Nove tiros: sem ser o alvo, mulher morre em cima da sua bebê ao tentar protegê-la
Crime em Nova Descoberta escancara padrão: alvo não é encontrado, mulher vira substituto e morre dentro de casa
Ela não era o alvo.
Mas estava disponível.
Beatriz Maria Oliveira de Souza, de 28 anos, foi assassinada com nove tiros dentro da própria casa, na Zona Norte do Recife. Morreu tentando proteger a filha de sete meses. Ao tentar proteger a bebê, perdeu a vida em cima do corpo da criança. Beatriz virou abrigo. Virou escudo. Virou estatística.
Segundo a Polícia Civil, os criminosos procuravam o companheiro dela, que não estava no local. Diante da ausência do homem, que não teve o nome divulgado, a violência escolheu outra vítima. Mais acessível. Mais vulnerável. Mulher. Dois homens teriam participado do homicídio, segundo investigações preliminares.
Quando o crime não encontra o alvo, cria outro
A execução aconteceu por volta de 1h30 da madrugada desta quarta-feira (4), no bairro de Nova Descoberta. Beatriz estava com as duas filhas: uma criança de dois anos e um bebê. Nenhuma delas foi atingida. Todos os disparos acertaram a mãe.
A cena se repete em Pernambuco e no Brasil:
o alvo não aparece,
o recado precisa ser dado,
alguém paga no lugar.
Não é erro.
É método.
O corpo que protege e paga
Após os tiros, a bebê ficou por vários minutos presa sob o corpo da mãe, até a chegada da Polícia Militar. Estava coberta de sangue. As pernas já começavam a ficar arroxeadas. Foi retirada por policiais e vizinhos, que deram banho e comida à criança.
A filha de dois anos presenciou o assassinato.
O instinto materno salvou as crianças.
Mas custou a vida da mulher.
“Ela não mexia com nada”
Uma das irmãs, pedindo anonimato, desbafou: Beatriz não tinha envolvimento com crimes, drogas ou conflitos. Era descrita como mãe dedicada, filha presente, mulher comum — comum demais para um sistema que normaliza mortes assim.
“Ela não mexia com nada errado”, repetiu a irmã.
E ainda assim morreu.
Violência que escolhe gênero e território
A polícia apura a participação de pelo menos dois suspeitos. A perícia confirmou que Beatriz foi atingida no rosto, no tórax e nos braços. O companheiro dela será intimado a depor.
Ele já teve passagem por homicídio e, segundo a investigação, pode ser usuário de drogas. Cachimbos de crack foram encontrados na residência — linha de investigação, não conclusão.
Mas a estrutura do crime não depende dessa resposta.
Porque, independentemente de quem era o alvo, quem morreu foi uma mulher dentro de casa, diante das filhas, em um bairro periférico.
Nada disso é aleatório.
A mensagem deixada no chão da casa
A mensagem não foi deixada para Beatriz.
Foi deixada para quem sobrou.
Esse tipo de crime ensina pelo terror. Ensina que o corpo feminino é moeda de troca. Ensina que a casa não é refúgio. Ensina que, na ausência do homem procurado, a mulher serve.
O bebê sobreviveu.
A criança de dois anos pode crescer com essa imagem.
A cidade e o estado seguem contabilizando mortes como esta.
E o sistema, mais uma vez, é uma roda viva.
As investigações foram iniciadas pelo delegado Douglas Camilo. A Polícia Civil continuará apurando o caso.
E você pode se perguntar: por que algumas mulheres escolhem este perfil de homem?
A recorrência de mulheres mortas em conflitos que não criaram não pode ser explicada por escolhas individuais isoladas. Pesquisadores como a socióloga Heleieth Saffioti destacam que a violência de gênero é um fenômeno estruturado em relações sociais desiguais.
• Território importa
Em áreas marcadas por pobreza, ausência do Estado e violência constante, as opções de afeto, proteção e sobrevivência são limitadas. Relação também é contexto.
• A violência chega antes do alerta
Homens envolvidos com criminalidade raramente se apresentam como risco no início da relação. O histórico violento, quando existe, costuma surgir depois ou se intensificar ao longo do tempo.
• Dependência não é fraqueza
Dependência econômica, emocional e social aprisiona. Romper vínculos custa caro — e, em muitos casos, custa a própria vida.
• O sistema falha antes do casal existir
A falha começa antes da relação: na educação, na política de drogas ineficaz, na ausência de proteção às mulheres e na falta de presença do Estado. A relação nasce dentro desse vazio.
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