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O caos pandêmico e o tempo desnorteado
Tribuna Livre

O caos pandêmico e o tempo desnorteado

“Que é, pois, o tempo?” Santo Agostinho cravou: “Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo, já não sei”. Existindo no tempo, este líquido amniótico em que mergulhamos ao nascer, transitamos entre passado, presente e futuro, tentando dar um sentido a uma caminhada sem norte por natureza.

Buscar organizar a experiência temporal é humana tentativa de fazer do caos existencial um cosmo essencial. Mas se na “normalidade” isso já é um exercício hercúleo, imagina em dias pandêmicos! Imaginar? Nem precisa! Basta reparar e ver o quanto o vírus em rede bagunçou a precária percepção de existir que tentamos a todo custo sustentar.

O futuro, sempre incerto, tornou-se enigma. O presente, que era inquieto instante, fixou-se interminável transcorrer angustiante. Além de não oferecer condições de decifração do horizonte, a duração expandida a fórceps oferta mesmo é tempo de sobra para se conviver com o bafo da morte turbinada por negacionismos e mutações sem parar.

Não raro, agarramo-nos a um passado, qualquer passado, agora edulcorado e idílico, posto que imune da peste e melhor do que tudo o que há e do que ainda não sabemos se haverá. O porto seguro do pretérito é rota de fuga do presente esquizofrênico, para, com muita dificuldade, se buscar alguma inspiração sobre o que pode ser ao menos uma fresta do amanhã.

A atualidade tem mesmo se mostrado inóspita para fazer brotar inspirações. O tudo remoto, por exemplo, só faz brilhar as potencialidades de lucro à distância, vez que a exaustão da experiência do digital total indica que novas formas de desumanização são o que mais floresce neste vasto campo de morte semeado pelo vírus e adubado pelo desamparo sistêmico.

Se temos a consciência agostiniana de que só o presente existe – “lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras” –, a situação se complexifica, exigindo daqueles que ainda não sucumbiram nestes tristes trópicos um esforço extra para temperar o tempo e harmonizar o viver com lucidez, esperança e imaginação.

Viktor Frankl testemunhou que o sentido da vida é mesmo o de inventarmos um sentido para a vida a partir das demandas do dia. Hoje, além de sobreviver, o sentido premente é lembrar que a vida é invenção cotidiana, que o futuro não tem destino e que, nessa livre alquimia vital, há muito mais que morte e egoísmo e brutalidade e hostilidade e violência e desprezo e abandono.

Para começar, vale a dica de Calvino: “O inferno dos vivos não é algo que será: se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer.

A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo e abrir espaço”.

JOSÉ ANTONIO MARTINUZZO é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.

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