Carla Enrique, a primeira fonoaudióloga surda de Pernambuco
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
Ela chega rápido. Anda ligeiro pelos corredores. Cabelos pretos longos, magra, discreta, quase silenciosa. Os olhos, porém, não passam despercebidos: têm o brilho de quem carrega sonhos e a responsabilidade de ser a primeira fonoaudióloga surda de Pernambuco.
Carla Enrique fala pouco durante os atendimentos aos pacientes, sejam adultos ou idosos, mas observa tudo. Escuta na medida do possível — e compreende além do som. Consegue se comunicar com quem não é surdo, com quem não domina a língua de sinais. E faz isso com naturalidade, sem esforço aparente, como se sempre tivesse sido assim.
Essa é Carla Enrique Bizarria tem 22 anos. Nasceu em 2003, no Recife, prematura de oito meses. Nos primeiros três meses de vida, vieram os diagnósticos que mudariam sua trajetória: paralisia cerebral e surdez, esta causada por ototoxicidade — reação adversa a antibióticos fortes usados ainda na UTI neonatal. Ela não passou por um processo de “perda” do som. Não conheceu ao nascer.
“Não passei por esse processo de entender que meu mundo teria um som diferente dos ouvintes, pois perdi a audição nos primeiros três meses de vida. Eu não conhecia o som dos ouvintes. Sempre achei que todos ouviam como eu.”
Hoje, Carla é a primeira fonoaudióloga surda de Pernambuco. A informação veio em consulta ao Conselho Regional de Fonoaudiologia (CRFa). Não há, no Estado, outra profissional com deficiência auditiva profunda e oralizada atuando na área.
O dado impressiona. Mais ainda quando se observa a cena cotidiana: ela em atendimento domiciliar, trabalhando deglutição, linguagem, cuidado. Os pacientes evoluem aos poucos e de forma muito visível, segundo relatos de famílias atendidas. Algo de emocionar. É o silêncio e a ciência caminhando juntos.
Um corpo em reabilitação, uma infância em construção
A paralisia cerebral (PC) é uma condição neurológica causada por uma lesão no cérebro ainda em desenvolvimento, geralmente antes ou durante o nascimento. Ela não é progressiva, mas pode afetar movimentos, postura e coordenação. No caso de Carla, a tomografia indicou hipóxia — falta de oxigenação —, mas as sequelas motoras só se tornaram visíveis com o tempo.
Com um ano de idade, percebeu-se que o pé direito mantinha uma posição equina — quando o calcanhar não toca o chão durante a caminhada, alterando a chamada “marcha”, que é a forma como o corpo se organiza para andar. Vieram então os encaminhamentos para neurologista, ressonância magnética e início do tratamento fisioterapêutico na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD).
Antes disso, ainda bebê, Carla já havia sido protetizada com aparelho auditivo. Primeiro, apenas na orelha direita, onde a perda era moderada. Aos oito meses, recebeu o segundo aparelho no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP). A partir daí, os atendimentos se intensificaram.
A direção do som
Quando Carla fala em perda auditiva desde o nascimento, não se trata de ausência completa de som, para ela,, nem de algo que tenha sido “recuperado” com o tempo. A surdez da fonoaudióloga é permanente — o que muda é a forma de acessar o mundo.
“Quando eu perdi a audição, não foi total. Na esquerda é profundo e na direita severo. E não é parcial”, explica, o que não a impede de trabalhar e estudar dia após dia.
Didaticamente, a perda auditiva é classificada tanto pelo tipo quanto pelo grau. Existem perdas condutivas, neurossensoriais e mistas. A de Carla é neurossensorial — quando a lesão atinge a orelha interna, a cóclea, responsável por transformar vibrações sonoras em estímulos para o cérebro. Já os graus variam entre leve, moderado, severo e profundo.
“No meu caso, a perda é neurossensorial. E não durou meses para recuperar, eu convivo com ela. Os aparelhos auditivos apenas me dão um norte do caminho de onde está vindo o som.”
Os dispositivos não devolvem a audição como ela é. Orientam. Ajudam a localizar o som no espaço. Funcionam para buscar novos caminhos, com recurso da leitura labial afiado e das Libras. Isso sem falar no português impecável da fonoaudióloga, seja na escrita, seja ao falar com as pessoas.
Se o corpo dela exigia reabilitação, a família oferecia sustentação.
“Meus pais receberam a notícia sem nenhum preconceito, apenas com preocupação, porém, firmes nas tomadas de decisões.”
O pai, Enrique Carlos da Silva, tornou-se o grande mestre. Foi ele quem alfabetizou Carla, palavra por palavra, estrutura por estrutura, num idioma que não lhe chegava pelo ouvido, mas pelo olhar. A mãe, Neidja Maria, esteve presente em cada etapa: terapias, escola, consultas, enfrentamentos.
A escola e o mundo: onde as barreiras aparecem
A infância foi descrita por Carla como tranquila. A escola, não.
A língua portuguesa, com seus sons agudos e estrutura complexa, impõe desafios adicionais às pessoas surdas. Sem intérprete, sem professores preparados, Carla encontrou resistência, despreparo e, por vezes, exclusão.
“Os períodos escolares sempre foram os mais desafiadores, os professores não sabiam como lidar por falta de conhecimento, e até casos de falta de empatia.”
Houve momentos em que se sentiu sem lugar. A acessibilidade ainda não fazia parte do vocabulário pedagógico. Foi preciso acionar o Ministério Público para garantir um direito básico: a presença de intérprete em sala de aula.
O cenário só mudou quando encontrou pessoas e instituições dispostas a enxergar além da deficiência. A Escola Internacional de Aldeia (EIA) abriu as portas, contratou intérprete, implantou Libras e devolveu algo essencial: autoestima.
“Essa escola resgatou minha autoestima para os estudos.”
O chamado
O desejo de atuar na área da saúde veio cedo, mas a fonoaudiologia se revelou aos poucos. Em 2020, aos 17 anos, durante atendimentos psicopedagógicos, Carla começou a enxergar ali um caminho possível — e necessário.
“Eu posso contribuir com mais propriedade para o ambiente escolar com mais acessibilidade, então vou fazer fonoaudiologia.”
O encontro com a fonoaudióloga Úrsula Gusmão ampliou horizontes, serviu de bússola. Carla percebeu que já vivia a fonoaudiologia desde que nasceu. Era paciente antes de ser estudante. Corpo antes de teoria.
“Tenho o dever de informar que tive o privilégio de encontrar pessoas extraordinárias em minha vida”, citando outras pessoas que a ajudaram na jornada, como a professora Vanda Moura.
Quando duvidam, ela caminha
O preconceito veio. Ainda vem no dia a dia profissional.
A resposta nunca foi confronto direto. Foi permanência. Formação. Trabalho. Carla lembra que a fonoaudiologia vai muito além da audição e da fala: são 14 áreas de atuação. Ela escolheu duas para se aprofundar: Fonoaudiologia Hospitalar e Linguagem.
Hoje, atua especialmente em Home Care com idosos e adultos. Trabalha com disfagia — dificuldade de engolir — condição comum em pacientes neurológicos, idosos e pessoas com doenças degenerativas. O foco é qualidade de vida. Comer. Beber. Respirar com segurança.
“Durante o processo de intervenção, é possível o paciente apresentar bons resultados clínicos e eu conseguir proporcionar uma melhor qualidade de vida.”
Ser a primeira
O pioneirismo não veio como troféu para a Carla. Veio com responsabilidade. Quando indagada sobre ser a primeira e única até agora, ela responde:
“Eu tenho uma sensação boa, agradável e, ao mesmo tempo, preocupada, pois o que vivi enquanto paciente e aluna foi totalmente diferente enquanto profissional, embora os estereótipos, os questionamentos e as barreiras sempre fizeram parte do meu cotidiano. Confesso que fiquei surpresa e um tanto preocupada, porque acho que deveríamos ter mais Surdos atuando na profissão e causa.” ,
A afirmação mostra que Carla não quer ser exceção. Quer ser caminho. Quer que outros venham depois.
Hoje, cursa duas pós-graduações, participa de eventos científicos, tem artigo publicado e planeja palestras para encorajar a comunidade surda a lutar por seus objetivos. Atua na educação inclusiva e na área hospitalar. E segue — rápida, discreta, determinada.
Carla não precisou elevar a voz para ocupar espaço. Ela avançou em silêncio, a cada dia, aprendendo a decifrar o mundo por outros caminhos e, depois, ensinando outros a sobreviver melhor dentro dele. Há algo de profundamente humano nisso: alguém que não escuta o mundo como a maioria, mas devolve a ele cuidado, método e presença. Pernambuco hoje é um estado mais atento porque, no silêncio de Carla, a vida finalmente aprendeu a se fazer ouvir. Uma história de encanto, como propõe a coluna.
Para conhecer mais...
@fga.carlaeb
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