Verão, corpo perfeito e um mito que insiste em sobreviver
Verão reacende a pressão estética e o mito do corpo perfeito sobre as mulheres
Iza Medonça
Izah Mendonça é jornalista, e apresentadora do programa Eu e Elas, o único do Estado voltado para o público feminino. Autora do livro Lisboa com Afeto, é também colunista, podcaster e empresária. Com 24 anos de carreira, atua dando voz as mulheres, fortalecendo histórias reais, o empreendedorismo, e a comunicação. É idealizadora do projeto 50tei e agora.
A chegada do verão costuma vir acompanhada de sol, calor e férias. Mas, para muitas mulheres, também traz um velho incômodo: a pressão pelo chamado “corpo perfeito”. Um ideal que reaparece todos os anos, reforçado por campanhas publicitárias, redes sociais e discursos que insistem em associar beleza à magreza, juventude e ausência de marcas do tempo.
Especialistas em comportamento e saúde mental alertam: não existe corpo perfeito. O que existe é um padrão inventado, construído socialmente e sustentado por uma indústria que lucra com a insegurança feminina. Um padrão que ignora biotipos, histórias, fases da vida e transforma o corpo da mulher em um projeto eterno de correção.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a insatisfação corporal afeta majoritariamente mulheres. Pesquisas internacionais mostram que mais de 70% delas já se sentiram desconfortáveis com o próprio corpo ao se expor em ambientes como praias e piscinas. No Brasil, estudos na área de psicologia apontam que a pressão estética aumenta significativamente nos meses que antecedem o verão.
Esse ideal não é apenas irreal, ele é machista. Historicamente, o corpo feminino sempre foi alvo de controle social. Se antes era coberto, hoje é exposto, avaliado e julgado. Em ambos os casos, a mensagem é a mesma: nunca está bom o suficiente. Sempre falta algo. Sempre precisa mudar.
O resultado é uma sobrecarga física e emocional. Mulheres se tornam reféns de dietas restritivas, rotinas exaustivas de exercícios e procedimentos estéticos que, muitas vezes, não respeitam seu biotipo nem sua saúde. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o número de procedimentos estéticos cresce de forma expressiva antes do verão, impulsionado pela promessa de um corpo “adequado” para a estação.
O problema não está no cuidado com o corpo, mas na obrigação de transformá-lo para caber em um padrão. O cuidado saudável respeita limites, escuta o corpo e considera o bem-estar. A escravidão da beleza ignora sinais de cansaço, dor e adoecimento emocional.
Especialistas reforçam que esse tipo de pressão contribui para o aumento de transtornos alimentares, ansiedade e baixa autoestima. A mulher passa a se relacionar com o próprio corpo a partir da culpa e da comparação, e não do respeito.
Falar sobre o mito do corpo perfeito é, também, falar sobre liberdade. Liberdade para existir em diferentes formas, idades e tamanhos. Liberdade para viver o verão sem pedir desculpas ao próprio corpo. Liberdade para entender que beleza não é uniforme, nem estação do ano.
O verão chega todos os anos.
O corpo muda.
A vida também.
Talvez o verdadeiro convite desta estação seja outro: abandonar padrões que adoecem e construir uma relação mais honesta, gentil e real com o próprio corpo. Porque corpo perfeito não existe. O que existe é o corpo possível, vivo, e suficiente.
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PÁGINA DO AUTOREu e elas
Esta coluna é um espaço dedicado a histórias que inspiram mulheres a serem protagonistas de suas vidas. Izah aborda empreendedorismo, comportamento, saúde, bem-estar e causas sociais, valorizando trajetórias reais, conexões e informação com propósito.