Tubarão de até 3,5 metros matou adolescente em Olinda; corpo é sepultado
Davidson Dantas, de 13 anos, foi enterrado sob forte comoção no Cemitério de Guadalupe; animal tinha tamanho aproximado de um carro popular
O último adeus ao adolescente Davidson Dantas, de 13 anos, aconteceu na tarde desta sexta-feira (30), no Cemitério de Guadalupe, em Olinda. Houve até ônibus para levar moradores da comunidade Portelinha e da Ilha do Maruim para o sepultamento.
Enquanto familiares e amigos choravam a perda precoce, notícias divulgadas pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) causavam repercussão com detalhes da ocorrência.
O predador que rondava a costa e mordeu a perna direita do menino na Praia Del Chifre era um tubarão-cabeça-chata com comprimento estimado entre 3 e 3,5 metros e 400 quilos - tamanho aproximado de um carro popular. Davidson brincava com outros garotos entre as ondas quando foi surpreendido pelo animal na tarde de quinta-feira (29).
O drama na areia e o socorro improvisado
O adolescente foi atingido por uma mordida profunda na coxa direita enquanto estava no mar. O menino foi retirado da água pelos próprios colegas que brincavam com ele no momento do ataque.
Segundo testemunhas, Davidson sofreu uma parada cardiorrespiratória logo após ser retirado do mar. Um homem que estava no local tentou reanimá-lo desesperadamente com massagens cardíacas, mas o adolescente não reagia aos estímulos.
Diante da ausência de ambulâncias no local no momento crítico, ele foi socorrido por populares e levado em um carro particular ao Hospital do Tricentenário. A equipe médica confirmou que o jovem já deu entrada na unidade sem sinais vitais.
A "assinatura" do animal: dentes de garfo e faca
Técnicos do Cemit realizaram uma avaliação técnica detalhada na manhã desta sexta-feira (30) para entender a dinâmica do incidente. A lesão no corpo do adolescente apresentava impressionantes 33 centímetros de diâmetro (maior do que uma régua). Esta medida e outros detalhes facilitan identificar a espécie, o tamanho e o peso.
A mordida revelou duas características distintas: uma porção lisa e outra retalhada. Esse padrão é tecnicamente chamado de dentição do tipo “garfo/faca”, uma marca registrada dos tubarões do gênero Carcharhinus. Esse tipo de animal costuma frequentar águas rasas e turvas para se alimentar e se reproduzir.
O diagnóstico aponta para o tubarão-cabeça-chata, espécie extremamente comum na Região Metropolitana do Recife e conhecida por sua agressividade. É importante dizer, no entanto, que toda mordida em águas turvas é exploratíria. O bicho não ataca o ser humano porque quer.
Segundo o comitê, o incidente foi favorecido por uma "conjunção de fatores" ambientais:
- Visibilidade crítica: A água apresentava baixa visibilidade devido às chuvas da noite anterior.
- Maré alta: No momento do incidente, a maré estava em dois metros, o que facilita a aproximação de grandes animais da linha da costa.
- Localização estratégica: O ataque ocorreu próximo à desembocadura de rios e áreas estuarinas, ambiente preferido pelo cabeça-chata para alimentação.
O mar como única opção de lazer na comunidade
Bem em frente ao ponto exato onde Davidson foi mordido, uma placa instalada pelo governo alerta que a prática de esportes náuticos é proibida na área. Entretanto, a sinalização é insuficiente para conter o fluxo de banhistas.
Hoje mesmo, a reportagem da TV Tribuna PE flagou um adulto entrando no mar, mesmo depois do registro de uma morte ocorrida na praia.
As crianças e adolescentes que nasceram à beira-mar naquela área de vulnerabilidade social terminam brincando na praia, sem outros espaços de lazer.
“É preciso ter políticas públicas que olhem para a comunidade para que as crianças tenham um lugar de esportes e lazer onde possam sonhar. Muitas vezes, dentro das comunidades, elas não têm direito a sonhar”, disse Leide Mere Sales, diretora da escola onde Davidson estudava. Ela questionou as críticas feitas aos garotos que entraram no mar, mesmo em área de risco.
O abandono
Se antes dos ataques frequentes a Praia Del Cifre era ponto de surfe e de muita vida, hoje é um lugar abandonado. Atualmente, a faixa de areia é frequentada apenas por moradores das comunidades próximas, como Portelinha e Maruim.
"A praia tem muito lixo e, muitas vezes, sem a presença do poder público, os moradores fazem mutirão para limpá-la", disse uma moradora, técnica de enfermagem e cuidadora. Ele pediu para não ser identificada.
Para os jovens da região, o mar é um dos poucos espaços de lazer gratuitos e acessíveis na localidade. Onde deveria haver investimento em parques, quadras e áreas seguras, existe apenas o risco iminente de um encontro fatal com a vida marinha. "O mar é nosso quintal", acrescentou.
Um histórico de 82 ataques e 27 mortes
Pernambuco vive sob a sombra dos tubarões desde que o monitoramento oficial começou, em 1992. Com a morte de Davidson Dantas, as estatísticas do Cemit chegam a 82 incidentes registrados, com um total de 27 óbitos.
Somente na Praia Del Chifre, já foram notificadas seis ocorrências.
Atualmente, um trecho de 33 quilômetros do litoral pernambucano é oficialmente considerado impróprio para banho e esportes náuticos devido ao risco biológico.
A expectiva
O Governo de Pernambuco lançou, no início de janeiro, o edital do Programa Cientista Arretado para retomar a vigilância ativa e a microchipagem de animais, mas as ações práticas só devem começar efetivamente em maio de 2026. Até lá, a orla permanece sendo lugar de risco e exige cuidados.
Veja mais: Matéria de Luciana Queiroz no JT1, comandado por Artur Tigre, traz a voz da comunidade, de especialista do Cemit, do médico do Hospital Centenário que participou do atendimento do paciente e mais. É só clicar.
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