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"Minha filha, eu preciso de você", diz mãe em enterro

| 11/02/2020 11:11 h | Atualizado em 11/02/2020, 14:32

“Minha filha, eu preciso de você!”. Enquanto o pequeno caixão branco descia, a mãe de Alice da Silva Almeida, de 3 anos, não continha as lágrimas. Os gritos de desespero de Amanda Guedes emocionaram as centenas de pessoas que acompanharam o velório, no Cemitério Parque da Paz, em Ponta da Fruta, Vila Velha, no final da tarde de ontem.

Amanda no colo do marido, Geovane Almeida, no velório da filha, Alice.
Amanda no colo do marido, Geovane Almeida, no velório da filha, Alice. |  Foto: Kadidja Fernandes/AT

Alice foi morta enquanto brincava no quintal de casa, no bairro Dom João Batista, em Vila Velha.
O alvo dos disparos, segundo testemunhas, era um adolescente de 17 anos. Ele, que estava sendo perseguido por suspeitos em um carro branco, invadiu a casa da menina para se proteger, por volta das 20h30 de domingo.

Um dos três criminosos desceu do carro e disparou contra o adolescente. Ele levou um tiro de raspão na perna, mas a criança, que ficou no meio do tiroteio, foi atingida por um disparo na perna e outro no tórax. A família levou a menina para o Pronto Atendimento da Glória, mas ela não resistiu.

No início da tarde de ontem, o corpo de Alice foi velado na Primeira Igreja Batista de Aribiri. O clima era de revolta e tristeza.

Amanda Guedes precisou ser amparada diversas vezes pelo marido Geovane Almeida. “Os pais estão inconformados. A mãe da criança está deitada no caixão, não para de chorar”, contou um primo da vítima, o autônomo Fabiano Celestino Frassi, de 43 anos.

Centenas de pessoas compareceram ao velório. Depois, às 16 horas, o corpo da criança foi levado para o cemitério. Um ônibus lotado saiu da igreja, com moradores e amigos que queriam dar o último adeus à pequena Alice.

“Ela era uma criança muito brincalhona, sempre alegre, com um sorriso encantador. Fiquei sabendo por telefone. Na hora, ninguém conseguia acreditar que isso era verdade”, relatou o primo.

O sorriso da criança foi lembrado também no discurso feito por um amigo, antes do caixão ser enterrado: “Não esqueceremos daquele sorriso. Nunca vamos entender o que está acontecendo aqui, mas ela está lá no céu com Jesus”.

Mesmo em meio a louvores, durante o enterro, o choro da mãe se sobressaía. “Meu Deus, como dói! Eu não vou viver! Volta para mim! Eu quero descer”, gritava Amanda. Alice era filha única e neta de um sargento da Polícia Militar.

Enterrada com roupa de princesa

Imagem ilustrativa da imagem "Minha filha, eu preciso de você", diz mãe em enterro
Foi com o vestido da princesa Branca de Neve que Alice da Silva Almeida, de 3 anos, foi enterrada, no final da tarde de ontem.

A princesa foi tema da festa de aniversário de 1 ano da criança, que foi morta a tiros enquanto brincava no quintal de casa na noite de domingo, em Vila Velha.

De acordo com os vizinhos, a menina adorava andar pela rua com a fantasia.
“Ela usou essa roupinha no aniversário de 1 aninho. No caixão, além do vestido, ela estava de batom, unha pintada e uma florzinha na mão. Do jeito que gostava de andar, bem vaidosa”, contou a autônoma Andressa Viguini, de 38 anos, vizinha da família.

Andressa estava em casa quando ouviu os tiros que acertaram a menina. “Foram uns 10 disparos. Levei um grande susto. Saí para olhar, e vi um rapaz correndo. Até achei que fossem bandidos que atiraram e estavam fugindo, mas era o tio socorrendo ela. Todo mundo na rua gritava. Foi horrível”, relatou.

Uma dona de casa, tia da vítima, contou que a menina era o xodó da família. “Era muito alegre, comunicativa, feliz. Já falava tudo certinho, estava toda animada com a entrada na escolinha. A notícia foi um golpe muito grande para toda a família”, disse ela, que tem 46 anos e pediu para não ser identificada.

Domingo foi de festa em família

Antes da tragédia, Alice da Silva Almeida, de 3 anos, tinha passado o dia com a família, em um almoço para comemorar o aniversário de uma tia-avó.

A festa aconteceu na mesma rua da casa da menina. Os familiares contaram que já era noite quando a mãe, o pai e Alice se despediram de todos. Mal sabiam eles dos momentos de terror que viriam a seguir.

“Não passaram 10 minutos e o pai já voltou desesperado, falando que tinham matado a menina. Ele começou a bater a cabeça porque estava nervoso, com a camisa cheia de sangue. Não parava de dizer: 'Mataram minha filha, mataram minha filha!'”, contou um pedreiro, tio da menina.

De acordo com ele, a família ficou em pânico. “Ela saiu de lá para vir aqui (na casa) morrer”, comentou ainda.

Outra tia da menina, que também estava na festa, relatou que os familiares ficaram aguardando, aflitos, notícias sobre o estado de saúde de Alice.

“Ele (o pai) chegou chorando, falando que ela estava baleada. Logo depois, por volta de umas 21h30, chegou a notícia de que ela não tinha resistido”, contou a dona de casa, de 46 anos, que pediu para não ser identificada.

Agora, o que ela, os parentes e moradores do bairro esperam é que os responsáveis sejam presos. “O que nós queremos é que justiça seja feita e a polícia encontre esse assassino”, disse.

Declaração em redes sociais sobre menina emociona

Em meio a selfies e fotos da filha, as postagens de Amanda Guedes que mais se destacavam em seu perfil no Facebook eram declarações de amor à pequena Alice, de 3 anos, morta a tiros em Vila Velha.

No último dia 6, três dias antes do crime, Amanda registrou com uma foto o primeiro dia de aula de Alice e escreveu um texto emocionado.

“Eu sei, eu preciso entender que é preciso amadurecer a ideia de que a gente cria os filhos e depois eles voam como passarinhos... mas sei lá, é tão difícil. É difícil deixar você crescer, sair de perto, deixar de mimar você, como todos mandam eu parar”, comentou.

“Por quê? Porque você é um pedaço de mim, acho que Deus fez esse amor de mãe para mostrar o amor que Ele tem por nós, que somos filhos dele. É tão lindo, é tão grande, que chega a doer”, acrescentou.

A publicação emocionou os amigos de Amanda e até as 17h30 de ontem, já havia mais de 170 comentários desejando conforto à família. “O Senhor venha te fortalecer. Força mãezinha”, disse uma internauta.

“Dá medo de tudo!”
“Eles precisam tomar uma providência. Depois que morre, fica passando carro de polícia para todos os lados, mas agora não adianta mais. Não é minha filha, mas estudava no mesmo colégio que a minha. Podia ser a minha, foi um absurdo! Dá medo de sair na rua com os filhos, dá medo de ficar dentro de casa, dá medo de tudo!”

Lenir Reis, costureira, 56 anos

“Família destruída”
“Precisamos que os governantes façam algo, tirem a bandidagem do meio da rua. Nós estamos sofrendo, nossa família está sendo destruída. É difícil aguentar uma coisa dessas, sabendo que, dentro da sua própria casa, você vai levar um tiro. O Estado está sofrendo!”

Maria Aparecida Celestino, técnica de enfermagem, 45 anos, prima da Alice
 

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