Pernambuco registra queda de 14,2% em casos novos de hanseníase, mas mantém alerta
Apesar de ter a segunda redução de casos novos, maior que a média do Brasil, o estado ainda fica em terceiro lugar no Nordeste
Pernambuco registrou 1.453 casos novos de hanseníase em 2025, segundo dados preliminares do Ministério da Saúde (MS), referentes ao período de 1º de janeiro a 30 de dezembro. O número é inferior ao contabilizado em 2024, quando foram notificados 1.693 casos, indicando uma redução no volume absoluto de registros, ainda que o estado permaneça entre aqueles com maior concentração de notificações no Nordeste.
No comparativo regional, a queda observada em Pernambuco acompanha o movimento de outros estados nordestinos, como Paraíba, Maranhão e Ceará, enquanto Alagoas e Bahia registraram aumento no número de casos novos.
Mesmo com a redução, Pernambuco segue ao lado de Bahia e Maranhão entre os estados com maior volume absoluto de registros, o que reforça tanto os avanços no controle da doença quanto a necessidade de manter ações contínuas de vigilância e diagnóstico precoce. A hanseníase, doença milenar, pode variar de manchas discretas na pele até graves deformidades físicas.
Como Pernambuco se compara
No Nordeste, a redução percentual de 14,2% em Pernambuco é uma das maiores da região. Estados como Paraíba (-17,1%) e Maranhão (-13,6%) também reduzem, mas PE se destaca tanto nos números absolutos quanto no ritmo da queda, considerando o volume de notificações. Estados menores, como Piauí (-5,6%) e Rio Grande do Norte (-7,9%), registraram quedas mais modestas.
Veja o ranking (dados de 2025)
Brasil - 20.632 (redução de 7,3%)
- Maranhão – 1.758 (redução de 13,6%)
- Bahia – 1.748 (aumento de 3,4%)
- Pernambuco – 1.453 (redução de 14,2%)
- Piauí – 679 (redução de 5,6%)
- Paraíba – 358 (redução de 17,1%)
- Alagoas – 340 (aumento de 6,9%)
- Sergipe – 325 (redução de 0,9%)
- Ceará – 1.03 (redução de 10,4%)
- Rio Grande do Norte – 197 (redução de 7,9%)
“A hanseníase tem cura e o diagnóstico precoce é fundamental para evitar sequelas e garantir qualidade de vida. Nosso trabalho acontece durante todo o ano, nas unidades de saúde e nos municípios, fortalecendo o cuidado desde a atenção básica, vigilância epidemiológica até a assistência especializada sempre de forma humanizada”, destacou o coordenador estadual de Vigilância de Hanseníase, Caio Lira.
Campanha e controle
Com a persistência da doença, a Secretaria de Saúde de Pernambuco lançou uma campanha intensiva de prevenção, diagnóstico e tratamento, alinhada a estratégias nacionais como o “Janeiro Roxo”, que reforça a importância da detecção precoce e o combate ao estigma. O foco está em ampliar a busca ativa de casos, capacitar equipes de saúde e aumentar a cobertura de acompanhamento clínico.
No dia 22 de janeiro, a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES-PE) realizará uma ação coletiva na Praça do Carmo, no Centro do Recife, como parte das iniciativas do Janeiro Roxo. As atividades acontecerão ao longo de todo o dia, com foco na conscientização sobre a hanseníase.
Desafios nos municípios
A análise dos dados municipais de Pernambuco mostra que, mesmo em estados com tendência de queda, alguns municípios registram aumentos ou oscilações, com cidades como Petrolina, Recife, que reduziram os número de casos, e Jaboatão dos Guararapes, que aumentou.
As três, no entanto, estão entre as de maior número de casos novos em 2025, embora com variações distintas em relação a 2024. Outros municípios não notificaram casos novos neste período, apontando heterogeneidade na distribuição da hanseníase dentro do estado.
Municípios com maiores números absolutos de casos novos, apesar das reduções
Municípios que não apresentaram casos novos em 2025, segundo MS
Amaragi
Caetés
Calçado
Calumbi
Cedro
Correntes
Cortês
Fernando de Noronha
Ingazeira
Jataúba
Jatobá
Joaquim Nabuco
Jupi
Manari
Poção
Saloá
São Bento do UNa
Santa Cruz da Baixa Verde
Solidão
Verdejante
Veja os dados de outros municípios
Programação em parceria com a UPE
Como atividade integrante da campanha Janeiro Roxo, a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES-PE) programou, para 22 de janeiro, uma grande mobilização na Praça do Carmo, no Centro do Recife, com ações distribuídas ao longo do dia.
A programação será desenvolvida em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE), por meio do Grupo de Pesquisa GRUPEV, com a I Gerência Regional de Saúde (I Geres), prefeituras da Região Metropolitana, Secretaria de Saúde do Recife, Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (MORHAN Recife e MORHAN Jaboatão), Rede-Hans/PE, além de profissionais de saúde, pessoas atendidas e voluntários.
Ações educativas na Praça do Carmo
Durante o evento, um ônibus da SES-PE funcionará como ponto de apoio, oferecendo acolhimento, avaliação clínica e exames dermatológicos para quem circular pela área. Também serão promovidas ações educativas ao redor da praça, com orientação ao público, distribuição de informativos e iniciativas voltadas à comunicação em saúde. O encerramento da programação terá apresentação cultural, simbolizando o enfrentamento às doenças negligenciadas.
O coordenador Caio Lira destaca que o início rápido do tratamento é decisivo para interromper a transmissão e garantir qualidade de vida.
“Quando a pessoa começa o tratamento, ela deixa de transmitir a doença. Por isso, orientamos que, ao perceber manchas na pele com perda de sensibilidade ou outros sinais suspeitos, a população procure a unidade de saúde mais próxima. Além do tratamento gratuito pelo SUS, é fundamental garantir acolhimento, informação e respeito, combatendo o estigma e fortalecendo a rede de cuidado em todo o estado Caio Lira, coordenador estadual de Vigilância de Hanseníase
A iniciativa também pretende estimular a detecção oportuna de casos, ampliar o conhecimento da população sobre os sinais da hanseníase, esclarecer dúvidas sobre formas de contágio e reforçar a importância da procura por atendimento nas unidades de saúde. O tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, após o início da medicação, a pessoa diagnosticada deixa de transmitir a doença.
Segundo lugar no mundo
No Brasil, foram 20.632 casos novos de hanseníase em 2025, uma queda de 7,3% em relação a 2024, refletindo tendência de redução em nível nacional.
No entanto, o Brasil é um dos países com maior número absoluto de casos de hanseníase no mundo, ficando em 2º lugar no ranking global, atrás apenas da Índia. Essa posição é consistente nos dados epidemiológicos mais recentes divulgados pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS)
Brasil: impacto da gestão e da pandemiaA proporção de casos novos com Grau 2 de Incapacidade Física (quando a pessoa já apresenta deformidades visíveis) subiu 16% em 2023 comparado a 2022 após o fim do isolamento social.
Em 2023, 55,4% dos casos novos foram em homens. Além disso, houve um aumento de 35,2% na proporção de casos em idosos (60 anos ou mais) entre 2014 e 2023.
A doença segue castigando as populações mais vulneráveis, mas houve uma queda na proporção de analfabetos entre os diagnosticados, o que pode indicar que a doença está sendo detectada em diferentes perfis escolares, embora a base social permaneça a mesma.
A Hanseníase e o "Efeito Pandemia"
Documento do Ministério da Saúde deixa claro como o período da pandemia "bugou" o sistema de saúde:
O relatório cita uma "queda abrupta" na detecção de casos novos em 2020 de hanseníase devido ao isolamento e foco total na Covid-19.
A partir de 2021, 2022 e 2023, os números começaram a subir novamente, não porque a doença aumentou subitamente, mas porque as pessoas voltaram a ser diagnosticadas.
Entenda mais sobre a doença e veja os graus de gravidade, segundo o Ministério da Saúde
- Grau 0 (Zero): Sem sequelas
Neste estágio, a doença é considerada recente ou não atingiu os nervos periféricos de forma destrutiva.
O que causa: o paciente apresenta apenas as manchas na pele (claras, avermelhadas ou acastanhadas).
Sensibilidade: a sensibilidade nas mãos e pés está preservada.
Força: a força muscular está normal.
Visão: não há alteração na capacidade visual.
Grau 1: perda de sensibilidade
É o sinal de alerta de que o bacilo começou a danificar os nervos. É uma "sequela invisível", mas perigosa.
O que causa: o paciente perde a capacidade de sentir dor, calor ou toque em áreas específicas das mãos ou pés.
O perigo: como a pessoa não sente dor, ela pode se queimar ou se cortar sem perceber. Isso gera feridas que demoram a cicatrizar e podem infeccionar.
Olhos: pode haver uma leve diminuição da sensibilidade na córnea.
Grau 2: vncapacidades visíveis
Este é o estágio mais avançado, onde o dano aos nervos já causou deformidades físicas ou perda de funções.
Nas Mãos: Aparecimento de "mão em garra" (os dedos ficam dobrados e perdem o movimento), atrofia dos músculos e feridas profundas (úlceras).
Nos Pés: "Pé caído" (dificuldade de levantar a ponta do pé ao caminhar), feridas na planta do pé (mal perfurante plantar) e encurtamento de artelhos.
Nos Olhos: Pode causar o lagoftalmo (impossibilidade de fechar os olhos completamente), catarata e até a cegueira.
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