UE se reunirá na quinta para responder a tarifas de Trump por causa da Groenlândia
Europeus avaliam um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros (R$ 581 bilhões) de importações dos EUA
A União Europeia marcou para quinta-feira (22) uma reunião de emergência entre os líderes do bloco para discutir a resposts que será dada aos EUA após a ameaça de tarifas sobre oito países europeus até que os norte-americanos consigam comprar a Groenlândia.
No momento, os europeus avaliam um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros (R$ 581 bilhões) de importações dos EUA, que poderia entrar em vigor automaticamente em 6 de fevereiro, após uma suspensão de seis meses.
Outra opção estudada é acionar o "Instrumento Anti-Coerção" (ACI), nunca utilizado até o momento, que poderia limitar o acesso a licitações públicas, investimentos ou atividades bancárias, ou restringir o comércio de serviços, no qual os EUA têm um superávit com o bloco, incluindo serviços digitais.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, se ofereceu para ser mediadora nas negociações. Meloni levou a extrema direita ao poder e tem o mesmo alinhamento político e ideológico de Trump. Ela afirmou que EUA e Europa têm as mesmas preocupações de segurança em relação a russos e chineses no Oceano Ártico.
Porém, Meloni criticou a atitude de Trump de ameçar tarifas de 10% sobre as importações de Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Reino Unido a partir de 1º de fevereiro.
"A perspectiva de tarifas mais altas para aqueles que contribuem para a segurança da Groenlândia é, na minha opinião, um erro e obviamente não compartilho dessa posição", afirmou a primeira-ministra nesse domingo (18). "Conversei com Trump e disse a ele o que penso. Precisamos retomar o diálogo", destacou.
Os ministros das finanças de França e Alemanha declararam nesta segunda-feira que as potências europeias não serão chantageadas e que haverá uma resposta clara e unida às ameaças de Trump. "Alemanha e França concordam: Não nos permitiremos ser chantageadas", disse o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, após se reunir com seu colega francês. Para ele, o "limite foi atingido".
"A chantagem entre aliados de 250 anos, a chantagem entre amigos, é obviamente inaceitável", afirmou o ministro das Finanças da França, Roland Lescure, que comentou ser favorável ao acionamento do ACI caso seja necessário.
"A França quer que examinemos essa possibilidade, esperando, é claro, que a dissuasão prevaleça", disse o ministro francês. Ele ressaltou que o país que não está interessado em uma escalada de tarifas, pois isso prejudicaria as economias de ambos os lados do Atlântico.
Lescure revelou que o país quer solicitar uma reunião entre ministros das finanças do G7 na quarta-feira (21), um dia antes da cúpula da UE. "O objetivo é revere a agenda do G7, mas também ter uma discussão franca com todos os membros do G7, incluindo os EUA, sobre essa situação lamentável", comentou.
Mencionada por Trump como um país que ameaça a Groenlândia, a Rússia voltou a negar e afirmou que o presidente norte-americano entrará para a história dos Estados Unidos e do mundo se assumir o controle da Groenlândia.
Trump tem insistido repetidamente que não se contentará com nada menos do que a posse da Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca. Ele afirma que, se os Estados Unidos não assumirem o controle da Groenlândia, a Rússia ou a China o farão.
Quando solicitado a comentar as falas de Trump sobre a suposta ameaça russa, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, Peskov disse que tem havido muitas "informações perturbadoras" ultimamente, mas que o Kremlin não comentaria sobre os supostos projetos russos na Groenlândia.
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"Aqui, talvez, seja possível abstrair se isso é bom ou ruim, se estará de acordo com os parâmetros da lei internacional ou não", declarou Peskov. "Há especialistas internacionais que acreditam que, ao resolver a questão da incorporação da Groenlândia, Trump certamente entrará para a história. E não apenas na história dos Estados Unidos, mas também na história mundial", complementou.
Na semana passada, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia disse que era inaceitável que o Ocidente continuasse afirmando que a Rússia e a China ameaçam a Groenlândia, e que a crise sobre o território mostra os dois pesos e duas medidas das potências ocidentais que alegam superioridade moral.
Os líderes da Dinamarca e da Groenlândia insistem que a ilha não está à venda e não quer fazer parte dos Estados Unidos.
O PACOTE DE 93 BILHÕES DE EUROS
Uma das medidas avaliadas pela UE é recuperar um pacote de tarifas retaliatórias no valor de 93 bilhões de euros, que havia sido aprovado em julho do ano passado, quando os EUA ameaçavam aplicar taxas de 30% sobre produtos exportados do bloco europeu. Um mês depois, os dois lados chegaram a um acordo para reduzir a cobrança para 15% e o pacote retaliatório foi suspenso.
Porém, com o anúncio de Trump neste sábado, a aplicação do pacote passou a ser debatida. A UE estuda impor tarifas sobre aviões da Boeing, carros, uísque bourbon, soja, maquinário, dispositivos médicos, produtos químicos, plásticos e equipamentos elétricos, de acordo com o jornal Financial Times que teve acesso à relação.
A escolha dos produtos levou em consideração o fato deles não dependerem dos EUA em suas exportações, ao mesmo tempo em que podem impactar diretamente na economia norte-americana. "Dado que a lista de 93 bilhões de euros é muito abrangente, penso que o critério principal teria sido minimizar os impactos negativos na UE", destacou Ignacio Garcia Bercero, ex-alto funcionário do comércio da UE.
O QUE É O INSTRUMENTO ANTI-COERÇÃO (ACI)?
Adotado em 2023, mas nunca utilizado, o ACI poderia restringir o acesso das grandes empresas de tecnologia dos EUA e de outras empresas ao mercado europeu e foi apelidado de "bazuca comercial" do bloco, sendo considerado a ferramenta mais poderosa da UE.
A medida pode revogar direitos de propriedade intelectual, impor tarifas sobre a Netflix ou filmes de Hollywood, impedir que empresas norte-americanas ganhem contratos de compras governamentais e até mesmo fechar os mercados financeiros para bancos americanos.
A preocupação é que as medidas podem prejudicar a economia da UE e seus consumidores, e existem poucas alternativas aos fundos de capital de risco dos EUA ou às empresas de computação em nuvem, por exemplo.
É um processo também lento, já que a Comissão Europeia precisa investigar a alegada coerção, negociar com os EUA e, em seguida, obter a aprovação de uma maioria ponderada dos Estados-membros para concordar em tomar medidas, um processo que leva pelo menos várias semanas.
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