Polícia Civil diz que atentado contra secretária da Mulher do Cabo foi forjado
Investigação revela que tiros foram disparados pelo pai do motorista após encontro de 17 segundos à beira da estrada; servidores foram afastados
A comoção pública que tomou conta de Pernambuco diante do suposto crime de gênero desmoronou sob o peso das imagens de segurança e da perícia técnica. No dia 26 de março, o chassi perfurado de uma caminhonete na rodovia PE-28 parecia contar a história de uma emboscada violenta contra a secretária executiva da Mulher do Cabo de Santo Agostinho, Aline Melo, e seu motorista, Ewerton Eduardo.
Cinquenta e três dias depois, o cenário se inverteu por completo. A Polícia Civil concluiu o inquérito apontando que o atentado não passou de uma farsa milimetricamente planejada, resultando no indiciamento de três pessoas e no afastamento imediato dos servidores públicos de suas funções.
A farsa que mobilizou o aparato do Estado gerou manifestações de solidariedade nas redes sociais e repercussão na imprensa, começou a ser desfeita por um detalhe temporal de apenas 17 segundos capturado por lentes de monitoramento. Três personagens dividiram o roteiro da simulação: a secretária, o motorista e o pai dele, um homem cuja identidade não foi divulgada, responsável por puxar o gatilho contra o próprio veículo do filho. Cada um agora responde na medida de sua atuação no plano que tentou enganar a opinião pública e as autoridades policiais de Pernambuco.
O roteiro da mentira na PE-28
As investigações foram feitas pela delegada Myrthor Freitas, titular da 14ª Delegacia de Polícia de Homicídios (14ªDPH) e pelo delegado Eduardo Tabosa.
No dia 27 de março, a Delegacia de Homicídios do Cabo de Santo Agostinho recebeu Aline Melo e Ewerton Eduardo. Segundo a delegada Myrthor Freitas, o relato inicial dos dois era harmônico, construído com precisão cronológica. Declararam que haviam deixado o expediente na prefeitura no fim da tarde do dia 26, cruzado a área de obras nas proximidades da Praça do Jacaré e acessado a PE-28, rodovia que corta o Litoral Sul do estado em direção à praia de Gaibu. No primeiro depoimento, ambos sustentaram que a viagem transcorria sem sobressaltos, sem que notassem qualquer perseguição por carros ou motocicletas nas proximidades do veículo.
O motorista detalhou a suposta abordagem com riqueza de detalhes. Afirmou à delegada Myrthor Andrade que, em um trecho escuro da rodovia, percebeu pelo retrovisor a aproximação rápida de uma motocicleta equipada com fortes faróis de LED. O motociclista teria tentado uma ultrapassagem perigosa pela direita, utilizando a banqueta que serve como acostamento precário na via. Ewerton contou que olhou para a frente e, ao checar novamente os espelhos, perdeu o veículo de duas rodas de vista. Foi nesse instante que o som do primeiro estampido quebrou a noite.
A narrativa simulada incluía ordens de proteção e desespero. O motorista declarou ter gritado para que a secretária se abaixasse no banco do carona enquanto um segundo disparo atingia a lataria da caminhonete. Para escapar do suposto executor, ele teria acelerado o carro, ultrapassado um caminhão que trafegava lentamente pela estrada e visto a moto com faróis de LED fazer o contorno na pista para fugir na direção da PE-60. A comoção em torno do caso se espalhou no dia seguinte, tratando o episódio como uma afronta direta às políticas públicas de proteção à mulher no município. O Cabo tinha contabilizado um feito inédito: um ano sem feminicídio.
O detalhe invisível capturado pelas câmeras
A farsa começou a ruir quando a equipe de investigação recolheu as mídias de armazenamento dos estabelecimentos comerciais situados ao longo da PE-28 e das rotas de fuga possíveis. Os investigadores foram além do perímetro imediato do suposto crime, mapeando os passos da caminhonete desde a saída do centro urbano. Uma das câmeras registrou o exato momento em que o veículo da prefeitura reduziu a velocidade e estacionou no acostamento de areia da rodovia, minutos antes do horário apontado para o início dos disparos.
As imagens mostraram uma motocicleta emparelhando com a caminhonete. Era o mesmo veículo com faróis de LED descrito pelo motorista no boletim de ocorrência. Durante 17 segundos, o carro e a moto permaneceram estáticos, com os condutores interagindo em uma conversa rápida à beira da pista deserta. No cruzamento de dados, a Polícia Civil descobriu que o pai do motorista possuía uma motocicleta com as mesmíssimas características estéticas daquela utilizada na suposta emboscada.
Convocado a prestar esclarecimentos, o pai de Ewerton tentou criar um álibi inicial, negando categoricamente ter retirado o veículo da garagem de sua residência na noite do dia 26. Sustentou que seu único deslocamento ocorreu horas mais tarde, fazendo um trajeto curto de sua casa até a delegacia de circunscrição do Cabo para acompanhar o filho supostamente vitimado. Ele garantiu aos investigadores que a rota utilizada não passava pelas imediações da PE-28, ignorando que o monitoramento digital já havia registrado seus passos na cena do crime.
O silêncio e o álibi das canetas emagrecedoras
Com as provas em mãos, a delegada Myrthor Andrade convocou os três envolvidos para depoimentos simultâneos de confrontação. Diante das telas que exibiam o encontro prévio na rodovia, as reações divergiram. O motorista Ewerton Eduardo, por orientação expressa de sua defesa jurídica, preferiu manter o silêncio absoluto na sala de interrogatórios, recusando-se a responder às perguntas formuladas pela autoridade policial.
Aline Melo mudou a versão dos fatos assim que a imagem do monitor foi pausada no frame que mostrava a caminhonete estacionada. A secretária alegou ter sofrido um lapso temporário de memória e justificou o silêncio anterior dizendo ter recordado do encontro apenas naquele instante. Ao ser questionada sobre a duração de 17 segundos da parada, afirmou não ter percebido o tempo passar e começou a formular hipóteses na mesa de depoimentos, sugerindo que o motorista poderia ter entregado ou recebido uma encomenda rápida do motociclista, cuja identidade ela alegou desconhecer por completo.
A farsa, segundo a polícia, ganhou contornos definitivos quando o pai do motorista desfez a primeira versão e admitiu ser o homem montado na motocicleta nas imagens capturadas. Para tentar justificar a omissão do encontro na primeira oitiva, ele e a secretária apresentaram uma nova história aos investigadores: o encontro serviu para a entrega de canetas emagrecedoras importadas. O motorista argumentou que omitiu o fato por receio de que o comércio dos produtos fosse considerado uma atividade ilícita pelas autoridades, minimizando a relevância de esconder que o suposto atirador era, na verdade, o pai do condutor do carro.
A precisão do tempo desfaz o argumento
A linha de defesa ruiu definitivamente com a análise do fluxo de tráfego feita pela equipe de investigação. O monitoramento de um restaurante localizado na PE-28 registrou a passagem cronológica exata dos veículos. O circuito mostrou a caminhonete e a motocicleta seguindo no sentido Gaibu e, minutos depois, registrou o retorno da moto na direção contrária. Pouco tempo depois, o carro com a secretária e o motorista também apareceu fazendo o caminho de volta em direção ao centro do Cabo.
Para tentar explicar o retorno repentino após o suposto tiroteio, de acordo com a polícia, os indiciados criaram uma nova narrativa, afirmando que a entrega das canetas emagrecedoras ocorreria em Gaibu, mas que o motorista recebera uma ligação telefônica informando que o pagamento deveria ser feito por meio de uma máquina de cartão de crédito na sede do município.
A análise técnica da delegada Myrthor Andrade descartou a veracidade da versão, apontando que a dinâmica dos tempos das câmeras tornava a história impossível de ter acontecido daquela forma. Não seria crível que o pai estivesse logo atrás do carro, o disparo ocorresse, o retorno fosse imediato e o telefonema só acontecesse muito tempo depois.
O monitoramento do restaurante também liquidou a possibilidade de um quarto elemento na cena. No lapso temporal compreendido entre a ida da moto, os disparos na rodovia e o retorno da caminhonete, os investigadores constataram que nenhuma outra motocicleta circulou por aquele trecho da PE-28. O tráfego na via apresentou uma sequência idêntica de carros na ida e na volta, isolando o veículo do pai do motorista como o único presente no ponto exato onde os projéteis perfuraram a lataria do carro oficial.
O perigo real do dolo eventual e o desfecho
A perícia do Instituto de Criminalística confirmou que a caminhonete foi atingida por dois disparos de arma de fogo de curto alcance. No entanto, a simulação quase se transformou em uma tragédia real na escuridão da PE-28. A análise técnica dos ângulos de entrada dos projéteis revelou que um dos tiros passou a poucos centímetros de atingir a cabeça de um dos ocupantes do banco dianteiro. Pela falta de iluminação e pela ausência de acostamento plano no local, o homem que atirou assumiu o risco de matar o próprio filho ou a secretária executiva.
"O motorista e a secretária moveram desnecessariamente a máquina pública, ativando sistemas técnicos e humanos de investigação que deveriam estar dedicados a crimes reais", pontuou a delegada Myrthor Andrade ao encerrar o caso.
Diante das evidências materiais, a Polícia Civil indiciou Aline Melo e o motorista Ewerton Eduardo pelos crimes de falsa comunicação de crime, denunciação caluniosa e fraude processual. O pai do motorista, responsável pelos disparos, foi indiciado por tentativa de homicídio com dolo eventual, devido ao risco real de morte criado pela imperícia na execução dos tiros no ambiente escuro da rodovia. O inquérito foi relatado e encaminhado ao Ministério Público de Pernambuco, que agora possui a responsabilidade de apresentar a denúncia formal ao Poder Judiciário.
A repercussão política foi imediata na estrutura administrativa municipal. Em nota oficial emitida nesta segunda-feira, dia 18 de maio, a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho informou que, diante dos fatos apresentados pela Polícia Civil, determinou o afastamento imediato de Aline Melo do cargo de secretária executiva da Mulher, bem como a suspensão das funções do motorista envolvido. A gestão municipal declarou que vai acompanhar a tramitação do processo judicial e que adotará sanções administrativas adicionais caso as condutas criminosas sejam ratificadas pelas sentenças da Justiça.
Silêncio nas redes sociais
Aline Melo, que falou sobre o crime nas redes sociais, e vinha cobrando providências da polícia, não se posicionou até o momento. O Tribuna Online PE não conseguiu localizar os indiciados.
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