Sport, Náutico e Santa lançam camisas do filme "O Agente Secreto"
União inédita do Trio de Ferro celebra filme de Kleber Mendonça Filho e resgata o Recife de 1977
O cinema e o futebol de Pernambuco agora vestem o mesmo manto na torcida pelo Oscar. Em uma colaboração inédita mediada pela marca Chico Rei, os três principais clubes do estado — Sport, Náutico e Santa Cruz — lançaram uma coleção oficial de camisas inspiradas no filme O Agente Secreto.
A obra do cineasta Kleber Mendonça Filho, que já conquistou o Globo de Ouro e agora mira a mais desejada estatueta do mundo, chega às arquibancadas com uma estética retrô que resgata o Recife de 1977. É o suspense magnético das telas encontrando a vibração das ruas, onde a vida real, muitas vezes, supera qualquer ficção.
No filme, o protagonista vivido por Wagner Moura circula pela cidade sitiada pela ditadura militar vestindo a camisa do Santa Cruz. A imagem é forte: o "Time do Povo" como pele de quem resiste. Mas a parceria com a marca Chico Rei decidiu que, na torcida pela cultura nacional, ninguém joga sozinho. Pela primeira vez, os três gigantes do estado dividem a mesma coleção, transformando o vestuário esportivo em um manifesto de identidade cultural.
Três escudos, um só cenário de resistência
Ambientado em 1977, O Agente Secreto mergulha em um Brasil sob vigilância. A coleção "Na Torcida Pelo Oscar" captura esse espírito. Cada camisa é um tributo à narrativa que expõe as marcas de um tempo difícil. Para os idealizadores do produto, vestir essas peças é um gesto simbólico; é reconhecer o valor das histórias que nos ajudam a compreender quem fomos.
Para o Sport Club do Recife, a peça exalta a autoridade do Leão sob a vigilância de um Fusca amarelo. O carro, ícone da repressão e do mistério em 1977, divide o pano com o rubro-negro que, naquele ano, rugia alto como soberano de Pernambuco naquele estadual. É o encontro do asfalto quente da ditadura com a glória de uma história que não se apaga.
No Santa Cruz, a coleção mergulha no surrealismo das calçadas, tão bem casado com esse surreal amor da torcida santacruzense, exposto em visceras nos anos de série D. O manto coral traz a Perna Cabeluda, a lenda que chutava o sossego do Recife no mesmo ano em que o filme se passa. Como o "Mais Querido" é o traje oficial do herói da trama, a camisa funde a mística do Arruda à resistência das ruas. É o povo transformando o medo em mito e a calçada em set de filmagem.
Para o Clube Náutico Capibaribe, time do coração de Kleber Mendonça, a fidalguia do Timbu ganha a sombra de um Tubarão. O animal, marca registrada do perigo latente no cinema do diretor, surge para escoltar a tradição alvirrubra. Fundado às margens do rio, o clube traz a força dos Aflitos para a sétima arte, reafirmando o papel de quem ajudou a fundar a nossa paixão e agora carrega a bandeira da nossa cultura para o mundo.
O tribunal das redes: entre o aplauso e a incompreensão
Embora a maioria das reações tenha sido de deslumbramento com a beleza das peças e do tema, a internet pernambucana ferveu nos últimos três dias. No Recife, futebol e política nunca caminham em linhas paralelas; eles se cruzam no meio de campo.
Nas redes do Sport, o clima de tensão do filme parece ter saltado para os comentários. "O clube Sport não tem viés político, tão querendo fazer o clube de massa de manobra", disparou um torcedor indignado com a temática do longa. Outros preferiram o grito de "Viva o Sport livre". É o reflexo de um Brasil que ainda lida com as feridas abertas do passado retratado na obra.
No lado Tricolor, o orgulho de ver Wagner Moura com o manto coral gerou o apelido "Santa Cruz Golden Globe Winner". A maioria esmagadora era de elogios. "Abalou demais", reage outra internauta.
Mas o fantasma da desinformação também apareceu. "Parem de falar na na p… desse filme, a não ser que o canal esteja ganhando alguma coisa da Lei Rouanet", escreveu um usuário.
É preciso explicar, contudo, o que a desinformação muitas vezes esconde. A Lei Rouanet (Lei 8.313/91) é um mecanismo de incentivo fiscal onde empresas e pessoas físicas podem destinar parte do seu Imposto de Renda para projetos culturais. Não é "dinheiro direto do governo", mas sim renúncia fiscal de entes privados. No entanto, é fundamental destacar: O Agente Secreto não foi produzido com dinheiro da Lei Rouanet. O filme trilhou caminhos de financiamento internacionale editais de fundo setorial, provando que a arte brasileira tem fôlego próprio e mercado global.
Para respirar…
Para além da mensagem, há o produto. A Chico Rei diz que desenvolveu as camisas pensando no conforto térmico exigido pelo clima do Recife e pela adrenalina dos estádios. O material é o Dry Fit Premium, composto por 95% poliamida e 5% elastano.
O resultado é um tecido com toque gelado, alta elasticidade e tramas respiráveis que facilitam a evaporação rápida do suor. É uma modelagem de Gola Olímpica que permite ao torcedor transitar da sessão de cinema ao clássico de domingo sem perder o estilo ou o conforto. O preço de R$ 244,90 foi alvo de críticas, mas muitos torcedores rebateram com o comprovante de compra: "É histórico, já garanti a minha".
O cinema como destino
A Coleção Oficial O Agente Secreto + Times de Futebol consolida-se como um registro da força histórica de Náutico, Sport e Santa Cruz. Ao levar a estética de 1977 para o tecido, a colaboração propõe um exercício de memória, projetando a identidade local para o cenário internacional através do vestuário esportivo.
Nas redes, entre o entusiasmo do consumo e o calor dos debates ideológicos, prevalece o simbolismo da união inédita. Como resumiu um torcedor alvirrubro durante a repercussão do lançamento: "Antes de sermos brasileiros, somos pernambucanos".
Ao fim, quando as luzes da projeção se apagam e o cronômetro do estádio para, o que as peças eternizam é o diálogo entre o Leão, a Cobra Coral e o Timbu com a cultura nacional. É o Recife de 1977 reencontrando o de 2026, vestindo o torcedor com a certeza de que, na capital pernambucana, a arte e o futebol dividem o mesmo destino.
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