Um milagre
Reflexão aponta brasileiro como maior riqueza do País em meio a desafios econômicos e estruturais
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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A frase é de Câmara Cascudo: “o melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”. Sábias palavras! Fiquei a pensar nelas há algum tempo, ao ler uma coletânea de financiamentos concedidos pelo Brasil, nas últimas décadas, a empresas e até mesmo a países estrangeiros. Ora é uma empresa europeia que duplica seu parque industrial com a nossa ajuda, ora é um país africano que melhora sua infraestrutura graças aos nossos cofres.
Nada contra ajudar outros povos, e fique isto bem claro. Mas que não nos esqueçamos, jamais, do notável povo que habita esta terra - um povo que nunca retirou seu sustento de guerras ou invasões, e cujos ancestrais conseguiram o milagre de fazer grande um país pilhado e saqueado ao longo de séculos. Sim, eis aí uma verdade pouco divulgada e pouco comentada, mas que deve ser dita: o povo brasileiro é um milagre!
Inicio trazendo recente estudo da “London Business School”, divulgado recentemente, a mostrar que, entre 21 países pesquisados, o Brasil tem o povo mais empreendedor. De cada oito brasileiros, um está tocando seu próprio negócio. Nos EUA, o segundo colocado, a relação é de dez para um. No Japão, de cem para um.
O incrível é que o brasileiro, em sua ânsia empreendedora, não se intimida nem diante da insensibilidade e da baixa inteligência da burocracia. Assim, por exemplo, enquanto nos EUA são necessários quatro dias para a abertura de uma empresa, aqui gastamos 86. Por conta disso, 76% das microempresas brasileiras funcionam sem autorização - mas funcionam!
A carga tributária é terrível: no dito “Primeiro Mundo”, oscila entre 20 e 24% do PIB. Enquanto isso, o empresário tupiniquim lida com espantosos 36% do PIB, um recorde mundial! Detalhe: no mais das vezes, sem contraprestação da Administração.
E isto tudo praticamente sem crédito. Recordo-me, por exemplo, de notícia que li em um jornal de grande circulação e que dá bem a ideia da situação: “Crédito para micros não sai do papel”.
Ouso acrescentar que, com preocupante freqüência, sequer com a estabilidade das regras, indispensável para qualquer negócio, o empresariado tem contado - recente estudo do IDESP, realizado junto a 800 empresas, apontou que a morosidade do Judiciário, dado causar insegurança jurídica, acarreta perdas de US$ 100 bilhões de dólares por ano em redução de investimentos e dispensa de pessoal!
Mas o brasileiro é mesmo um forte, como dizia o poeta: nossas microempresas, mesmo diante deste tenebroso quadro, têm sido gigantes em suas fraquezas.
Apenas para que se tenha uma idéia, somente a microindústria do artesanato emprega umas 8,5 milhões de pessoas, que produzem em torno de 3% do PIB - quase o que representa a indústria automobilística.
Diante deste quadro, que privilegia as empresas estrangeiras em detrimento das brasileiras, talvez fosse oportuna uma reflexão sobre as palavras de Bernard Shaw, segundo quem “o maior dos males e o pior dos crimes é a pobreza”. Ou as de Lamennais: “o grito dos pobres sobe até Deus, mas não chega aos ouvidos do homem”.
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