Passagem de ônibus vai aumentar e afetar 1,8 milhão de pessoas no Grande Recife
O aumento entra em vigor em 1º de fevereiro e eleva o valor do bilhete único para R$ 4,47, veja o que dizem os críticos e o governo
O Conselho Superior de Transporte Metropolitano (CSTM) aprovou o reajuste da tarifa de ônibus na Região Metropolitana do Recife (RMR), medida que impactará diretamente a vida de cerca de 1,8 milhão de usuários do transporte público. O aumento, que entra em vigor em 1º de fevereiro, eleva o valor do bilhete único, o mais utilizado pela população, de R$ 4,30 para R$ 4,47, representando um acréscimo de 4,46%.
Aumento sem melhorias?
Apesar do reajuste, a discussão em torno da melhoria dos serviços continua. Conselheiros, como Clayton Leal, representante dos usuários, apontam que os aumentos propostos não têm se refletido em melhorias estruturais efetivas para o transporte público. Essa preocupação se soma ao histórico de insatisfação com a qualidade da frota de ônibus, que em grande parte é considerada sucateada.
MPPE cobra renovação da frota
Em meio a esse cenário, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) tem intensificado a fiscalização e cobrado a renovação da frota de ônibus no Grande Recife.
A expectativa é que, com a pressão do MPPE, os investimentos na melhoria dos veículos e da infraestrutura do transporte público se tornem uma prioridade, garantindo que o aumento da tarifa se traduza em benefícios reais para os passageiros.
O diretor de planejamento do Grande Recife Consórcio de Transporte, Jonathan Valença, afirmou que a renovação da frota segue em tratativas iniciais junto à Urbana-PE.
Aumento será levado à Justiça
A votação que encareceu o ônibus não foi unânime: terminou com 14 votos a favor e 5 contra. O advogado Pedro Josephi, Coordenador da Frente de Lula pelo Transporte Público, avisou que vai levar o caso à Justiça para tentar anular o aumento.
Segundo Josephi, que representa os estudantes no Conselho, o Governo do Estado "atropelou" as regras da própria reunião, entregando os estudos de custo em cima da hora, sem dar tempo para os conselheiros analisarem os números com calma.
Para o conselheiro, o passageiro está pagando uma conta que já deveria estar quitada, já que as empresas de ônibus recebem isenções de impostos que ajudariam a segurar o preço.
“Isto tudo em um cenário em que não assistimos melhorias no serviço. O setor opera 80 % do sistema sem licitação e sem contratos administrativos, o Sistema BRT está sendo desestruturado, os ônibus com mais de 10 anos de vida útil, coletivos sem ar condicionado e sem recursos tecnológicos mínimos (aplicativo integrado e internet), além das superlotações nos terminais integrados e pouco tempo para integração temporal” Pedro Josephi, Coordenador da Frente de Lula pelo Transporte Público
O peso no bolso e a versão do governo
Do outro lado da mesa, o Governo de Pernambuco defende que o reajuste de 4,46% serve apenas para repor a inflação. Segundo os estudos técnicos do Estado, para que a conta fosse fechada sem ajuda pública, o passageiro teria que pagar R$ 6,14.
Para segurar esse valor em R$ 4,47, o governo afirma que mantém subsídios de R$ 500 milhões e isenções de impostos, como o ICMS do óleo diesel.
A gestão estadual aposta na chegada de 100 ônibus elétricos com ar-condicionado para tentar acalmar as críticas sobre a frota sucateada.
Segundo o secretário da Semobi, André Teixeira Filho, o compromisso da gestão Raquel Lyra tem sido garantir a melhoria do transporte metropolitano sem repassar todo o custo ao usuário. Ele destacou investimentos importantes, como a parceria com o Governo Federal para colocar esses novos ônibus elétricos para rodar na RMR.
“O compromisso da gestão Raquel Lyra tem sido no sentido de garantir a melhoria do transporte público metropolitano, sem que esse custo seja levado ao usuário. Temos realizado investimentos importantes, entre eles essa parceria com o Governo Federal que vai viabilizar a inclusão de 100 novos ônibus elétricos rodando pela RMR” André Teixeira Filho, Secretário da Semobi
Comparação com outras capitais
Mesmo com o aumento, o governo sustenta que o Grande Recife tem uma das tarifas mais baratas do país. A comparação é visual: enquanto o recifense paga R$ 4,47, o passageiro do Rio de Janeiro desembolsa R$ 8,55 e o de São Paulo chega a R$ 8,90. De acordo com o governo, a RMR ocupa a oitava posição entre as tarifas mais baixas do Brasil e é a quarta mais acessível do Nordeste.
A decisão agora segue para as mãos da Agência de Regulação de Pernambuco (ARPE). Segundo Matheus Freitas, presidente do CTM, o conselho já enviou a deliberação para a homologação final. O governo justifica a manutenção do serviço como prioridade, mesmo com o sistema operando hoje com apenas 73% do volume de passageiros que tinha antes da pandemia.
Veja nota na íntegra enviada pelo Coordenador Frente de Luta pelo Transporte Público de Pernambuco e membro do CSTM
Nesta quinta-feira, na calada da noite e a portas fechadas, o Governo de Pernambuco impôs mais um aumento no valor das passagens de ônibus no Grande Recife.
Inicialmente, ressaltamos que a reunião do Conselho Superior de Transporte Metropolitano (CSTM) não poderia pautar o reajuste das tarifas porque não foram apresentadas as propostas, as planilhas e documentos necessários para votação em tempo hábil. O Regimento Interno do órgão estabelece que as propostas, estudos e documentos técnicos devem ser apresentados no mínimo 10 dias antes da reunião, mas só foram disponibilizados aos conselheiros na última terça-feira (13/01/2025). A própria pauta da reunião só foi informada posteriormente para impedir uma atuação diligente da sociedade civil.
Ainda assim, levando-se em consideração os reajustes desde quando Consórcio Grande Recife foi criado, verifica-se que se deram em valores acima da inflação em sua série histórica no referido período. Além disso, conforme apresentado na reunião, TODOS os custos das EMPRESAS de ÔNIBUS (diesel, lubrificantes, novos veículos, wi-fi, pneu, salários do motorista, impostos sobre a folha de pagamento e sobre a venda de passagens) são pagos pelo estado (subsídios de R$ 518 milhões de reais e compra antecipada de bilhete eletrônico no valor de R$ 22 milhões em 2025) e pelo usuário que paga a tarifa (cada vez mais cara). Até mesmo a aquisição de novos ônibus é o valor da passagem que custeia. Trata-se de um capitalismo sem risco, pois o lucro e as despesas do setor empresarial são garantidos direta e indiretamente pela população, muitas vezes de forma antecipada.
Isto tudo em um cenário em que não assistimos melhorias no serviço. O setor opera 80 % do sistema sem licitação e sem contratos administrativos, o Sistema BRT está sendo desestruturado, os ônibus com mais de 10 anos de vida útil, coletivos sem ar condicionado e sem recursos tecnológicos mínimos (aplicativo integrado e internet), além das superlotações nos terminais integrados e pouco tempo para integração temporal. O Estado alardeou que implementou a tarifa único, mas o fez sem congelamento no valor mais baixo e acessível, e empurrou dois aumentos seguidos (2025 e 2026) para que a sociedade pague por sua ineficiência.
Na reunião, o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura, impediu inclusive que os representantes da sociedade civil pudessem apresentar CONTRAPROPOSTAS ou pedidos de vista aos questionamentos levantados inclusive pelo Ministério Público de Pernambuco, presente como convidado. Uma condução autoritária que viola não só o regimento interno do órgão, a legislação, mas os princípios básicos de um espaço democrático e colegiado.
Nesse sentido, igualmente nos causou grande consternação e decepção os votos favoráveis ao aumento das passagens da Câmara Municipal do Recife (representada pelo vereador Júnior Bocão), da Câmara Municipal e da Prefeitura de Camaragibe (Secretário Josemir Rufino), da CBTU (órgão federal) e do Sindicato dos Rodoviários (Presidente Roberto Carlos Torres).
Nos somamos às manifestações dos movimentos sociais e estudantis, que prometem novos atos de rua, e vamos judicializar a matéria por entendermos que o Governo de Pernambuco violou diversos dispositivos legais e democráticos.
Recife, 15 de janeiro de 2026
Pedro Josephi
Coordenador Frente de Luta pelo Transporte Público de Pernambuco
Membro do CSTM
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