Pernambuco: 496 adolescentes agridem mulheres, mas debate em escolas traz esperança
Dados inéditos revelam que machismo se perpetua; no Recife, EREM Silva Jardim resiste com núcleos de gênero contra o feminicídio
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Com informações de Luciana Santos
O Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), chega a Pernambuco como um dia de reflexão. No ano passado, 496 adolescentes foram registrados como agressores de mulheres no Estado. O dado, obtido pela TV Tribuna PE/Band com a Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística, revela uma face cruel: o machismo está se perpetuando entre os adolescentes e jovens.
A violência precoce, que tem origem no patriarcado estrutural e nos atuais movimentos misóginos na internet, tem deixado rastros de sangue. Entre os nomes que viraram saudade está o de Alícia Valentina, de 11 anos. Em Belém de São Francisco, no Sertão, a menina disse "não" a um colega de escola e acabou morta após ser agredida por ele. O autor do crime? Outro adolescente.
O contexto do mundo adulto
É como se muitos adolescentes e jovens tivessem se espelhando no mundo adulto, ao invés de tentar mudá-lo, um retrocesso em relação a gerações passadas. Em 2025, por exemplo, Pernambuco contabilizou 88 feminicídios. E o início de 2026 mantém o ritmo trágico: apenas em janeiro, 10 mulheres foram assassinadas simplesmente por serem mulheres.
O "ponto fora da curva"
Para evitar que novas "Alícias" percam a vida, alguns lugares são ponto fora da curva, onde a resistência começa cedo. No bairro do Monteiro, Zona Norte do Recife, o EREM Silva Jardim mantém um dos núcleos de estudos de gênero da rede estadual. Criados em 2009, esses espaços ainda lutam por visibilidade, mas já mostram que o diálogo e a educação são os melhor antídotos contra a barbárie.
Nas reuniões que ocorrem toda segunda-feira, meninos e meninas sentam-se à mesa para desconstruir preconceitos. "A gente busca esse debate justamente para uma conscientização que abrange a todos", explica Maria Luiza Viana, coordenadora do núcleo.
Para a estudante Maria Bianka Carneiro, o espaço é de acolhimento: "A gente aprende a dialogar, a conviver, a ter empatia".
A semente da mudança
A gestora da unidade, Keila Lima, acredita que o ambiente escolar é o local para mitigar as violências antes que elas se tornem extremas. "Quanto mais houver debates no ambiente escolar, melhor", defende.
O desafio, porém, é cultural e profundo. Rihanna Borges, diretora de políticas públicas, ressalta que o agressor nem sempre é "o homem do século passado". Quando jovens de 18 anos cometem crimes como tortura e estupro coletivo, a sociedade é forçada a olhar para o agora. "Um pensamento social não muda de um dia para o outro. Ele leva séculos para que a cultura machista seja quebrada", pontua.
Em um estado que também registrou 151 tentativas de feminicídio no último ano, os núcleos de gênero nas escolas surgem como a luz no fim do túnel — a prova de que, se o machismo é ensinado, o respeito também pode ser. O desafio é: precisa ser já e em todas as escolas.
Veja matéria de Luciana Queiroz, exibida no JT1, abaixo. É só clicar
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