Crimes na internet: "Falta empatia”, dizem especialistas
O distanciamento imposto pelas telas tem transformado a percepção da violência, tornando o sofrimento alheio cada vez mais abstrato
O distanciamento imposto pelas telas tem transformado a percepção da violência, tornando o sofrimento alheio cada vez mais abstrato.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, esse fenômeno ajuda a explicar comportamentos extremos no ambiente virtual e pode estar associado à falta de empatia.
Otávio Lube dos Santos, especialista em Segurança Digital, por exemplo, destaca que há uma dificuldade crescente de empatia, especialmente quando a violência acontece mediada por telas.
“A empatia não se ensina apenas com discurso, mas com exemplo e convivência. Pais precisam conversar sobre sentimentos, consequências das ações e responsabilidade emocional, além de acompanhar o que os filhos consomem e produzem on-line”.
No entanto, ele salienta que monitorar não é espionar. “Pais devem conhecer as plataformas usadas, estabelecer regras claras, combinar horários e limites, e observar mudanças de comportamento. Privacidade não pode ser argumento para ausência total de acompanhamento, especialmente quando falamos de menores de idade”.
A neuropsicóloga Licia Assbu, autora do livro “(Des)Conecte-se: Como se conectar com seu filho para ele se desconectar das telas”, ressalta que empatia não se ensina com discurso, mas com experiência emocional.
“A família é o principal fator de proteção emocional. Quando a casa se torna apenas um espaço de convivência física, e não de troca emocional, o adolescente tende a buscar pertencimento fora e pode acabar em comunidades digitais perigosas”.
Para ela, famílias que conversam, escutam sem julgamento e acompanham a vida on-line dos filhos reduzem significativamente os riscos.
“O diálogo constante funciona como um verdadeiro 'anticorpo emocional'”.
Já Wagner de Andrade Perin, analista de TI na Controladoria Geral da União (CGU), alerta que tecnicamente, nenhuma plataforma de interação livre com estranhos é 100% segura para menores desacompanhados.
“O Discord, especificamente, permite a criação de servidores privados onde a moderação da plataforma não chega em tempo real, e que acabam se transformando em espécies de 'porões digitais', que viabilizam a prática desses tipos de crimes”.
Para ele, deixar uma criança de 10 ou 12 anos solta em plataformas sem supervisão é o equivalente a deixá-la sozinha no centro de uma metrópole à noite.
“Ela pode encontrar pessoas boas, mas a chance de cruzar com alguém mal-intencionado é altíssima”.
Definição
O que é empatia?
“Empatia, no meu entendimento, é mais do que se colocar no lugar do outro. É estar conectado ao que o outro sente, não a partir das minhas referências, mas a partir do olhar dele.
É suspender julgamentos e permitir que a experiência do outro me atravesse.
Não é imaginar como eu me sentiria naquela situação, e sim reconhecer como o outro realmente se sente, com sua história, seus medos e suas emoções.
Empatia não se ensina com discurso, mas com experiência emocional.
Na prática, os pais precisam conversar sobre sentimentos reais, ajudar o filho a nomear emoções, estimular a responsabilidade pelo impacto das próprias ações e, principalmente, estar emocionalmente disponíveis.
Empatia nasce no vínculo, e não no controle”.
Licia Assbu, neuropsicóloga e autora do livro “(Des)Conecte-se: Como se conectar com seu filho para ele se desconectar das telas” (2022)
O que eles dizem
Território de violência
“Casos como esse acendem um alerta sério para famílias, escolas e sociedade. O ambiente digital não é apenas um espaço de entretenimento: ele também pode se tornar um território de violência, manipulação psicológica e crimes graves, sobretudo quando envolvem crianças e adolescentes. É fundamental ensinar a reconhecer manipulação, pedir ajuda e entender que sofrimento não deve ser vivido em silêncio”.
Ambiente de diálogo
“É necessário criar um ambiente de diálogo, um ambiente não confrontacional, sem acusações, baseado na confiança. Se algo acontecer com a criança ou com o adolescente, ele precisa se sentir seguro para falar com os pais, sem medo de exposição ou punição. Por isso, defendo que os pais estejam abertos a explicar que, diante de situações inesperadas na internet, os filhos têm total liberdade para conversar em casa. A orientação deve vir sem recriminação, apenas com acolhimento. Tudo o que é escondido não constrói um ambiente de confiança”.
Supervisão digital
“O maior alerta está relacionado à 'falsa sensação de segurança'. Muitos pais ainda acreditam que, se o filho está no quarto, ele está seguro, longe da violência que vemos nas ruas. No mundo atual, hiperconectado, os predadores, os aliciadores e líderes de seitas digitais não precisam pular o muro da sua casa; eles entram pelo cabo de rede ou pelo 5G. É importante ter a consciência de que a supervisão física não substitui a supervisão digital, mas que devem andar juntas”.
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