A Cortina de Ferro
Artigo reflete, com ironia, sobre liberdade, vigilância e contradições do mundo após o fim da “Cortina de Ferro”
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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Dia desses, meditava sobre a expressão “Cortina de Ferro”, celebrizada por Winston Churchill em célebre discurso proferido nos idos de 1946, em Fulton. A ideia representada por essa expressão era de uma simplicidade chocante: havia no mundo uma “Cortina de Ferro” dividindo tudo. De um lado a liberdade, e do outro a opressão. Aqui o bem, e lá o mal. Era um mundo mais simples.
Naqueles dias, era moda no Ocidente retratar como símbolo da opressão as longas filas de passageiros que se formavam no aeroporto de Moscou, fruto das rígidas medidas de segurança lá adotadas. Pais e mães eram revistados na frente dos filhos por policiais armados, em um ambiente sempre tenso e carregado. Isso não acontecia e não aconteceria jamais “do lado de cá”, trombeteavam na época os líderes das democracias ocidentais.
E que dizer da tortura e dos tratamentos desumanos? Naqueles dias de chumbo, não raramente os presos iam para a Sibéria, onde, distantes de suas famílias, eram submetidos a toda sorte de infortúnios — coisa que o Ocidente cristão jamais permitiria.
Havia também o fim da privacidade. Sob as sombras da “Cortina de Ferro”, o simples ato de dar um telefonema ou escrever uma carta era algo arriscado, sujeito ao controle de uma polícia onipresente. Os olhos e ouvidos do Estado estavam em todo lugar, controlando tudo o que era escrito, falado ou publicado — coisa que, do lado de cá, seria impensável, conforme gritavam em discursos violentos os líderes ocidentais.
E eis que, um belo dia, a “Cortina de Ferro” caiu. Virou pó. Transformou-se em reminiscência histórica. E aí o mundo respirou aliviado. Toda a humanidade celebrou o fim do autoritarismo e da opressão. Passou a reinar a alegria!
Essa alegria, eu a vejo na face de cada pessoa que hoje, neste Ocidente democrático e libertário, diz a frase “não posso falar por telefone, só pessoalmente”. Com que felicidade os ocidentais, hoje, têm suas mensagens de correio eletrônico fiscalizadas e monitoradas por poderosos sistemas de vigilância! Afinal, isso acontece em nome da liberdade!
Dá gosto ver, nos dias atuais, chefes de família, crianças e idosos sendo revistados e até desnudados nos aeroportos ocidentais — todos usufruindo do ambiente leve e alegre que o combate à opressão nos proporciona!
E que dizer dos presos? Lá vão eles, em estado de total euforia, rumo aos vários centros de detenção espalhados pelo planeta afora. Nesses locais, distantes de suas famílias e até mesmo dos seus países, serão submetidos não mais a sessões de tortura — coisa da “Cortina de Ferro” —, mas a “procedimentos especiais de interrogatório”, previstos e regulamentados por escrito. Será assim, entre uma simulação de afogamento e outra, que celebrarão a alegria que somente a garantia do absoluto respeito aos direitos humanos pode proporcionar.
Ironias à parte, cheguei a uma conclusão: qualquer civilização que abandonar seus valores mais sagrados para combater seja lá o que for, somente encontrará a derrota. A “Cortina de Ferro” que o diga!
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