Nove presos: operação mira quadrilha que fraudava concursos há 10 anos em PE
Grupo cobrava até R$ 70 mil por aprovação e infiltrava integrantes nas bancas; dois policiais estavam envolvidos nas fraldes
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Uma organização criminosa suspeita de fraudar concursos públicos há cerca de uma década foi alvo de uma operação da Polícia Civil de Pernambuco, nesta quarta-feira (25). O grupo cobrava valores que começavam entre R$ 2 mil e R$ 5 mil para acesso ao esquema e exigia pagamentos de até R$ 70 mil após a aprovação.
Ao todo, foram expedidos 11 mandados de prisão, nove foram presos e dois estão foragidos. Houve 22 mandados de busca e apreensão, além do bloqueio de ativos financeiros, por determinação da 15ª Vara Criminal da Capital.
As investigações apontam que a quadrilha atuava de forma estruturada, com divisão de tarefas e infiltração direta nos concursos. Integrantes conseguiam acesso antecipado às provas e repassavam o conteúdo a candidatos que pagavam pelo gabarito ilegal. Em alguns casos, os beneficiados utilizavam dispositivos eletrônicos para receber as respostas durante a prova; em outros, levavam anotações escondidas no corpo.
Esquema comprometia segurança pública
De acordo com o delegado Júlio César Pinheiro, o impacto do esquema vai além da fraude e atinge diretamente a estrutura do serviço público.
“Um dos grandes problemas é a possibilidade de uma organização criminosa infiltrar uma pessoa em locais tão sensíveis, como o Tribunal de Justiça, cujos funcionários muitas vezes têm acesso a processos em andamento, cautelares, sigilosas e, enfim, esse é um grande problema.”
O delegado também destacou que os valores cobrados criavam uma espécie de dívida entre os aprovados e a organização criminosa.
“Porque eles pagam a título de entrada, para pagar aqueles equipamentos básicos, como ponto auricular. Mas, depois que ingressam, tem um volume muito grande de R$ 50 a R$ 70 mil a serem pagos. Esse comissário ter que quitar essa dívida, fornecendo informações para a organização criminosa, é algo muito sensível para a segurança pública, muito preocupante”.
Infiltração nas bancas e uso de tecnologia
Segundo a investigação, o grupo atuava infiltrando pessoas na organização dos concursos, em funções como fiscalização e coordenação.O delegado não citou todos os concursos onde há suspeição, apenas um do TJPE..
“Com relação a essa organização criminosa específica, ela tem atuado de um modo bem característico, infiltrando uma pessoa da organização na banca que vai realizar aquele concurso. Ela é infiltrada como coordenadora, como fiscal. De alguma maneira, ela consegue acesso antecipado ao conteúdo daquelas provas e repassa para a liderança da organização criminosa”, explicou o delegado.
A partir daí, o material era distribuído e resolvido por terceiros antes de chegar aos candidatos.
“Alguns utilizavam pontos eletrônicos. Existe um dispositivo eletrônico que simula um cartão de crédito que recebe ligações de celular e, conectado via bluetooth ao ponto eletrônico, transmite aquele áudio do celular ao ponto. Outras pessoas conseguiram receber antecipadamente as respostas, anotavam mesmo em alguns papéis e escondiam pelo corpo.”
Envolvimento de agentes públicos
A polícia também identificou a participação de agentes de segurança pública no esquema. Até o momento, quatro foram citados: três como integrantes da organização criminosa e um como cliente.
“Sim, a operação teve como objetivo desarticular essa organização criminosa, que fraudou, ficou constatado, comprovado, tanto é que o concurso (do TJPE) foi anulado por conta disso”, afirmou o delegado.
Os investigados devem responder por organização criminosa, fraude em concurso público e lavagem de dinheiro. A operação, batizada de “Kýma”, mobilizou 130 policiais civis e contou com apoio de órgãos de inteligência e forças de outros estados. O termo Kýma é usado para se referir a movimento contínuo, propagação — algo que se espalha.
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