Nota mil que não apaga: Wellington e o Nordeste que escreve o Brasil
Quando o barulho passa, ficam as histórias
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
Quando a semana do Enem passa, ficam os números. Mas é depois do barulho que algumas histórias pedem para ser contadas com mais cuidado. Não por atraso — por maturação. É nesse tempo mais calmo que a trajetória de Wellington Antonio Cabral Ribeiro Neto, 19 anos, encontra lugar na Coluna Pernambuco que encanta.
Dos sete estudantes que alcançaram a nota 1.000 no Brasil, seis são do Nordeste; Pernambuco teve dois nomes na lista: Wellington é um deles e caminha pelo Recife. Ele está exatamente aqui: não fora do seu tempo, mas à altura dele.
A nota 1.000 impressiona, mas não se explica sozinha. O dado aponta um movimento histórico da região, que substitui décadas de exclusão social e o estigma da seca por desenvolvimento econômico, cultura e autoestima.
O topo continua exigente e o contexto ajuda a explicar o novo cenário, mas o fato é que Wellington não é apenas exceção estatística — é o rosto de uma conquista extraordinária que confirma a força do novo Nordeste.
Nascido em Barreiros, na Zona da Mata Su do Estado, Wellington veio para o Recife em 2012, após o pai conseguir uma oportunidade de trabalho. Deu tempo de aproveitar a infância na rua com brincadeiras de bola de gude, bicicleta, esconde-esconde. E de dividir seu tempo com a internet, já na adolescência.
Alto, 1,85m, anda rápido, fala muito quando está entre amigos, mede palavras em público. “Sou um pouco dos dois, depende muito com quem estou falando”, resume. Há nele um cuidado que não é timidez — é escuta.
Ponto fora da curva
A presença massiva de nordestinos no topo da lista deste ano — 85,7% do total — interrompe a narrativa das "estatísticas da desgraça" que por décadas definiu a região em livros de sociologia. Pernambuco e Bahia lideram o grupo com dois estudantes cada; Ceará e Alagoas completam a lista regional. Fora do Nordeste, apenas o Rio de Janeiro registrou uma nota máxima.
O método do isolamento
Aos seis anos, Wellington trocou o interior pela capital quando o pai, o jornalista Wellington Cabral, agora com 39 anos, conseguiu uma oportunidade de trabalho. O caminho até a nota máxima não foi um acidente, mas um cálculo rigoroso de renúncia.
Estudante do Colégio GGE, Wellington sabia que faria uma boa prova. Mas não imaginava o topo. “Imaginava que a nota seria muito alta, por causa do meu esforço, mas 1000 era uma coisa muito distante”, contou. Quando viu o resultado, veio a confirmação: “Logo quando vi a nota, senti que todo o meu esforço foi recompensado”.
O caminho até ali foi de abdicações. Isolamento, menos convivência com amigos e família, rotina dura na reta final. Sem glamour.
“Eu abdiquei de saídas com os amigos e família e, na reta final, da prática de atividades físicas. Acho essencial o estudante fazer redações e simulados semanais (tanto para analisar seus erros quanto para treinar o tempo de prova).
Mas lembro: para os jovens que farão o ENEM neste ano, confiem no processo. Para que pessoas como eu estejam felizes hoje, houve muitos dias tristes. Vocês vão conseguir”.
O estudante agora mira as cadeiras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para cursar Direito. O objetivo é claro: quer ser professor universitário, devolvendo ao sistema o rigor que o levou ao topo.
A escrita como resolução
O tema da redação — "Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira" — exigiu dele uma visão sobre uma população que ele define como "muitas vezes esquecida".
Para Wellington, o processo de escrita serve para além da prova: "Promove a melhoria de áreas como gramática, argumentação e resolução de problemas cotidianos".
A vitória, compartilhada também com a mãe, a funcionária pública Alessandra Ferreira, é vista por ele como um marco político para a região. Quando questionado sobre a mudança de imagem do Nordeste, que virou lugar de inteligência aplicada, ele é direto: "O Nordeste, em um espaço de protagonismo, revela que essa região é muito mais que os estereótipos historicamente empregados a ela".
O xeque-mate: a escala do tempo
A coluna Pernambuco que Encanta desta semana escolhe Wellington não apenas pelo barulho da nota, mas pela consistência do que ela representa. Enquanto o mercado da notícia corre atrás do próximo fato, o jovem nascido em Barreiros permanece como o símbolo de uma mudança de relevo no mapa brasileiro.
Quando resume tudo que viveu em uma única palavra — determinação — Wellington não fala apenas do Enem. Fala de um modo de estar no mundo. De quem não espera atalhos. De quem escreve o próprio lugar, linha por linha.
O elefante e a vida
Existe um registro de sua infância onde o pequeno "Netinho", como é chamado pelos mais próximos, aparece montado em um elefante de pedra. Na imagem, ele está no dorso do animal, o olhar fixo e uma postura de quem já tentava dominar uma força muito maior que seu próprio tamanho.
Hoje, com quase dois metros de altura e o peso de uma conquista nacional nos ombros, a estátua de pedra finalmente ficou pequena. Wellington descobriu que, para mover o peso de séculos de preconceito contra o seu chão, não é preciso força bruta. Basta o rastro de tinta de uma caneta preta. O Nordeste não está mais esperando o futuro; o futuro é que está acompanhando o passo de Wellington.
A nota mil não o define.
Mas deixa claro: Ele já sabe onde pisa — e para onde quer ir.
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PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.