Pernambuco usa olhos de satélite para vigiar desmatamento
O estado cercar criminosos ambientais com tecnologia que flagra o corte de árvores do espaço e permite multas sem sair do escritório
Imagine um vigia que nunca dorme e consegue enxergar cada árvore derrubada no interior de Pernambuco, mesmo estando a quilômetros de altura. É assim que o estado está modernizando sua fiscalização.
Com o uso de satélites, iniciado em 2024, a gestão ambiental pode identificar, multar e até bloquear áreas desmatadas sem precisar, de imediato, enviar uma viatura ao local.
A estratégia segue o que o Ibama já faz e atende a pedidos do Ministério Público. A iniciativa é um reforço e tanto à fiscalização in loco. Os resultados, no entanto, ainda não foram divulgados.
O flagrante que vem do céu
Para a geógrafa Betânia Queiroz, professora do UniFBV, essa tecnologia é um divisor de águas.
"A fiscalização remota por satélite amplia de forma significativa a capacidade de vigilância. Imagens orbitais permitem identificar alterações na cobertura vegetal em tempo quase real, orientando operações de campo com muito mais precisão e economia de recursos. Estamos esperando o resultado da análise desse período", explica.
Segundo ela, o sistema é detalhista: o estado usa modelos como o Deter, do Inpe, que percebe estragos em áreas de cerca de três campos de futebol. Além disso, o programa Brasil M.A.I.S. entrega fotos em alta resolução. Desde 2023, a CPRH também usa o MapBiomas Alerta para não deixar passar nada na Mata Atlântica e na Caatinga.
As nuvens que escondem o crime
Mas nem tudo é perfeito na lente do satélite. Betânia alerta que, na Caatinga e na Mata Atlântica, o desmatamento às vezes é feito em "pedaços" pequenos, que os sensores mais baratos não veem.
Além disso, o tempo fechado atrapalha. "Nuvens, sombras, ambiguidade espectral e intervalos longos entre passagens dos satélites podem gerar atrasos ou falsos positivos", afirma a professora.
A ideia não é apenas punir, mas salvar o clima. Quando o alerta sobe rápido, dá para impedir que a floresta vire fumaça, o que reduz o efeito estufa. Mas Betânia avisa: o satélite sozinho não faz milagre. É preciso ter políticas de plantio e regularização de terras para a conta fechar.
O outro lado da moeda jurídica
Se por um lado o satélite é um detetive eficiente, por outro, ele não diz quem puxou o gatilho — ou melhor, quem ligou a motosserra. A advogada Romana Zaidan, do Pires Advogados, pede cautela. Para ela, a imagem mostra que a árvore caiu, mas não prova quem foi o culpado ou se houve intenção de crime.
"A responsabilização administrativa ambiental não se presume a partir da simples detecção de suposta supressão vegetal", destaca Romana. Ela explica que punir alguém apenas pela foto, sem ir ao local conferir, pode causar injustiças.
"A emissão automática de embargos apenas com base em imagens, sem inspeção in loco ou contraditório técnico adequado, pode gerar insegurança jurídica", reforça a advogada. O satélite aponta o caminho, mas, para a lei, o aperto de mão — ou a algema — ainda precisa da prova no chão.
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