Suspeito de matar ex-companheira por asfixia é preso um mês após crime no Recife
Vítima havia se mudado para fugir do agressor; especialistas dizem que o momento de autonomia é o de maior risco para a mulher e exige estratégia
Railson Igor da Silva, de 23 anos, foi preso no bairro de Passarinho, na Zona Norte do Recife, um mês após ser suspeito de matar a ex-companheira Karoline Luana Domingos Gomes, também de 23 anos por enforcamento. Ele estava foragido desde crime, cometido em outro bairro: Nova Descoberta.
Foram 30 dias entre o feminicídio pelo qual é investigado e a prisão. E ele já estava supostamente enrolado em outro ato criminoso: tráfico de drogas.
O rapaz portava 29 embalanges de crack, quando foi localizado pela Polícia, que divulgou o fato nesta terça-feira (13), um dia após o flagrante. Ele foi levado do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa para o Fórum Joana Bezerra, onde ficou à disposição da Justiça.
Railson confessou à polícia ter matado a ex-companheira porque foi preso por tráfico de drogas e ela decidou não visitá-lo.
Estudos apontam que homens que exercem controle coercitivo, como suspeitam de Railson, tendem a reagir de forma extrema diante da frustração, especialmente quando a mulher tenta romper a relação, o que ajuda a explicar a violência desproporcional presente nesses crimes.
Frieza e crença na impunidade
Antes de entrar no camburão, como se chama tradicionalmete o carro da polícia, Railson respondeu com ironia quando a repórter Luciana Queiroz, da TV Tribuna PE, perguntou o que ele tinha a dizer, referindo-se ao crime.
Demonstrou frieza e confiança de que tudo vai passar rápido.
“Só tirar minha cadeia e sair depois" Railson Igor da Silva, Suspeito de feminicídio
Vítima tentou fugir, mas foi morta dentro de casa
Karoline Luana foi encontrada morta por asfixia dentro da residência onde morava, na Rua Santa Ana, na Comunidade Canaã.
Segundo a polícia, ela havia se mudado recentemente para o local na tentativa de escapar do agressor. As investigações apontam que Railson utilizou um fio de extensão para estrangulá-la até a morte. Uma brutalidade.
No imóvel, os policiais encontraram sinais de luta corporal. A casa estava revirada, com vidros quebrados e roupas espalhadas pelo chão, indicando resistência da vítima antes de ser morta.
De acordo com a polícia, o suspeito já possuía medida protetiva em vigor, tinha mandado de prisão em aberto por violência doméstica e tráfico de drogas, mas havia rompido a tornozeleira eletrônica. Desde o dia do crime, ele era considerado foragido.
É preciso de estratégias antes de romper a relação tóxica: não dá para fazer sozinha
Karoline Luana buscou escapar do algoz. Pesquisadores e organismos internacionais, no entanto, alertam que o período de tentativa de autonomia da mulher é o mais perigoso em relações marcadas por violência.
Estudos da Organização Mundial da Saúde e da pesquisadora Jacquelyn C. Campbell indicam que a separação, quando ocorre sem rede de proteção ativa, pode desencadear uma escalada de violência letal.
Por isso, especialistas defendem que o rompimento seja planejado com apoio institucional e familiar, evitando confrontos diretos. Embora medidas protetivas sejam fundamentais, elas nem sempre conseguem conter agressores reincidentes, o que expõe falhas na capacidade do Estado de impedir que a violência chegue ao feminicídio.
O que é necessário?
Os protocolos recomendam que a mulher não confie em apenas um recurso. É necessário ativar a rede formal e informal.
Rede informal
- Avisar pessoas de confiança;
- Compartilhar localização;
- Combinar sinais de emergência.
Rede formal
- Delegacia da Mulher;
- Defensoria Pública;
- Ministério Público;
- Serviços de acolhimento.
No Brasil:
📞 Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher (24h, gratuito, sigiloso).
Por que a pena mais dura do Brasil não tem sido eficiente?
Apesar de o feminicídio ter hoje a pena mais alta do Código Penal brasileiro — de 20 a 40 anos de prisão, após a Lei nº 14.994/2024 (o chamado Pacote Antifeminicídio), especialistas apontam que o endurecimento penal atua tarde demais, quando a violência já escalou ao ponto irreversível.
Estudos de Daniel Cerqueira (IPEA), Silvia Pimentel (CEDAW/ONU) e Heleieth Saffioti indicam que a maioria dos feminicídios não ocorre por impulso, mas ao final de um ciclo prolongado de violência, marcado por ameaças, controle, humilhações e agressões prévias que não foram interrompidas pelo Estado.
A pena severa falha porque não atua na prevenção, não garante proteção real à mulher no período mais perigoso — o da tentativa de autonomia — e porque a certeza da punição ainda é baixa: investigações lentas, subnotificação, falhas na concessão de medidas protetivas e dificuldade de acesso à rede de proteção reduzem o efeito dissuasório da lei. Como resume Cerqueira, o problema central não é a ausência de pena, mas a ausência de proteção antes do último ato.
E segue crescendo...
Segundo a SDS-PE, os casos de feminicídio no estado cresceram em 2025, chegando a 88 ocorrências — o maior número em pelo menos seis anos — o que representa um aumento de 15,7% em relação a 2024.
Pesquisadores da área de violência de gênero, como Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), e equipes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), apontam que há um atraso estrutural entre a dinâmica atual da violência contra a mulher e a produção acadêmica sobre o tema.
Segundo os especialistas, a violência se reorganizou nos últimos anos com o uso de ferramentas digitais, ampliando práticas de controle, perseguição e ameaça, enquanto o sistema de proteção às vítimas não consegue acompanhar a velocidade da reincidência, mesmo em casos com medida protetiva e monitoramento eletrônico.
Com colaboração de Luciana Queiroz
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