No Sertão, o calor não impediu o encontro com o gelo — e com o direito ao lazer
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
Há experiências que, para muita gente, sempre pareceram distantes demais para serem sonhadas. Patinar no gelo é uma delas. Durante décadas, essa vivência esteve associada a viagens longas, passagens aéreas caras, hotéis disputados e a um destino no Sul do país para os nordestinos: Gramado. Não era apenas turismo. Era um rito. Um privilégio. Algo que se alcança quando sobra dinheiro, tempo e oportunidade.
Mais que lazer, um símbolo
Por isso, quando uma pista de gelo se instala no Sertão pernambucano, em pleno Petrolina, o que está em jogo vai muito além do entretenimento. É simbólico. É político, no melhor sentido da palavra. É sobre acesso. É sobre direito.
Desde o último dia 5, a maior pista itinerante de patinação no gelo do Brasil passou a funcionar na cidade, como parte da programação do Natal Luz 2025 — um Natal estendido, deslocado do calendário, quase um gesto poético: levar o frio ao coração de um dos meses mais quentes do ano. Em uma região acostumada a lidar com temperaturas elevadas, o gelo surge como surpresa, contraste e encantamento.
O gelo no imaginário sertanejo
O Sertão, historicamente associado à dificuldade no acesso à àgua, agora experimenta o deslizar sobre o gelo. Crianças e adultos que nunca haviam calçado um par de patins, que nunca haviam sentido o frio artificial sob os pés, passam a experimentar algo que, até pouco tempo atrás, exigia sair de Pernambuco, cruzar estados, romper fronteiras financeiras.
Eu mesma já fiz esse caminho. Já saí daqui para viver essa experiência em Gramado. Sei exatamente o que ela representa. Sei o quanto ela marca. E sei, principalmente, o quanto ela não está ao alcance de todos.
Lazer também é política pública
Por isso, ver essa pista montada em Petrolina, com acesso gratuito, é perceber que lazer também é política pública. E das mais importantes. A Constituição brasileira garante o lazer como direito social. Mas, na prática, só quem não tem sabe o peso dessa palavra. Só quem cresce sem opções, sem parques, sem atividades culturais acessíveis, entende o que significa oferecer diversão sem cobrança, sem catracas simbólicas.
A gratuidade muda tudo. Democratiza. Inclui. Quebra a lógica de que certas experiências são “para poucos”. Ao exigir apenas inscrição, organização e responsabilidade, a pista abre espaço para algo raro: a sensação de pertencimento. O gelo deixa de ser um privilégio turístico e passa a ser um direito vivido no próprio território.
Quando o desejo é sentir o frio
Há também uma inversão curiosa — e bonita — nessa história. Normalmente, quem vive em regiões frias sonha com as praias do Nordeste, com o calor do sol, com o banho de mar. Aqui, no Nordeste, o desejo muitas vezes aponta para o contrário: conhecer o frio, a neve, o gelo. Tocar o que não faz parte da paisagem cotidiana. Viver o oposto.
A pista de gelo em Petrolina atende exatamente a esse desejo silencioso. Ela oferece o “estranhamento bom”, a experiência que amplia repertórios, que mostra às crianças que o mundo é maior do que os limites geográficos que as cercam. Que outras sensações são possíveis. Que o imaginário não precisa ser importado apenas pela televisão ou pela internet — ele pode ser vivido, sentido no corpo.
O corpo em movimento, o vínculo que nasce
E o corpo importa. Patinar exige equilíbrio, coragem, tentativa. Cai-se. Levanta-se. Ri-se. Aprende-se. Há ali esporte, movimento, socialização. Há mães segurando filhos, amigos se apoiando, desconhecidos compartilhando o mesmo espaço. O gelo, paradoxalmente, aquece vínculos.
Também é impossível ignorar o impacto simbólico de uma ação como essa no Sertão. Durante muito tempo, o Nordeste foi tratado como lugar da falta. Falta de infraestrutura, falta de lazer, falta de acesso. Iniciativas como essa rompem essa narrativa. Mostram que é possível pensar políticas públicas que não se limitem ao básico da sobrevivência, mas avancem para o campo do bem-estar, da experiência, da alegria.
Planejamento também é respeito
A pista funciona em horários organizados, com atenção à segurança, com regras claras, com cuidado com crianças, pessoas com transtornos e iniciantes. Não é improviso. É planejamento. E planejamento também é respeito.
Talvez seja isso o que mais emocione: a ideia de que alguém pensou nesse detalhe. Pensou que o Sertão também pode — e deve — viver o inusitado. Que o Natal pode se prolongar. Que o calor pode conviver com o gelo. Que o lazer não precisa ser sinônimo de consumo.
O que muda quando se pisa no gelo
Quando uma criança sertaneja pisa no gelo pela primeira vez, algo muda. Não apenas naquele instante. Muda na memória. Muda na forma como ela passa a enxergar o que é possível. E isso não tem preço.
No fim das contas, a pista de gelo em Petrolina não é só uma atração. É um gesto. Um convite para repensar o que entendemos por desenvolvimento. Porque desenvolver uma cidade também é oferecer experiências, criar lembranças, ampliar horizontes.
E, por alguns minutos, enquanto os patins deslizam e o gelo estala sob os pés, o Sertão prova que pode, sim, tocar o frio — sem sair de casa.
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