Legado da Tambaú: Hugo Gonçalves narra trajetória do pai que vendia pirulitos
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
O destino de um homem, por vezes, é traçado pela clareza de sua visão e pela persistência de seus passos. Desde criança, na pequena cidade do Prata, interior da Paraíba, o menino Gerson Gonçalves de Lima fitava o horizonte e não via apenas a poeira baixa do Sertão ou a vegetação retorcida pela sede; ele enxergava o contorno nítido de grandes feitos que viria a realizar.
Gerson nasceu em uma família humilde e, desde cedo, alimentava o fascínio pelas chaminés das fábricas, aquelas torres que sopravam nuvens de fumaça e que, na sua imaginação infantil, eram os monumentos de quem vencia a vida.
Antes de se tornar o alicerce da Tambaú Alimentos, esse desejo de ser industrial precisou de açúcar, fogo e o caminhar incansável pelas ruas de Sertânia, cidade que acolheu sua família.
Aos 14 anos, Gerson não vendia apenas doces; vendia pirulitos e a própria obstinação. Hugo Gonçalves, atual presidente da empresa e terceiro filho do fundador, recorda com precisão a história do pai naquele início.
“Ele não queria perder tempo. Com a ajuda do meu avô, começou a fazer pirulitos em casa para vender nas ruas de Sertânia, cidade que acolheu a família em meados da década de 1940”, relata Hugo.
Ali, entre o tacho de cobre fervente e o tabuleiro de madeira, nascia uma disciplina férrea. Gerson era talentoso com os números e extremamente regrado: quase tudo o que ganhava nas vendas era imediatamente reinvestido na compra de mais matéria-prima. O lucro não era para o gasto efêmero, mas o combustível para o próximo lote.
A doçura da terra sertaneja
A história da Tambaú brota das margens dos rios Moxotó e Pajeú, onde a natureza, apesar das secas, oferecia a doçura da goiaba, da banana e do caju. Foi o pai de Gerson quem deu a ideia: por que não transformar as frutas tropicais em doces de corte? Assim nasceu, em Sertânia, a Goiabada Telma, o embrião de um império.
Conhecido pela sua inquietação e capacidade de inovar, Gerson não se limitou a um único produto. Assim, foi criando variações da goiabada e aumentando o portfólio da sua pequena fábrica.
Poucos anos depois, o negócio foi levado para Custódia, distante 43 km de Sertânia. A decisão foi pensada. Na época, estava sendo construída uma BR (rodovia federal), que passava por este município, também no Sertão do Moxotó, representando um motor de desenvolvimento para a cidade
Em 1962, a marca ganhou o nome definitivo, já em Custódia, a quase 380 quilômetros do Recife. “Meu pai queria honrar suas origens paraibanas. Entre Borborema, Cariri e Tambaú, ele optou pelo último, em homenagem a uma das praias mais famosas de sua terra natal”, conta o presidente.
A inundação
Contudo, a consolidação da Tambaú foi testada pela força bruta da natureza. Em 1967, apenas cinco anos após a fundação oficial em Custódia, uma enchente devastadora varreu a cidade e destruiu a fábrica.
Máquinas, estoques e sonhos foram submersos pela água. A cena que Hugo narra à coluna Pernambuco que encanta sobre esse dia é uma inspiração: em vez de desespero ou lamento, Gerson, casado com Dona Terezinha, foi para casa, reuniu os filhos e colocou uma música para tocar no rádio.
Diante do olhar confuso da família, ele proferiu uma frase que se tornaria a pedra angular da empresa: “o que Deus tira, ele dá em abundância”. Com essa fé inquestionável, ele limpou a lama e “recomeçou do zero”. A resiliência não era uma palavra da moda, era a pele de Gerson.
O nome Tambaú foi o aceno de gratidão à terra natal, mas cada tijolo, cada e cada tonelada produzida carregam o DNA do Sertão pernambucano.
A sucessão: o Direito que encontrou o chão de fábrica
Com o passar das décadas, a Tambaú deixou as fronteiras de Custódia para conquistar o interior do Piauí, Maranhão, Paraíba e Bahia. Em 1987, ao celebrar o jubileu de prata (25 anos), a empresa deu o passo que mudaria sua história para sempre: a entrada no segmento de atomatados.
O lançamento do extrato, dos molhos e do catchup — produto que viria a ser o carro-chefe da marca — exigiu tecnologia e uma nova mentalidade. Foi nesse cenário de expansão que Hugo Gonçalves de Souza se preparou para o leme.
Criado entre o rigor do Colégio Salesiano no Recife e os corredores da Faculdade de Direito da UFPE, Hugo trazia o verniz acadêmico, mas o seu destino estava traçado no cheiro de goiabada e tomate da fábrica.
Hugo concluiu a graduação em 1985 e, logo após, mergulhou no cotidiano da unidade em Custódia ao lado do pai. “Aprendi muito ao lado dele”, afirma Hugo, que hoje acumula MBAs e cursos de gestão, mas não esquece as lições do “seu” Gerson.
Em 2000, com o falecimento do fundador aos 67 anos, Hugo foi escolhido por unanimidade pela família para ser o CEO. Ele assumiu o compromisso de modernizar a indústria sem desidratar os valores do pai.
Hoje, Hugo divide-se entre a base administrativa no Recife e a operação no Sertão, além de ocupar cargos de liderança na FIEPE e no SEBRAE-PE, projetando a força de Pernambuco para o cenário nacional através do networking com grupos como Lide e Experience Club.
A métrica do sucesso: toneladas de compromisso
Os números de 2025 da fábrica revelam que a estratégia de Hugo e seus irmãos foi cirúrgica. A Tambaú registrou um crescimento expressivo de 18% na receita anual. O avanço não foi apenas financeiro, mas de volume bruto produzido.
“Crescemos 13% em tonelagem faturada, saindo de 60.878 toneladas em 2024 para 68.800 em 2025. Isso demonstra não apenas faturamento, mas ganho real de participação de mercado”, detalha o presidente. O catchup da marca, por exemplo, é o mais consumido em todo o Nordeste pelo 10º ano consecutivo, uma marca histórica para uma indústria que nasceu no semiárido.
A inovação é o motor que mantém a Tambaú jovem mesmo prestes a completar 64 anos, em 1º de setembro. Em 2025, o lançamento da Bananinha Cremosa marcou a entrada da empresa no segmento de snacks, focando na praticidade do consumo individual.
Além disso, a marca expandiu para o setor de food service com o Leite de Coco de 1 litro em embalagem PET e o molho de hot dog de 1,7kg.
Tais novidades tiveram um impacto relevante. Juntas, representaram um faturamento de quase R$ 20 milhões no último ano, confirmando as decisões estratégicas. O portfólio atual tem 113 itens, abrangendo desde condimentos e temperos até conservas de azeitonas e derivados de coco.
A filosofia do respeito e o coração de Custódia
Crescer no Sertão exige uma simbiose entre empresa e comunidade que poucas indústrias conseguem manter. Para a Tambaú, a cidade de Custódia não é apenas o local da fábrica, é a sua identidade.
Hugo reflete que a empresa acredita que resultados sólidos são construídos com ética e respeito às pessoas.
“Atuamos com transparência em todas as relações, valorizando colaboradores e parceiros como parte essencial do nosso crescimento” Hugo Gonçalves, Presidente da Tambaú
Segundo ele, a indústria funciona como o coração econômico da região, garantindo o sustento e a dignidade de centenas de famílias que passam o conhecimento de geração em geração dentro da própria fábrica.
A filosofia da marca é guiada por cinco pilares: compromisso, honestidade, respeito, resiliência e responsabilidade socioambiental. Hugo Gonçalves sabe que o mercado de 2026 exigirá ainda mais agilidade, mas ele encara o futuro com a mesma serenidade com que o pai encarou as águas da enchente de 67.
Novos produtos já estão na esteira de lançamento, e a meta é continuar proporcionando “memórias afetivas por meio de alimentos saborosos”.
A trajetória da Tambaú é a prova de que o sonho do menino, que equilibrava o tabuleiro de pirulitos nas mãos miúdas pelas ruas do Sertão, não apenas ganhou o mundo, como se tornou o próprio chão de centenas de famílias.
Mais do que uma potência industrial, a marca prova, enfim, que quando o sucesso é cozido no fogo lento, ele não apenas alimenta o presente; ele guarda, para as próximas gerações, um sabor de futuro que não conhece prazo de validade.
Nota: Hugo Gonçalves lidera a fábrica ao lado dos irmãos, mantendo a Tambaú como uma gestão familiar. O vigor da marca agora alcança a terceira geração: netos de "seu" Gerson já integram os quadros da companhia, assegurando a preservação dos valores que nasceram no tabuleiro de pirulitos.
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Pernambuco que encanta, por Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
ACESSAR
Pernambuco que encanta,por Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.