O fenômeno das elétricas que conquistou o Recife em dois meses
Com promessa de rodar 40 km por apenas R$ 1,00, a MotoChefe abre as portas no Recife e já planeja hub tecnológico para o Nordeste
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O recifense acorda com um nó na garganta e outro no trânsito. A cena é repetitiva, quase um fado urbano: a velocidade média dos carros na capital é de 20 km/h, em média. É um passo de cágado em um asfalto que ferve. Foi nesse cenário que a MotoChefe desembarcou em Pernambuco em dezembro e, em apenas 60 dias, viu o estoque de mais de 100 unidades evaporar. O motivo? O bolso e o relógio falaram mais alto.
Romero Leão, o homem à frente da operação local, enxergou o óbvio que ninguém queria ver. "Recife tem um trânsito complicado. Se você pega um veículo autopropelido, que anda em ciclofaixa, chega mais rápido do que um carro", afirma. Para ele, a conta é simples e visual: "Uma moto elétrica na rua é um carro a menos na rua. Você está desafogando um trânsito caótico". É a lógica do desabafo. Para ele, onde há um trambolho de metal ocupando dez metros quadrados para carregar uma pessoa, agora existe uma scooter cortando o vento.
O número 100 pode parecer pequeno, à primeira vista, mas não é. As motos elétricas ainda enfrentam barreiras como o preconceito com a autonomia e as dúvidas sobre a legislação (o que vamos esclarecer). Vender uma média de 50 motos por mês significa que a loja está conseguindo converter um cliente a cada 1,6 dia. Para um ticket médio que costuma variar entre R$ 7 mil e R$ 14 mil, o faturamento inicial é robusto.
O "Quem é Quem" no asfalto: a regra do jogo
A explosão das elétricas no começo de 2026 não foi por acaso. O estopim foi a Resolução 996/2023 do Contran, que organizou o "bangue-bangue" das calçadas. Romero explica que o consumidor ainda tropeça na confusão de nomes, mas a chave para não ser parado em blitz é entender a potência. "Tudo gira em torno da velocidade e da força do motor", diz ele.
Na base da pirâmide estão as bicicletas elétricas. Elas são o purismo da mobilidade: até mil watts de potência, sem acelerador na mão, apenas o pedal assistido. Não exigem CNH, não tem taxas, é permitido para menores de idade e não precisam de placa. São as rainhas das ciclovias.
Um degrau acima, surgem os autopropelidos. Eles se assemelham às bikes, também limitados a 32 km/h, mas com um detalhe que seduz: o acelerador. "Seu pé fica parado e o acelerador na mão faz o serviço", detalha Romero. Para esses dois grupos, a liberdade é total, sem taxas do Detran ou exames de habilitação.
É justamente nos dois veículos acima que a MotoChefe mais aposta. Até 1,2 kW (1.200W) e velocidade máxima de 32 km/h o equipamento é considerado como de mobilidade individual (como patinetes e algumas bicicletas elétricas).
A brincadeira fica mais séria quando o motor ruge mais forte. Quando passa de 32km/h, a partir dos 50 km/h, entramos no terreno dos ciclomotores e motonetas. Aqui, o rigor da lei é o mesmo das motos à combustão. É preciso placa, licenciamento e a famosa ACC ou Categoria A. "O que define as exigências são as permissões da potência", resume o empresário. É o fim da zona cinzenta legislativa.
A economia que cabe na tomada do quarto
Se o tempo ganho no trânsito é o prêmio emocional, o custo de rodagem é o troféu financeiro. Em um estado onde o preço da gasolina ainda pesa no bolso do trabalhador, a elétrica surge como uma afronta aos postos de combustíveis. A matemática de Romero é acachapante: carregar uma bateria leva cerca de quatro horas em uma tomada comum. "Em Pernambuco, isso custa menos de R$ 1,00. Com esse valor, você anda 40 quilômetros".
O visual dessa economia é poderoso. Imagine cruzar a cidade, ir e voltar do trabalho, gastando menos do que o preço de um cafezinho expresso. A barreira da infraestrutura — o medo de não ter onde carregar — também ruiu. "As baterias são 100% removíveis. Você deixa a moto na garagem (ou em outro local), sobe com a bateria para o apartamento e carrega como se fosse um celular", explica Romero. É a tecnologia servindo à conveniência.
E sobre a segurança?
A segurança é um dos principais pontos de atenção para quem circula de moto elétrica em Recife. Diante da violência urbana na capital, a vulnerabilidade dos condutores é combatida com o uso de tecnologia e proteção financeira. A loja MotoChefe passou a equipar todas as unidades com alarmes de controle remoto, similares aos de carros, e oferece um seguro próprio de baixo custo. A medida busca criar barreiras físicas e reduzir o prejuízo em casos de roubo, permitindo que o cliente contrate a proteção diretamente na loja.
O Hub e a experiência de "ver a cena"
O sucesso fulminante da loja do Recife acendeu um alerta na matriz da MotoChefe. A previsão é dobrar o número de unidades no Brasil ainda este ano, mas Pernambuco ganhou um status especial: será o hub tecnológico do Nordeste. O plano é instalar um centro de distribuição automatizado na Região Metropolitana. Não é apenas uma questão de vender motos, é sobre garantir que a peça e o suporte técnico cheguem antes da dúvida do cliente.
Mas Romero prefere falar de vida. Ele descreve a experiência de trocar o estresse de algumas avenidas pela brisa das ciclovias, que normalmente tem uma vista mais bonita da cidade, às veze, pela beira do rio: "Ir trabalhar pela ciclovia, em lugares mais bonitos, é uma experiência de qualidade de vida e liberdade muito grande". Para ele, o modal elétrico é o casamento perfeito entre a eficiência e o cuidado ambiental: sem queima de óleo, sem ronco ensurdecedor, sem emissão de gases.
No final das contas, o fenômeno das elétricas no Recife é um grito de independência. É o cidadão retomando o direito de se mover sem ser engolido pelo caos. E, como Romero faz questão de lembrar, com o pedestre sempre como prioridade. "O pedestre é o centro de tudo. Precisamos ter visão preventiva". A mobilidade mudou, o asfalto agora é silencioso e o futuro, ao que parece, carrega na tomada de casa.
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