alvo. 

4) O quarto bandido oferecia um valor a esse terceiro criminoso, fingindo não o conhecer, para induzir a vítima a aceitar a proposta. 

5) A vítima fazia um depósito no valor que o bandido pedia, acreditando que  receberia o bilhete.

6) Os criminosos ainda imprimiam um bilhete falsificado, parecido com o original, para convencer a vítima a comprar o bilhete. 

7) Em seguida, o quinto estelionatário entrava em cena: acionado  por telefone,  pelo terceiro bandido, ele se passava  por um atendente da Caixa e informava para a vítima o horário do saque do prêmio no dia seguinte. 

8) O suposto  atendente da Caixa, além de informar  o horário do saque do prêmio,  ainda pedia para que a vítima não comentasse com ninguém sobre o prêmio,  porque ela  poderia ser sequestrada.

Fonte: Polícia Civil.

Até 10 anos de cadeia para cada golpe aplicado

Criminosos que forem pegos praticando  golpes como o do bilhete premiado   podem pegar até 10 anos de cadeia por  crime. A informação é da Polícia Civil, que prendeu na última segunda-feira uma quadrilha especializada na prática do golpe.

“Eles têm a cultura de achar que estelionato não dá nada, mas estão enganados. A pena  pode chegar a 10 anos de prisão a cada golpe ou a cada tentativa de golpe”, disse o titular da  Delegacia Especializada de Falsificações e Defraudações (Defa), delegado Douglas Vieira. 

Sobre a devolução dos valores que são roubados das vítimas, o delegado explica que nem sempre é possível. “Esses golpistas gastam  tudo com coisas supérfluas, com viagens, bares, restaurantes, comprando roupas de marca. Geralmente há muitos envolvidos, então, o dinheiro é pulverizado”.  

Para evitar se tornar vítima, o delegado orienta que as  pessoas não tenham contato com estranhos. “Eles são simpáticos e argumentam  bem. Nunca forneça seus dados a ninguém e, principalmente, nunca realize transferência”, pontua o titular da Defa.

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