E a vida real?
Artigo alerta para os impactos de jogos com violência extrema e discursos de ódio
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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Começo estas linhas declarando-me um fascinado por tecnologia. Aos 12 anos de idade já escrevia programas a bordo de um saudoso computador Sharp PC-1211. Faço esta retrospectiva para deixar claro que não sou um inimigo da modernidade – muito pelo contrário, continuo um entusiasta da informática. Defendo ser a tecnologia um caminho que, se bem explorado, poderá proporcionar dias melhores à humanidade.
Disse “bem explorado” porque, se assim não for, temo pelo amanhã. Conhecendo, ainda que superficialmente, as possibilidades que estas novas tecnologias abrem, causa-me arrepios pensar nelas sendo utilizadas irresponsavelmente, ou para o mal. Esta reflexão veio forte em minha mente há alguns dias, quando passei os olhos em uma relação de videogames que podem ser facilmente comprados por nossas crianças.
Começo por um, japonês, cujo objetivo é o estupro de mulheres. Há até um bônus para os casos nos quais elas gritarem ou se debaterem demais. Que humanidade é essa, que coloca à venda tal monstruosidade sob as vistas de tantas mulheres vítimas de crime tão repulsivo?
Não menos chocante, outro videogame tem como finalidade agredir e constranger crianças. O cenário do jogo é uma escola, na qual os jogadores devem fazer de tudo para humilhar, ofender e agredir as crianças – ganha o jogo quem for mais perverso. Sinceramente, fico a pensar em qual geração estamos formando – que o digam nossos professores, a cada dia mais agredidos e vilipendiados em seu sacerdócio.
Outro videogame que me chamou a atenção foi um cujo enredo é a realização de uma “faxina étnica”. Na primeira fase do jogo o objetivo é a matança de negros e latinos. Os jogadores que passarem desta fase alcançarão uma outra, na qual busca-se a eliminação de todos os judeus. Cheguei à conclusão de que Adolf Hitler não morreu…
Encontrei um outro, de conteúdo análogo, cujo objetivo é a mortandade de muçulmanos – fiquei a lembrar daquele alerta de que “nunca o mal é feito tão completamente e com tanto prazer como quando é feito por convicção religiosa”.
Deparei-me ainda com um videogame cujo objetivo é matar policiais. Sinceramente, isto não é um brinquedo – é uma afronta pavorosa à memória dos agentes da lei que tombaram nos defendendo. Fico a imaginar o que se passa pela cabeça do órfão de um desses heróis quando vê uma aberração de tal monta.
E o que dizer de um cujo objetivo é atropelar pedestres? Humanidade pequena, esta, que não se importa em ganhar dinheiro às custas de um escárnio e da dor de famílias que perderam entes queridos pelas ruas.
Fui aconselhado por um conhecido a não publicar estas linhas, pois elas seriam “politicamente incorretas” sob o prisma do sagrado direito de expressão. Então eu me confesso, aqui, um ser “politicamente incorreto”. Aliás, abaixo a ditadura do “politicamente correto” - ela transformou uma coisa tão linda e sagrada como é a liberdade de expressão em claro estímulo ao mal e ao crime. Me perdoem, mas isto, sim, é que deveria ser “politicamente incorreto”.
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