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Histórias de violência no paraíso
Claudia Matarazzo
Claudia Matarazzo

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Histórias de violência no paraíso

Mergulhada que estou na História do Brasil, para um novo livro de receitas regionais e o “como comer e servi-las”, fiz uma imersão na obra “ História da Gente Brasileira”, da fantástica historiadora Mary del Priori.

Encontro testemunhos impressionantes que contrastam com o imaginário de “terra das palmeiras e de gente cordial” que sempre permeia referências ao nosso País.

Apesar da beleza natural, das exuberantes paisagens e das tentativas de embelezar o cotidiano com referências delicadas e nuances que remetiam a mimos europeus, o dia a dia no Brasil era permeado por correntes de violência nem sempre subterrâneas.

Um exemplo disso foi uma das maiores rebeliões escravas ocorrida em Minas, em São Tomé das Letras, em 1833: Gabriel Francisco Junqueira, filho do proprietário de uma grande fazenda, foi apeado de seu cavalo e morto a golpes de porrete na cabeça.

Feito isso, os escravos dirigiram-se ao terreiro e à Casa Grande da fazenda e, ao perceber que eram guardadas por dois capitães do mato, foram a até a vizinha fazenda Santa Cruz, onde assassinaram todos os brancos que lá encontraram.

A família de Gabriel Francisco foi toda assassinada a sangue frio, apesar da tentativa de esconder-se em um dos cômodos da casa. Foram massacrados brancos e proprietários de várias fazendas até ser capturado o líder, o escravo Ventura, com uma grande mobilização da Guarda Nacional para conter a rebelião.

Esse é um retrato brutal, mas verdadeiro, da realidade nesta terra, onde havia que se ter muita força interior e coragem para seguir vivendo e insistir em fincar raízes.

As escravas eram abusadas por seus senhores. Não apenas sexualmente, mas também obrigadas a produzir doces, bolos e outros quitutes, vender o produto sob o sol inclemente e entregar o lucro da venda aos mesmos senhores. Por outro lado, a arte da doçaria era aprendida com as mesmas escravas pelas sinhás e sinhazinhas.

Segundo Câmara Cascudo, os bolos possuíam uma função social importante, pois estavam presentes em toda sorte de comemoração, de batizados a casamentos, passando por noivados, aniversários e, até mesmo, em condolências – quando proporcionavam inegável conforto.

Podiam ser compartilhados e eram de fácil transporte, daí sua popularidade!

Para casar, moça prendada precisava bordar, cozinhar e ter “mão de ouro nos doces”.

Isso ia além de saber fazer sobremesas: qualquer tabuleiro de bolo era enfeitado com papel colorido delicadamente recortado, panos com franjas trabalhadas e decorado com canela e açúcar. Eram pequenas obras de arte da doçaria.

Relendo esses relatos, compreendo melhor a violência verbal, exposta com a explosão do uso de redes sociais. E até mesmo a não verbal, a qual assistimos diariamente em noticiários.

O Brasil sempre viveu grandes contrastes, oscilando entre a ofuscante e belíssima natureza, a alegria exuberante das folias e a violência, dissimulada ou escancarada. Evoluímos um pouco. Mas é grande o esforço para atravessar as nuvens escuras e continuar a saborear a doçura dos bolos coloniais.


 

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