De 6 para 16 vítimas: o rastro de horror da família de pedófilos de Olinda
Irmãos presos nesta madrugada usavam lanches e games para atrair crianças; pai e irmã também são investigados
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Com informações de Carlos Simões, Rafaella Pimentel e Rubens Marinho
A coragem de um adolescente de 13 anos, que usou o celular para filmar o próprio abuso, desmoronou um silêncio de décadas no bairro de Rio Doce, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife. O que parecia um caso isolado revelou uma rede de pedofilia familiar que já soma 16 vítimas confirmadas pela polícia até esta quinta-feira (5). Estão presos os irmãos Francisco Fernandes de Lima Souza, o "Chiquinho" (44), e Alexandre Fernandes de Lima Souza, o "Boca" (45).
De um dia para o outro, o volume de denúncias aumentou. Era uma vítima, inicialmente. O número passou para seis, para 12 e, nesta manhã de quinta-feira (5), mais quatro se apresentaram à delegacia. Serão, ao todo, 16 inquéritos. O caso chocante foi revelado em primeira mão pela equipe do JT1 da TV Tribuna PE/Band.
O tipo de crime remete a um novelo de lã. Após a revelação da TV Tribuna, à polícia puxou o primeiro fio e o que veio em seguida revelou um emaranhado de crimes que já dura cerca de 20 anos, com marcas de dor deixadas nas crianças. Algo que também leva a crer que, ou as famílias das vítimas se omitiram, ou não sabiam, o que também será investigado.
A caçada no Agreste
Após a vítima de 13 anos, que sofria desde os 9 anos, gravar e divulgar um vídeo do abuso sexual, Francisco, o "Chiquinho", tentou apagar seus rastros fugindo para o Sítio Tiririca, na zona rural de São João, cidade próxima a Garanhuns, no Agreste pernambucano.
Escondido na casa de uma tia, ele não contava com a repulsa dos próprios parentes, que já haviam visto as imagens do crime circulando na internet. Temendo uma nova fuga, a família denunciou o paradeiro à Polícia Militar. E ele foi preso naquele município.
O delegado Gilmar Rodrigues, que comandou a operação pela Delegacia de Rio Doce, saiu de Olinda para o interior de Pernambuco para conduzir a prisão. Ele descreveu a postura do preso “horrorosa” durante o deslocamento para Olinda:
"Lá, nós conversamos com o Chiquinho, ele confirmou tudo, com detalhes. Ele veio confessando, confirmando detalhadamente, de forma horrorosa, como eles aliciavam as crianças e as mantinham sob um jugo por conta do dinheiro, dos jogos de videogame e dos presentes", detalhou o delegado ao repórter Carlos Simões.
O cinismo do "Boca" e o tribunal do crime
Enquanto o irmão fugia, Alexandre, o "Boca", estava escondido em Olinda, em local não divulgado. Ele só foi entregue à polícia após o comando do tráfico de drogas local decretar a morte e o esquartejamento da dupla devido à repercussão do caso. Diante das câmeras, Alexandre exibiu um cinismo cortante, tentando isolar a culpa no irmão:
"Estão me acusando sem prova nenhuma. Foi ele que fez tudo sozinho", afirmou Alexandre na saída da delegacia em entrevista à repórter Rafaella Pimentel. Ele ainda acrescentou, dizendo estar sendo alvo de denúncia injusta porque “tem uma família lá que não gosta da gente”, arrematou, sem saber que foi delatado pelo próprio irmão e com detalhes.
A investigação desmente a versão de Alexandre. O delegado Gilmar Rodrigues foi enfático ao responder o questionamento do repórter Carlos Simões sobre o envolvimento de ambos:
"Em alguns vídeos, vai se observar que o Boca (Alexandre) estava presente. O Francisco contou de forma detalhada que no mesmo período que ele praticava esses abusos, o Boca também praticava. Eles se revezavam a tarde toda, a noite toda".
Os crimes, segundo o delegado, envolveu quase todas as crianças da comunidade. A rua não será revelada em respeito ao Estatuto da Criança do Adolescente.
Uma casa sem portas e sem proteção
O cenário dos crimes é o retrato da omissão e do horror e envolviam crianças em situação de vulnerabilidade. Os abusos aconteciam em um terreno com três casas integradas — do pai e das duas irmãs dos presos. Sem portas e divididas apenas por lençóis e pedaços de pano, as residências eram o palco onde crianças de 6 a 13 anos eram violadas enquanto a família seguia a rotina.
Era uma "clã" de vulneráveis explorando sexualmente meninos e meninas em situção ainda mais delicada - crianças que se tornaram invisíveis em meio a tanta dor e viveram sob o peso do medo, das ameaças, do silêncio e de um braço forte para pedir socorro.
Veja como esse silêncio foi quebrado aqui:
“Eles (a família de pedófilos) trabalhavam com reciclagem, pegavam o dinheiro para botar crédito em jogos de videogame, no celular, pagar lanche e dar em dinheiro, então eles mantinham as crianças naquela localidade e abusavam."
Questionado sobre a conivência dos parentes (do clã) que viam tudo e não denunciavam, o delegado Gilmar Rodrigues garantiu que a punição será ampliada:
"Os familiares (dos presos) eram coniventes. Eles presenciavam, eles sabiam. Os vídeos mostram eles abusando de diversas crianças e os familiares sabiam porque era a tarde toda. Todos eles responderão criminalmente no concurso de pessoas, pela omissão. O Estado tem a obrigação de proteger os vulneráveis", disse, dando a entender que teve acesso a mais imagens, além da fornecida pelo adolescente.
Vítimas do passado: um trauma de 20 anos
A rede de abusos parece ser herança de família. Além das crianças atendidas atualmente, adultos procuraram a delegacia para relatar crimes ocorridos há duas décadas. Um homem de 30 anos revelou que, aos 11 anos, foi abusado pela irmã dos atuais presos e acabou engravidando a mulher na época. A paternidade foi confirmada por meio de exame de DNA, para choque da vítima.
A polícia agora trabalha para localizar o pai e a irmã, que seguem em liberdade, mas estão no centro da investigação que pode revelar ainda mais vítimas dessa estrutura de horror em Rio Doce. Também há outra irmã, cujo papel ainda não foi revelado.
Do Agreste à Região Metropolitana
A caçada aos irmãos envolveu dois cenários distintos. Em São João, no Agreste, Francisco ("Chiquinho") foi denunciado por parentes de um sítio que se revoltaram ao descobrir o crime pela internet. Já em Olinda, a denúncia que levou à prisão de Alexandre ("Boca") partiu do núcleo familiar do Grande Recife. Segundo o delegado, esses parentes — que antes silenciavam sobre os abusos — decidiram falar apenas quando o "tribunal do crime" decretou a morte dos irmãos.
Apesar de Alexandre 'Boca' afirmar que se apresentou voluntariamente à polícia por estar sendo ameaçado de morte, a versão da investigação é diferente. O delegado Gilmar Rodrigues revelou que o suspeito foi preso após familiares em Olinda, acuados pelo 'tribunal do crime', denunciarem o esconderijo dele durante a madrugada.
Veja outros trechos da entrevista do delegado Gilmar Rodrigues ao repórter Carlos Simões
Delegado, explica para a gente como aconteceu a prisão do Francisco, lá em Garanhuns?
Gilmar Rodrigues: Assim que as vítimas chegaram à delegacia, nós fomos imediatamente à residência prender o Chiquinho. Ele já tinha empreendido fuga para Garanhuns e de lá para a cidade de São João. Ele foi detido e conduzido para a delegacia de São João. Lá, nós conversamos com o Chiquinho, ele confirmou tudo, com detalhes. Ele foi conduzido aqui para Olinda, onde foi autuado em flagrante. Nesta mesma madrugada, os familiares entregaram e denunciaram o Boca (Alexandre), diante da ordem de morte dada pelo tráfico, e ele também foi preso.
O senhor disse que pelo menos 12 meninos foram abusados durante cinco anos. Esses familiares viam todo o abuso e não denunciavam. Por que isso, delegado?
Os familiares denunciaram o local onde estava o Boca para salvá-lo da morte, não para denunciar o crime. Eles eram coniventes. Os vídeos mostram que, durante o horário de almoço, eles abusavam de diversas crianças com sexo oral, anal e masturbação.
Como a casa não tem divisórias, é feita com cortinas e lençóis, eles presenciavam. Eles mantinham as crianças naquela localidade e abusavam na cama, no chão, no sofá, na cozinha e no banheiro.
Esses familiares também serão indiciados, responderão criminalmente no concurso de pessoas, na omissão, então todos eles. E isso vale para todos os familiares que têm conhecimento e que não denunciam: responderão criminalmente quando forem denunciados e presos por essas práticas de abuso sexual contra crianças vulneráveis.
Os dois abusavam ao mesmo tempo dessas crianças?
Gilmar Rodrigues: Exatamente. Ao mesmo tempo ou se revezavam a tarde toda e a noite. Como ele disse, a tara dele era por meninos. Somente três vítimas são maiores de idade hoje, mas foram abusadas dos 6 aos 14 anos. O resto são crianças de 6 a 13 anos. A maioria é de meninos.
O Alexandre negou o crime à nossa equipe. Para o senhor, os dois confessaram?
Gilmar Rodrigues: Em alguns vídeos, vai se observar que o Boca (Alexandre) estava presente. Ele está negando por causa da ameaça de morte do tráfico, mas o Francisco (o outro irmão) contou de forma detalhada que o Boca também praticava.
O que os pais que suspeitam de algo devem fazer agora?
Gilmar Rodrigues: É só ir na delegacia de Rio Doce e me procurar. Temos uma sala exclusiva, separada, para que sejam ouvidos de forma individual e confidencial. As crianças não são ouvidas naquele momento; será marcada uma escuta especializada com psicólogos e assistentes sociais para acolher a verdade e robustecer as provas.
Eles valorizavam o lixo reciclável...
O incrível desta história é como o clã de pedófilos, que trabalhava para reaproveitar o lixo reciclável, descartava crianças já invisibilizadas entre casas sem portas por décadas. Com as prisões, Rio Doce tenta agora estancar uma ferida aberta pela omissão, na esperança de que a justiça seja o primeiro passo para curar traumas que o tempo sozinho não apaga.
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