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Mario Sergio Cortella: “Não acho que a humanidade irá se converter à solidariedade”

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Mario Sergio Cortella: “Não acho que a humanidade irá se converter à solidariedade”


Mario Sergio Cortella (Foto: Divulgação / Facebook)
Mario Sergio Cortella (Foto: Divulgação / Facebook)

Em busca de encontrar e explicar o sentido para a existência humana, dois dos maiores pensadores brasileiros contemporâneos, Mario Sergio Cortella e Leandro Karnal, se juntam em autoria do livro “Viver, a Que Se Destina?”

Embora a obra tenha sido pensada e produzida antes da quarentena, os autores disseram, em suas contas no YouTube, que o livro chegou em momento propício, pois traz muitas reflexões acerca do momento atual de pandemia.

“Temos vivido tempos de silêncios internos. Quando me vem algum, recorro ao meu inventário de memórias construídas ao longo da vida para pensar sobre os passos que dei, que dou e que darei. Cada um de nós precisa buscar maneiras de não deixar um oco dentro de si neste momento, para evitar que a situação, que é difícil, se torne assustadora”, explicou Cortella em entrevista à Folha Press.

Cortella, que é autor de mais de 40 livros, diz não se entusiasmar com a ideia de que as pessoas serão transformadas positivamente após o fim da pandemia.

“Não creio numa redenção. Creio que muita gente, após um susto tomado, vai olhar algumas coisas de uma perspectiva diferenciada. Mas, quando se olha a humanidade, ao longo da história, percebe-se que nunca demos sinais de que aquilo que nos traumatiza, quando termina, nos redime. As lições são aprendidas por uma parte, mas há uma outra parte que só quer voltar ao normal.”


ENTREVISTA | Mario Sergio Cortella


Há amigos, parentes, gente próxima morrendo com a Covid-19. Como lidar com o medo?
Mario Sergio Cortella - A natureza colocou em nós dois mecanismos de proteção: medo e dor. Quando perdemos qualquer um dos dois, ficamos num estado de vulnerabilidade muito extenso.

O risco maior, neste momento, é não ter medo de nada, porque isso nos deixaria desatentos. À nossa volta, estão rondando coisas com um nível de fatalidade e de desconhecimento que não pode ser desprezível. O maior perigo hoje é achar que não há perigo.

Um ser que, do ponto de vista da ciência, é chamado de não vivo, um vírus, ainda assim, consegue nos produzir um dano fortíssimo. Ele se aproxima da ideia, um pouco infantil, do medo de fantasma: aquilo que a gente não vê, mas nos ameaça.

Como lidar com a angústia da incerteza?
Desabamos do pedestal no qual nos houvéramos colocado. Imaginávamos que, com o triunfo, no final do século 19, da ciência nas formas de progresso, que começou a se expandir, chegando ao final do século 20 com o mundo cheio de invenções e tecnologias inédita, estávamos no controle.

Bastaram duas décadas do século 21 para que entrássemos num estado de entorpecimento e surpresa, provavelmente com nossa petulância anterior, de supormos que o triunfo de Prometeu – da mitologia grega – estava colocado em campo, que a racionalidade nos garantiria uma visão nítida dos próximos passos da vida.

Estamos habituados hoje a satisfazer nossos desejos de maneira quase imediata. Estamos surpresos agora com esse retardo das soluções. O tempo todo aguardamos o passo imediato da cura, da vacina, da saída, do pico da doença, como num passe de mágica.

Ora aparece um medicamento salvador, ora se divulga que não há certeza sobre a imunidade contra o vírus. O que pensar?
A ciência não é infalível, mas é menos falível que a não ciência. Ninguém pode colocar na ciência fé inabalável. Ela também se equivoca, tem seus descaminhos históricos, mas eles são menores que seus acertos e sua capacidade de nos orientar. O esforço coletivo hoje, no campo científico, no planeta, para encontrar solução que preserve a vida humana é inédito.

Temos dois momentos históricos de um grande temor da morte coletiva – desconsiderando as grandes pestes, mais localizadas. A explosão das bombas nucleares, que trouxeram um pensamento muito concreto de fim da humanidade, é o primeiro. O segundo é este, da pandemia do coronavírus, que, 75 anos depois, nos coloca em alerta máximo novamente.

Os enterros estão sendo feitos sem despedidas da família. Qual a consequência?
É uma situação inédita para a geração que nasceu depois de 1945 e não viveu em realidades de guerras, em que não há tempo de enlutar. Ainda não tivemos tempo de avaliar o impacto que essa condição atual irá ter, até porque temos de lidar com a sobrevivência.

Nossas grandes marcas de humanidade, quase sempre, estão ligadas a rituais que nos conectam com nossos mortos, sinais de túmulos, de fogueiras, de cinzas, paredes gravadas.

As cerimônias, como os velórios e sepultamentos, são para nos confortar, para ganharmos força. Neste momento, muita gente está tendo de encontrar força sozinho. É muito mais doloroso, não há nem o tempo de se dar conta da perda. Infelizmente, acho que o impacto das perdas não compartilhadas será conhecido dentro de alguns meses.

Muita gente tem dito que todos sairemos dessa pandemia transformados em algum sentido. Você crê nisso? O efeito pode ser coletivo?
Não creio nisso. Não acho que a humanidade irá se converter à solidariedade. Este tipo de perspectiva é muito mais marcada por um desejo de que isso tenha seu lugar no mundo. Também não acho que ficaremos do mesmo modo, que olharemos as coisas da mesma forma.

Foi impactante ver as pessoas transformarem algo que deveria ser comum, como o pôr do sol espetacular em São Paulo no último dia 14, que foi até manchete de jornal, em um momento de alegria.

Mas acontece que, quando vemos o arco-íris muitas vezes seguidas, ele vai deixando de ser deslumbrante para ser comum. O olhar habitual sobre as coisas nos amortece um pouco. Não há dúvida de que, quando essa penumbra se dissipar, não vamos olhar do mesmo modo algumas coisas, mas não será um modo inédito de olhar.


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