Herança das ladeiras: veja quem são os candidatos ao Carnaval de Olinda e vote
Entre mestres que seguem em atividade e nomes que se tornaram lendas eternas, a escolha agora pertence ao folião
O brilho do Carnaval de Olinda, em Pernambuco, nasce nas mãos de quem borda o estandarte e no fôlego de quem sobe a ladeira soprando o metal. Para 2026, a disputa pelos títulos de homenageados reúne figuras que são o próprio alicerce da cultura olindense, do batuque sagrado dos terreiros à irreverência dos bonecos gigantes.
Entre mestres que seguem em atividade e nomes que se tornaram lendas eternas, a escolha agora pertence ao folião. É a chance de celebrar trajetórias que transformam o suor em arte e a tradição em resistência.
Entre os que podem ser homenageados por votação popular, estão Carlos da Burra que carrega, nos ombros, o charmoso boneco do Homem da Meia-Noite no ruge-ruge e calor das ladeiras de Olinda e Dona Del do Coco, que, desde a infância, cantava enquanto trabalhava na roça, fortalecendo desde cedo sua relação com a música popular. São candidatos e canditadas arretados demais!
A votação popular começou às 8h30 desta sexta e segue até as 23h59 da próxima terça-feira (27)
Saiba quem já foi escolhido como homenageados de 2026
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Conheça cada candidato e escolha com carinho:
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Conheça os candidatos a homenageados e participe da votação
HOMENAGEADOS EM VIDA
Carlos da Burra – bonequeiro
A tradição dos bonecos gigantes, um dos símbolos mais fortes do carnaval de Olinda, tem em Carlos da Burra uma de suas principais referências em vida. Reconhecido como um dos mais importantes manipuladores de bonecos gigantes da cidade, ele atua há décadas sustentando, com o próprio corpo e a dança, a memória e a emoção do carnaval de rua.
Carlos iniciou sua trajetória ainda na adolescência, aos 14 anos, após se encantar, na infância, com o Homem da Meia-Noite. Desde então, construiu uma caminhada marcada pela vivência popular, pela dança e pela relação direta com os foliões. Esse percurso o levou a ocupar, atualmente, o posto de carregador titular do Homem da Meia-Noite, símbolo máximo do carnaval olindense.
Ao longo de sua trajetória, conduziu bonecos que se tornaram marcantes na história cultural da cidade, como Menino da Tarde, Menina da Tarde, John Travolta, Garoto de Vassoura e Chorão. Destaca-se a relação contínua com o Garoto de Vassoura, conduzido por Carlos desde a fundação do boneco, há mais de três décadas, numa ligação rara no carnaval de Olinda.
Sua marca está na forma singular de condução: cada boneco ganha personalidade própria por meio da dança, do ritmo e da comunicação silenciosa com o público. Essa assinatura artística faz com que sua presença seja reconhecida nos cortejos e reafirma o papel dos manipuladores de bonecos gigantes como artistas fundamentais para a continuidade do carnaval de Olinda.
Dona Del do Coco
O Coco é uma das expressões mais importantes da cultura popular de Olinda e ocupa um lugar central no Carnaval da cidade, tanto pelo seu valor histórico quanto pelo seu papel social e simbólico. O ritmo se mantém vivo por meio de mestres, mestras, grupos e comunidades que fazem do coco uma prática coletiva, baseada no canto, na percussão, na dança e na improvisação.
Deonice Francisca Conceição da Silva, conhecida artisticamente como Dona Del do Coco, nasceu no Sítio Escalvada, no município de Timbaúba, Zona da Mata Norte de Pernambuco. É compositora, cantora e poetisa popular, com atuação marcante nos ritmos do coco, da ciranda, do forró e do samba.
Filha de pais e avós agricultores, herdou da família a arte musical e a ligação com os ritmos tradicionais. Seu pai era sanfoneiro e coquista, e seus avós dominavam os ritmos do coco e da ciranda, influências que marcaram profundamente sua formação artística.
Figura reconhecida em Olinda e em Pernambuco, participa ativamente do Carnaval, de eventos culturais ao longo do ano e de encontros tradicionais, como o Encontro de Coco de Pernambuco. Durante a infância, cantava enquanto trabalhava na roça, fortalecendo desde cedo sua relação com a música popular. Caçula de 25 irmãos, compôs sua primeira música aos 9 anos de idade, intitulada “O Lencinho”, dando início a uma trajetória autoral que se manteria ao longo da vida. Gravou dois CDs e consolidou-se como referência da cultura popular pernambucana, representando a força da autoria feminina e a preservação dos saberes tradicionais.
Malu – Maracatu Axé da Lua
Dirigente do Maracatu Axé da Lua, José Maria de Farias, o Malu, é uma referência na preservação e no fortalecimento da cultura afro-pernambucana em Olinda. Com uma trajetória iniciada nas décadas de 1980 e 1990, período de intensa efervescência cultural e política, Malu participou ativamente da construção de espaços de expressão da negritude em Olinda.
Atuou em afoxés, blocos afro, grupos de teatro e formações de samba-reggae, contribuindo para ações culturais que iam além do desfile, envolvendo debates, encontros e mobilização comunitária.
No cotidiano do Maracatu Axé da Lua, Malu exerce um papel estruturante. É responsável pela articulação dos integrantes, pela organização das apresentações e pela continuidade dos fundamentos que sustentam o grupo enquanto expressão cultural, política e espiritual.
Sua contribuição segue sendo fundamental para o cenário cultural olindense, reafirmando o maracatu como espaço de resistência, identidade e transmissão das tradições afro-pernambucanas.
Eraldo Gomes – Carnavalesco
A contribuição para o carnaval e para a preservação da cultura popular de Olinda marca a atuação de Eraldo José Gomes. Agente cultural, ele atua nas áreas do carnaval, do artesanato, das artes plásticas e da preservação do patrimônio cultural material e imaterial da cidade.
Filho de José Miguel Gomes, ex-presidente do Homem da Meia-Noite, e neto de Zé de Lúcia, um dos fundadores do Clube Lenhadores de Olinda, Eraldo teve sua formação cultural ligada desde a infância às agremiações e às manifestações da cultura popular olindense.
No carnaval, participou da fundação da Troça Carnavalesca Menina da Tarde, em 1977, e, em 1979, fundou a Troça Carnavalesca Mista John Travolta, que se consolidou como uma das mais representativas de Olinda. A agremiação destaca-se pela irreverência, diversidade e valorização do frevo, com projeção local, estadual e nacional.
Paralelamente, desenvolve trabalho contínuo no artesanato, com destaque para o entalhamento em madeira. Suas obras retratam elementos da identidade cultural de Olinda e integram coleções e exposições no Brasil e no exterior, contribuindo para a difusão da arte popular olindense.
André dos Clarins
A sonoridade que anuncia a chegada das agremiações é parte fundamental do carnaval de Olinda, e André Luiz de Melo Neto, o André dos Clarins, está diretamente ligado a essa tradição. Sua atuação contribui para a preservação dos rituais sonoros que organizam os cortejos e reforçam a identidade do carnaval de rua da cidade.
Integrante do tradicional Grupo Clarins de Olinda, André atua no anúncio das agremiações carnavalescas, função histórica que marca o início dos desfiles. Ao longo de sua trajetória, acompanhou diversas agremiações em viagens, participando de apresentações em diferentes localidades.
Sua formação musical teve início na década de 1980, quando integrou uma banda marcial, base que consolidou sua atuação no carnaval e no trabalho com os clarins.
O uso dos clarins como anúncio da chegada das agremiações tornou-se marca de diversos grupos do carnaval pernambucano, entre eles Homem da Meia-Noite, Cariri Olindense, Elefante de Olinda, Boi da Macuca, Marim dos Caetés, A Porca e O Minhocão, reafirmando a importância dessa tradição no cenário cultural de Olinda.
CANDIDATOS – HOMENAGEADOS EM MEMÓRIA
Dona Janete (In Memoriam)
A história do Maracatu Nação Leão Coroado e a preservação de seus fundamentos passam pela trajetória de Dona Janete Hora de Aguiar, referência em vida e em memória da cultura popular de Olinda. Dedicou mais de três décadas ao maracatu, sendo reconhecida como uma das matriarcas da Nação sediada em Águas Compridas.
Desde 2003, exerceu a função de Dama do Paço do Leão Coroado, conduzindo a calunga Dona Izabé, símbolo sagrado que representa o orixá protetor do maracatu. Cumpriu esse papel com rigor, respeito e fidelidade aos fundamentos da tradição, tornando-se guardiã de um dos elementos centrais da Nação.
Chegada a Olinda ainda criança, em 1958, e integrante do Leão Coroado desde 1991, Dona Janete construiu uma trajetória marcada pela dedicação cotidiana ao maracatu. Costurou, bordou, organizou, cuidou e acolheu, sustentando o grupo não apenas nos desfiles, mas no dia a dia da brincadeira, ao lado do Mestre Afonso, companheiro de vida e mestre da Nação.
Em memória, Dona Janete permanece como símbolo de entrega, afeto e resistência cultural, com sua história inscrita na trajetória do Leão Coroado e na cultura popular de Olinda.
Maestro Lessa – José Bezerra da Silva (In Memoriam)
A preservação do frevo de rua em sua forma tradicional tem no Maestro Lessa uma de suas referências mais importantes em memória. Maestro, regente e formador, José Bezerra da Silva construiu uma trajetória dedicada à difusão da música carnavalesca nas ruas de Olinda e do Recife, com rigor musical e compromisso com a cultura popular.
Natural de Nazaré da Mata, iniciou sua formação musical como trombonista e, a partir da década de 1990, consolidou-se como regente de frevo. Fundou a Orquestra do Maestro Lessa, que se tornou presença constante em desfiles e cortejos carnavalescos, acompanhando algumas das mais tradicionais agremiações do estado.
Ao longo de décadas, esteve à frente de blocos históricos como Pitombeira dos Quatro Cantos, Clube Vassourinhas, Tá Maluco e Amantes de Glória, contribuindo diretamente para a manutenção do frevo de rua com disciplina, respeito aos arranjos e fidelidade à tradição. Sua atuação também teve caráter formador, servindo de referência para músicos e regentes mais jovens.
Falecido em julho de 2025, aos 89 anos, Maestro Lessa deixou um legado sólido e permanente. Sua orquestra segue em atividade, assegurando a continuidade de sua obra e reafirmando sua importância na história do Carnaval de Olinda e na memória coletiva do frevo pernambucano.
Pedro Sapateiro (In Memoriam)
Pedro Salomão do Ó, mais conhecido como Pedro Sapateiro, foi o primeiro porta-estandarte da tradicional Troça Carnavalesca Ceroulas de Olinda, função que exerceu por cerca de cinco décadas, tornando-se uma figura histórica do Carnaval da cidade.
Nascido em 1923, no município de Igarassu, chegou a Olinda aos nove anos de idade, passando a residir no bairro do Guadalupe. Ainda muito jovem, iniciou sua trajetória no Carnaval de Olinda e construiu um percurso marcante como um dos mais reconhecidos porta-estandartes da história da festa.
Ao longo de sua vida carnavalesca, Pedro Sapateiro teve passagem por diversas agremiações tradicionais, entre elas Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda, Pitombeira dos Quatro Cantos, A Porca, Marim dos Caetés, Cheguei Agora, Urso da Madame, Cariri, entre outras, sempre mantendo forte vínculo com os blocos e troças da cidade. Iniciou sua história no Carnaval aos 12 anos de idade e dedicou 77 anos de sua vida às tradições culturais de Olinda e de Pernambuco. Em vida, transmitiu seu conhecimento a familiares e aprendizes, que hoje dão continuidade ao seu legado, desfilando pelas ladeiras históricas da cidade e mantendo viva a essência de um Carnaval popular, construído pelo povo e para o povo.
Dona Glorinha do Coco (in memoriam)
Batizada Maria da Glória Braz de Almeida, nasceu no bairro do Amaro Branco, em Olinda, em 1934. Neta de pessoas escravizadas, a história de Dona Glorinha se confunde com a tradição do genuíno Coco Olindense, a partir do Amaro Branco, e vem consolidando a base do ritmo em Pernambuco há mais de 100 anos.
É uma referência eterna da cultura popular de Olinda e uma das grandes mestras do coco de roda em Pernambuco. Sua trajetória permanece profundamente ligada à história das manifestações culturais tradicionais da cidade, especialmente aquelas que têm no coco uma expressão de identidade, ancestralidade e resistência.
Mais do que uma artista, foi guardiã da tradição oral, formadora de gerações e liderança cultural reconhecida nos territórios onde o coco sempre foi espaço de encontro, celebração e construção coletiva.
Sua atuação ultrapassou os palcos e as festas populares, alcançando ações educativas, encontros comunitários e processos de formação cultural, contribuindo para fortalecer a autoestima das comunidades e o protagonismo das mulheres na cultura popular. Dona Glorinha deixou um legado que segue vivo na memória, na prática e no corpo dos brincantes que aprenderam com ela.
Antônio Tomás de Oliveira (in memoriam)
Mestre da Arte dos Bonecos Gigantes e Construtor do Carnaval de Rio Doce, Olinda, Antônio Tomás de Oliveira foi um dos principais nomes da construção artística e carnavalesca de Olinda, com atuação marcante no bairro de Rio Doce. Após trajetória profissional na Aeronáutica, onde construiu sua carreira até a aposentadoria, dedicou-se integralmente à arte popular, tornando-se referência na criação de bonecos gigantes, alegorias e estruturas carnavalescas.
Artista autodidata, Tomás atuou intensamente na formação de novos criadores, compartilhando conhecimentos técnicos e sensíveis que influenciaram gerações de artistas. Entre eles, destaca-se Max Pietro, que hoje dá continuidade ao seu legado na arte dos bonecos gigantes e na cultura popular pernambucana. Sua primeira boneca gigante, a Rainha, foi criada para o bloco Folia dos Reis, agremiação da qual Tomás foi presidente. A obra marcou o início de sua trajetória artística e tornou-se símbolo histórico de sua contribuição ao Carnaval de Olinda.
Atualmente, a boneca é preservada pela Calungada – Os Calungas Gigantes de Pernambuco, como patrimônio vivo de sua memória. Antônio Tomás exerceu papel fundamental na estruturação do carnaval descentralizado de Olinda. Foi diretor plástico do bloco Gota D’Água, idealizador do primeiro passódromo do Carnaval de Olinda, instalado na Praça do Jacaré, na década de 2000, além de articulador do Polo Carnavalesco de Rio Doce, da abertura oficial do Carnaval do bairro e da criação da Associação Carnavalesca de Rio Doce.
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