"Só peço paz": pai desabafa após perder esposa e filho explosão em terreiro
Homem pede respeito à dor da família e relata como contou à filha de 7 anos sobre a morte da mãe e do irmão
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A dor de perder a esposa e o filho ao mesmo tempo deixou o pai da família, identificado apenas como Cláudio, sem chão. Foi no terreiro Ilê Aiê Logun Edéh, em Igarassu, onde uma explosão durante uma cerimônia terminou tirando a vida do seu bebê de 1 ano e oito meses e da mãe da criança, Michely Mário da Paz Tavares, de 39 anos. Os dois faleceram nesta última quinta-feira (28), respectivamente pela manhã e no início da noite.
“Minha esposa descansou no Senhor. Eu só peço, eu só quero agora paz. Preciso terminar de vencer esse momento difícil que eu tô, né?, disse Cláudio, em entrevista concedida ao repórter Carlos Simões no Instituto de Medicina Legal. A matéria foi exibida no JT1 desta tarde.
Pedido de respeito
O pai, que também é ligado ao terreiro, fez questão de frisar que não tem nada a esconder, mas que não quer ser exposto em momentos tão delicados. Ele pediu para ter a imagem preservada. “O que eu tinha pra falar, já falei. Agora, tocar na ferida direto, isso me dói muito.”
Segundo ele, a forma de reagir à tragédia é manter a dignidade:
“Eu tenho que respeitar e ser o mesmo Cláudio que eu era quando meu filho estava vivo, no meu braço, com a minha esposa, presente comigo. Momento difícil que eu passei, momentos felizes.”
Cláudio não sabe exatamente o que aconteceu no dia do acidente, mas era uma cerimônia de limpeza espiritual que se realiza em agosto em todos os terreiros.
Fogo e velas marcam rituais de limpeza em terreiros de candomblé
Em agosto, diversos terreiros de candomblé realizam cerimônias coletivas de limpeza espiritual, conhecidas como lavagem de agosto ou reunião para lavar o povo. O objetivo é afastar energias negativas e fortalecer o axé da comunidade religiosa para o restante do ano. Normalmente, neste tipo de ocasião, crianças não participam.
O fogo tem papel central nesses rituais. Ele simboliza purificação e transformação, sendo utilizado para renovar forças e abrir caminhos. Velas são acesas como oferenda aos orixás e também para iluminar o espaço sagrado.
Embora em algumas casas seja comum o uso de álcool para manter a chama acesa, especialista que conversou com o Tribuna Online PE lembra que a tradição não exige líquidos inflamáveis. A chama ritual pode ser feita apenas com velas ou lamparinas, sem riscos adicionais.
A saudade e a filha de 7 anos
Entre as lembranças, Cláudio destacou a força dos laços que uniam a família.
“A saudade que eu tenho dessa grande mulher é muita. Muitos momentos felizes. A gente tem uma irmandade muito grande no terreiro, que é irmão de santo, a gente se ama mesmo, se abraça. E é difícil falar nesse momento, muito difícil.”
Ele também revelou como contou à filha mais velha, de 7 anos, sobre a morte da mãe e do irmão:
“Eu disse que a mamãe dela e o irmãozinho dela viram uma estrelinha no céu. Não tem noção, né? Vai sentir pra frente. É um momento de muita dor pra família.”
Família espera resposta da investigação
Além da dor, a família também aguarda esclarecimentos sobre as condições de segurança do local.
“A gente recebeu informação da polícia de que o terreiro não tinha bombeiro civil nem extintor. A gente ficou sabendo que tinha sido um acidente. Porém, se foi ou não, a gente espera uma resposta. Espera que a polícia responda, esclareça tudo, né? É isso aí. A gente espera isso. Mas… sem palavras pra explicar. Esse momento é difícil pra gente”, concluiu a irmã de Michely, que também pediu para não ser identificada.
O caso segue sob investigação da Polícia Civil de Pernambuco, que apura se houve falhas no uso de materiais inflamáveis durante o ritual e a ausência de equipamentos de segurança.
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